CO-3392
Portinari, Candido. [Carta] 1930 set. 3,
Paris [para] Rosalita Mendes de Almeida, Praga. 3 p. [manuscrito]
Bichinha, meu bem
Recebi hoje a carta boa de você, depois de ter botado no correio uma carta grande, pra você, falando grosso sobre pintura. Todo aquele entusiasmo é por causa da chegada de você. Como é bom a gente saber que você está se lembrando da gente aí numa cidade que tem tanta coisa pra ver. Você é muito boazinha; ficar em casa só para me escrever – perdendo uma porção de passeios bonitos; - sobretudo alegar que estava doente. Como você é boazinha. Não me esquecerei nunca de tudo isto. Você está tão pertinho e eu não posso ir ver você... porque?...
Recebi sim bichinha as cartas que você escreveu do Rio dizendo que vinha e uma fotografia de você ao lado de um busto. Você fazendo escultura. Foi uma surpresa poque o busto está muito bem; mais tarde conversaremos sobre isto. A carinha de você me deu uma saudade... quanta saudade.
Você recebeu a minha carta Palanin?
Tenho pensado muito e sempre em você. Estou com saudades também do Rio – do nosso (do meu) banco da praia, do auto-ônibus, daquelas duas ruas... e duma porção de detalhes – está tudo abandonado... ninguém olha pra eles... Eu não compreendo você em Praga e no entanto eu tenho a impressão de que você está aqui perto e por isto estou inquieto e com uma vontade tão grande de ver você. Eu queria ter cartas de você todos os dias – umas cartas compridas que falassem muito e que dissessem que você se lembra muito de mim... Mas... Você não acha a vida engraçada? Eu acho. Eu acredito no destino e por isso, às vezes, fico desanimado. Você acha que o destino existe? Quando eu era mais pequeno o seu vigário sempre me dizia que era a gente que fazia o destino e eu acreditava, mas, depois, na vida de verdade, fiquei indeciso – porque às vezes as coisas aconteciam sozinhas...
Não adianta a gente querer que aconteça uma coisa, ela só acontece se ela quiser. Você acha a vida boa? Eu acho, quando você me escreve uma carta boa. Eu gosto muito das suas cartas – porque é que você não me escrevia pra Brodowski?
Eu gostaria que você me escrevesse todos os dias, mas eu sei que você não é de você; eles naturalmente querem que você os acompanhe nas festas. Quanta saudade, meu Deus... já não tem mais conta. Tou com uma dor de saudade... assim grande... Tudo do
Portinari só seu