8 JORNAL DO BRASIL
GILBERTO GIL
O elefante.
Meu olho gago lera:
O elegante.
VOTOS DE ANO NOVO
Este ano faremos uma dieta saudável. Não falaremos
uma coisa e faremos outra, completamente diferente. Não
nos apegaremos apenas às aparências. Ouviremos mais.
Não buzinaremos ansiosamente. Nem ultrapassaremos os
sinais vermelhos. Evitaremos as bandalhas e a direção peri-
gosa. Não jogaremos lixo nas praias. Nem nas calçadas.
Nem pela janela dos carros. Não deixaremos pilhas no lixo
comum. Nem garrafas plásticas em rios e canais. Este ano,
sempre que possível, iremos de bicicleta às praias, shop-
pings, cinemas e escritórios. E não andaremos na ciclovia
nem pedalaremos na pista dos pedestres.
Este ano não construiremos túneis inúteis. Nem shoppings
que agravam o caos urbano. Não desmataremos encostas.
Nem ergueremos casas sem licença em morros e à beira de ca-
nais e lagoas. Não queimaremos lixo junto ao capim colonião.
Reflorestaremos mais e mais. Não andaremos de jet-ski a me-
nos de 200 metros da arrebentação. Não limparemos tanques
de navio à noite, evitando o vazamento de sujeira no mar. Não
derramaremos petróleo no mar. Este ano, no Rio, construire-
mos a conexão entre a estação de tratamento da Alegria e a re-
de de esgoto. E evitaremos o mico de ter uma estação de es-
goto que não recebe esgoto.
Este ano regularemos as bombas injetoras dos ônibus, im-
pedindo-os de soltar aqueles rolos de fumaça negra. Usaremos
só o chamado diesel metropolitano, com baixo teor de enxo-
fre. Racionalizaremos os ônibus, fazendo com que os usuários
das periferias não tenham que esperar horas nos pontos, en-
quanto as filas de ônibus vazios engarrafam as regiões mais
valorizadas. Este ano começaremos a construir o emissário da
Barra, no Rio, com sua estação de tratamento e o complemen-
1
B
cademob@jb.com.br
to de redes necessário para tirar
o esgoto das lagoas. E velare-
mos para que as estações de tra-
tamento dos condomínios da
Barra funcionem direito.
Este ano exorcizaremos o ra-
cismo. Usaremos a Internet e
outros meios de comunicação
para disseminar o saber, o afeto
e a ética, não o ódio e a into-
lerância. Seremos solidários
com o sofrimento humano em
qualquer ponto do planeta. Abo-
minaremos a guerra e a tortura.
Votaremos nos ecologistas. Des-
confiaremos dos transgênicos.
Nos oporemos as usinas nuclea-
res. Lutaremos contra as quei-
madas, a biopirataria e as madei-
reiras que desmatam ilegalmente
e falsificam planos de manejo na
Amazônia. Este ano cobraremos
uma reforma agrária ecológica,
uma
agricultura livre de agrotó-
xicos e uma pesca que garanta o
peixe de amanhã.
Este ano faremos um ensaio geral do próximo milênio,
que começa em primeiro de janeiro de 2001. Em 1999 a
humanidade ficou em recuperação. Ou, como se dizia an-
tigamente, em segunda época. Que em 2000 passemos de
ano com louvor.
FALA, LEITOR 1: "Sou moradora da Rua Timóteo da
Costa, no Rio. Havia aqui um problema sério de desmatamen-
to e incêndio. Um grupo de grileiros tocava fogo nas matas do
Alto Leblon e aproveitava para construir barracos. O pintor
Antônio Veronese propôs que os moradores do bairro se coti-
zassem, de modo a comprar casas para os invasores e salvar a
mata. ceticismo foi geral. Mas ele entrou em acordo com os
mais de 300 invasores e o projeto deu certo. Depois os filhos
dos moradores foram conclamados a plantar mudas de árvores
na área desmatada. Hoje, quase dez anos depois, havia
fogo e destruição há muito verde, com micos e pássaros.
Quando leio a coluna e vejo uma apreensão com o desmata-
mento, lembro dessa iniciativa bem-sucedida, da qual todos os
moradores do Alto Leblon temos muito orgulho." (Bertha
Gruebel, Rio de Janeiro)
FALA, LEITOR 2:: "Quero expressar minha grande sa-
tisfação com a coluna que abordou a urgente necessidade
do gerenciamento das águas pluviais e os problemas com
as chuvas. Tenho algumas sugestões. Precisamos, por
TERÇA-FEIRA, 4 DE JANEIRO DE 2000
exemplo, obrigar que as novas
construções de todos os tipos
tenham tanques de retenção
para a chuva que cai nos telha-
dos, permitindo seu aproveita-
mento nas descargas dos ba-
nheiros, nas máquinas de lavar
e na irrigação dos jardins e
hortas. Precisamos também de
telhados vegetais, com 5 a 8cm
de massa vegetal, cobertos por
grama, flores e pequenos ar-
bustos, que retêm água, melho-
ram o microclima e aumentam
em muito a vida útil das edifi-
cações." (Jack M. Sickermann,
Rio de Janeiro)
MAROLAS
A travessia de carro pela Es-
trada da Grota Funda, entre o
Recreio e Guaratiba, no Rio,
demora quatro minutos. A pre-
feitura pretende usar R$ 12 mi-
lhões de reais dos impostos
dos cariocas e mais R$ 60 mi-
lhões da iniciativa privada para construir um túnel cuja tra-
vessia, com o pedágio previsto, talvez leve mais tempo.
Qual é a explicação?
A Unesco prepara uma série de atividades para divulgar em
todo o planeta o Ano Internacional da Cultura da Paz, como
o lançamento do Manifesto 2000, texto humanista assinado
em Paris por um grupo de ganhadores do Prêmio Nobel da
Paz, Nelson Mandela e Adolfo Perez Esquivel à frente
(www2.unesco.org/manifesto2000).
BOA PERGUNTA
. Os deputados federais do Rio conseguiram, conforme o
prometido, incluir no Orçamento da União as verbas para
o emissário da Barra e o saneamento da baixada de Jaca-
repaguá? Em caso afirmativo, como pretendem desblo-
quear essas verbas?
NAVEGAR É PRECISO
Grupo de rock Hojerizah: www.hojerizah.com
LER TAMBÉM
. A onda maldita - Como nasceu e quem assassinou a
Fluminense FM (Xamã), de Luiz Antônio Mello
(www.aondamaldita.com.
br).
com Sergio Sá Leitão e Alberto Santos/Fundação OndAzul
e-mail para esta coluna: ondazul@ondazul.org.br