ISTOÉ Sua voz foi o principal moti-
vo do sucesso?
Milton A voz também, mas era muito
mais, um negócio diferente. Nunca ti-
nham visto alguém tocar violão daquele
jeito. O Maurice White, lider do Earth
Wind & Fire, disse que o grupo dele
passou a existir por causa do jeito que
eu toquei no disco com o Wayne Shor-
ter. Naquela época havia muita rixa en-
tre os estilos musicais. O pessoal do pop
não gostava do pessoal do rock, que não
gostava do samba e por aí vai. Do nos-
so disco todo mundo gostou e começou
a me chamar para gravar vários estilos.
Estou em todas que me chamam, desde
que eu goste.
ISTOÉ - Como vê a música brasileira
hoje, tão diferente da música politizada
daquela época?
Milton - Não tenho nenhuma exigência
de música ligada a política. Tudo que
faço é baseado no ser humano, geral-
mente a partir dos olhos das crianças.
Eu fico pensando: poxa, quem está aca-
bando com a terra nunca olhou o brilho
no olho de uma criança. Se olhar bem,
não vai ter coragem de fazer nada para
apagar esse brilho. Criança é a coisa
mais importante do mundo.
ISTOÉ - Se criança é tão importante
para você, por que não teve filhos?
Milton É uma história na qual eu
não gosto de tocar. Tenho 114 afilha-
dos. Sei o nome de todos. As crianças
gostam de mim e me chamam. As ve-
zes batizo três de uma mesma familia.
Segundo o candomblé, sou filho de
Oxalá, mas sou cercado de eres, espi-
ritos de crianças.
ISTOÉ - Gravaria um funk?
Milton - Não sei. Por enquanto não.
ISTOÉ - Gosta de funk?
Milton
Ô, meu Deus, estávamos fa-
lando de outra coisa.
ISTOÉ - Gosta?
Milton - Olha, tem lugar para todo mun-
do. Dizem que a música brasileira está
uma porcaria, que não aparece nada
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novo. Está errada essa
idéia. A MPB está boa.
sim. Só que não é fácil
aparecer.
ISTOÉ - Você é uma
Não sou preso a
estrela internacional religião. A Missa
dos quilombos
foi uma idéia do
dom Hélder
Câmara. Fiz
e consegue manter
sua vida pessoal pou-
co exposta. Qual é o
segredo?
Milton - Ué, eu estou
ai, vê quem quer. Já
sofri muito com men-
tira da imprensa. Quan-
do meu remédio para
diabete me deu anore-
xia, pegaram pesado
demais. Foram à mi-
nha família, aos meus
amigos, tudo. Divulga-
mos um atestado de
que eu não tinha doen-
ça infecto-contagiosa,
mas o negócio foi tão
mau que escolheram
médicos amigos dos
meus médicos para fa-
larem que meus médi-
cos estavam mentindo,
que diabete não provo-
ca isso.
para os negros
em geral”
ISTOÉ - Como está a saúde?
Milton-Otima, graças a Deus.
ISTOÉ - Você é religioso?
Milton Decidi que não seria preso a
religião ou a partido porque quero con-
versar com todos. De vez em quando
vou ao espiritismo, ao candomblé. Ao
mesmo tempo, fiz Missa dos quilombos,
para os negros em geral, uma idéia do
dom Hélder Câmara. Falávamos coi-
sas da África para quilombos dentro
da Basilica de Nossa Senhora Apare-
cida, com padres.
Seu cabelo é homenagem à
ISTOÉ
Africa?
Milton É uma homenagem a mim. Des-
cobri que meu boné estava ficando mais
famoso do que eu. Pensei: esse boné está
muito metido. Ai, fiz as tranças.
ISTOÉ - Qual o tama-
nho da Africa em sua
obra?
Milton Está em meu
corpo inteiro. Saiu meu
DNA mostrando que
99,4% é africano, 0,3%
indio e 0,3% branco.
ISTOÉ - Como conse-
guiu ficar no Brasil du-
rante a ditadura?
Milton
Fui persegui-
do. Não fico tocando
nisso porque chega de
sofrer. Fui preso sob a
alegação de que fazia
barulho no prédio onde
morava, na Lagoa -
apesar de eu estar na
Venezuela no dia da de-
núncia. Aí o delegado
mudou a acusação, di-
zendo que eu escondia
presos. Só não fiquei
preso porque uma pes-
soa lá dentro me conhe-
cia desde criança e fa-
lou: "Nem pense em to-
car nesse cara." Ai me
soltaram.
ISTOÉ - Você ficou na mira da censu-
ra?
Milton Não fui para o exilio, mas
todas as portas se fecharam para mim.
Pensam que só sofri censura depois do
Milagre dos peixes, mas foi algo cons-
tante. A letra da música Ao que vai nas-
cer, do Fernando Brant, foi proibida.
Uma vez tive de ir ao Dops porque dei
uma entrevista falando sobre racismo no
Brasil. Tinha encontrado a filha do Pau-
lo Moura na rua, chorando por ter sido
barrada em um clube de Copacabana por
ser negra. Ainda há muito racismo no
Brasil.
ISTOÉ - É a favor das cotas para ne-
gros nas universidades públicas?
Milton Seria melhor ter cotas para as
pessoas necessitadas. Para os negros,
vira racismo. Tinha de ser para quem
não tem condições de estudar.
ISTOÉ/1990-19/12/2007
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