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Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil

Instituto Gilberto Gil

Instituto Gilberto Gil
Brasil

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  • Título: Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil
  • Transcrição:
    ISTOÉ Sua voz foi o principal moti- vo do sucesso? Milton A voz também, mas era muito mais, um negócio diferente. Nunca ti- nham visto alguém tocar violão daquele jeito. O Maurice White, lider do Earth Wind & Fire, disse que o grupo dele passou a existir por causa do jeito que eu toquei no disco com o Wayne Shor- ter. Naquela época havia muita rixa en- tre os estilos musicais. O pessoal do pop não gostava do pessoal do rock, que não gostava do samba e por aí vai. Do nos- so disco todo mundo gostou e começou a me chamar para gravar vários estilos. Estou em todas que me chamam, desde que eu goste. ISTOÉ - Como vê a música brasileira hoje, tão diferente da música politizada daquela época? Milton - Não tenho nenhuma exigência de música ligada a política. Tudo que faço é baseado no ser humano, geral- mente a partir dos olhos das crianças. Eu fico pensando: poxa, quem está aca- bando com a terra nunca olhou o brilho no olho de uma criança. Se olhar bem, não vai ter coragem de fazer nada para apagar esse brilho. Criança é a coisa mais importante do mundo. ISTOÉ - Se criança é tão importante para você, por que não teve filhos? Milton É uma história na qual eu não gosto de tocar. Tenho 114 afilha- dos. Sei o nome de todos. As crianças gostam de mim e me chamam. As ve- zes batizo três de uma mesma familia. Segundo o candomblé, sou filho de Oxalá, mas sou cercado de eres, espi- ritos de crianças. ISTOÉ - Gravaria um funk? Milton - Não sei. Por enquanto não. ISTOÉ - Gosta de funk? Milton Ô, meu Deus, estávamos fa- lando de outra coisa. ISTOÉ - Gosta? Milton - Olha, tem lugar para todo mun- do. Dizem que a música brasileira está uma porcaria, que não aparece nada 8 novo. Está errada essa idéia. A MPB está boa. sim. Só que não é fácil aparecer. ISTOÉ - Você é uma Não sou preso a estrela internacional religião. A Missa dos quilombos foi uma idéia do dom Hélder Câmara. Fiz e consegue manter sua vida pessoal pou- co exposta. Qual é o segredo? Milton - Ué, eu estou ai, vê quem quer. Já sofri muito com men- tira da imprensa. Quan- do meu remédio para diabete me deu anore- xia, pegaram pesado demais. Foram à mi- nha família, aos meus amigos, tudo. Divulga- mos um atestado de que eu não tinha doen- ça infecto-contagiosa, mas o negócio foi tão mau que escolheram médicos amigos dos meus médicos para fa- larem que meus médi- cos estavam mentindo, que diabete não provo- ca isso. para os negros em geral” ISTOÉ - Como está a saúde? Milton-Otima, graças a Deus. ISTOÉ - Você é religioso? Milton Decidi que não seria preso a religião ou a partido porque quero con- versar com todos. De vez em quando vou ao espiritismo, ao candomblé. Ao mesmo tempo, fiz Missa dos quilombos, para os negros em geral, uma idéia do dom Hélder Câmara. Falávamos coi- sas da África para quilombos dentro da Basilica de Nossa Senhora Apare- cida, com padres. Seu cabelo é homenagem à ISTOÉ Africa? Milton É uma homenagem a mim. Des- cobri que meu boné estava ficando mais famoso do que eu. Pensei: esse boné está muito metido. Ai, fiz as tranças. ISTOÉ - Qual o tama- nho da Africa em sua obra? Milton Está em meu corpo inteiro. Saiu meu DNA mostrando que 99,4% é africano, 0,3% indio e 0,3% branco. ISTOÉ - Como conse- guiu ficar no Brasil du- rante a ditadura? Milton Fui persegui- do. Não fico tocando nisso porque chega de sofrer. Fui preso sob a alegação de que fazia barulho no prédio onde morava, na Lagoa - apesar de eu estar na Venezuela no dia da de- núncia. Aí o delegado mudou a acusação, di- zendo que eu escondia presos. Só não fiquei preso porque uma pes- soa lá dentro me conhe- cia desde criança e fa- lou: "Nem pense em to- car nesse cara." Ai me soltaram. ISTOÉ - Você ficou na mira da censu- ra? Milton Não fui para o exilio, mas todas as portas se fecharam para mim. Pensam que só sofri censura depois do Milagre dos peixes, mas foi algo cons- tante. A letra da música Ao que vai nas- cer, do Fernando Brant, foi proibida. Uma vez tive de ir ao Dops porque dei uma entrevista falando sobre racismo no Brasil. Tinha encontrado a filha do Pau- lo Moura na rua, chorando por ter sido barrada em um clube de Copacabana por ser negra. Ainda há muito racismo no Brasil. ISTOÉ - É a favor das cotas para ne- gros nas universidades públicas? Milton Seria melhor ter cotas para as pessoas necessitadas. Para os negros, vira racismo. Tinha de ser para quem não tem condições de estudar. ISTOÉ/1990-19/12/2007
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