A alma de Gil pode ser percebida naquele momento em que ele
foi obrigado a sair do
Brasil e escreveu Aquele Abraço
Uma das coisas muito boas que ele trouxe - pra mim, que não
sou da Bahia - forum olhar novo sobre a sua terra. Quando penso
na Bahia a vejo por intermédio dos versos e da melodia de Gil.
Outra coisa que suas canções trouxeram foi uma dose de
misticismo que, de certa forma, contribuiu para uma abertura
a visão oriental, espiritual, da vida, como por exemplo em
Se Eu Quiser Falar com Deus. Mesmo se il não tivesse uma posição
politica tão interessante eu o amaria
Uma das obras mais importantes de Gilberto Gil não tem sua
autoria reconhecida pelo grande publico a recuperação do
Pelourinho, o Centro Histórico de Salvador. Poucos sabem, mas foi
ele quem deflagrou o movimento de recuperação desse
Fernando Gabeira, carioca, escritor, deputado federal do PV patrimônio da humanidade. Carria o ano de 1987, e alugarande
o Brasil nasceu vivia jogado às moscas, ou o que é pior, as
ratazanas, Gil iniciou a campanha pela recuperação. Nós da W/Brasil fizemos os
anuncios, mas foi o próprio Gil que conseguiu mobilizar os politicos, a comunidade
ca midia, que arrumou testemunhos de gente como Akio Morita, Paul Simon e Julio
Iglesias enfim, que costurou tudo. Hoje, menos de dez anos depois, a Pelourinho
voltou a ser orgulho dos balanos e de todos os brasileiros. Os turistas, que antes se
chocavam com a destruição do lugar, agora se deliciam com o Tempero da Dada eo
som da timbalada. Acredito que a autoria dessa grande obra de Gil so passou
despercebida pela maiona porque chega a ser dificil para as pessoas lembrar de
outras coisas feitas por ele diante da grandiosidade de sua musica. Mas dessa eu
não preciso falar Ela está no coração e na memoria de todos nós, que, por sinal
esperamos ansiosos por mais.
Washington Olivetto, presidente e diretor de criação da W/Brasil
um ser múltiplo
Agora é 1996. Gilberto Gil parece mais magro,
porém rijo, os olhos saltam, luminosos. O riso é
espontâneo, a palavra vem fácil.
Vogue: Quantos Gils ocê reconhece ao longo dese caminho
Gilberto Gil: liiih! É impossivel contar... Engraçado, agora
há pouco eu estava lendo um livro sobre Fernando Pessoa. E
vendo aqueles heterónimos todos, Álvaro Campos, Ricardo
Reis, todos eles. E fiquei pensando que é assim mesmo. Um
artista, um criador, ele é, na verdade, muitos. Ele é variado,
múltiplo, revela na sua criação aspectos ligados as várias per-
sonalidades, aos diversos olhares sobre o mundo. Aos dife-
rentes enfoques sobre a vida a existência, as várias densidades
cle personalidade. O fato de vibrar com as dimensões da cria-
ção faz com que o artista seja impelido a ver diferentemente
a si próprio. A se ver como espelho do mundo. Assim, sou
Eu sou uma pessoa extremamente extravertida. Potentados não me
intimidam. Diante de grandes platelas me sinto em casa. Mas
perante Gil e Caetano me reduzo a minha insignificante posição de
tiete. E você sabe o que é tiete? Tiete é uma espécie de admirador,
atrás de um bocadinho só do seu amor
Nizan Guanaes, publicitario, comandante da DNO
como qualquer artista, variado... Pensei nisso, curioso, pensei
mesmo. Eu deveria ter heterónimos para ser um quando es-
crevesse Se eu Quiser Malar com Deus, outro quando es-
crevesse Venda Menina Bertama, outro quando fosse o cronista
que escreve o Guerra Santa, a propósito da Igreja Universal
e essas coisas todas. Um Gil é o preocupado com a vida e a
morte, outro com a transcendencia, outro com o olhar realista
sobre o mundo, outro com a captação imediata dos sentidos,
enfim, tudo. Realmente, sou vários. Há poucos dias é que me
dei conta de que poderia mesmo trabalhar em diferentes es-
tados e planos, distingui-los um pouco mais formalmente, no
sentido operacional, no sentido do próprio fazer artistico e da
própria classificação destes afazeres.
V: Você falou em escrever. Mas uma vez declarou que no es
Cree que escrever exige uma disciplina que você não tem, que
você fala, prefere falar pensa melhor falando.
GG: Verdade, o jorro é uma coisa.... bem, tenho a ambição de
escrever e ao mesmo tempo a dificuldade... Sou um homem
de música que tem tentado, ao longo destes anos, dialogar
VOGUE BRASIL 222.1996
Uma vez o empresário do Gil (isto faz tempo) me telefonou. Eles estavam em
Porto Alegre para uma apresentação eo Gil queria falar comigo. Fui até o
hotelo empresário nos apresentou e conversamos. À medida que o tempo
passava ful me dando conta que a cortezla do Gilera a de quem espera que
se chegue ao assunto principal. O empresario aparentemente, tinha se
esquecido de dizer ao Gil que ele é que queria falar comigo. Ficamos uma
boa meia hora passando a bola para o outro chutar
cochute nunca sala. Seo Gil se lembra do fato, deve
estar até hoje curioso para saber o que eu queria
com ele. Mas foi uma melhora muito agradivel
Dshow dele, aquela noite, foi memorável Tinhao Gil
das belas cances e dos samboes Aquele Area
ainda era uma novidade e tinha também uma
parte de pauleira instrumental fantastica Gil
sempre me pareceu o mais ecetica, com perdão da
palavra dos baianos. Eacho que Meu Amiga Meu
Herbie Super Homem são duas das musicas mais
bonitas já feitas no Brasil.
Luis Fernando Verissimo,
humorista e musico
Gil é um grande amigo de varios
anos. Somos vizinhos. Ele é uma
pessoa maravilhosa e a Flora, sua
mulher, é como uma irma, uma
grande amiga. Somos comadres -
batize sua filha Isabela. Acho o Gil
calmo, muito humano. Uma de suas
qualidades é a simplicidade. Ele tem
sempre uma palavra amiga para
todos, e um amigo muito presente.
Você pode contar com ele em
qualquer momento de dificuldade.
É um artista maravilhoso,
um dos maiores do Brasil.
Lilibeth Monteiro de
Carvalho, carioca, empresaria
com o texto, primeiro por força das circunstâncias, como é o
caso da vida estudantil, depois pelo gosto artistico. Quando
você começa a se considerar artista, ou pelo menos projeto de
artista, as outras artes acabam entrando. Todas as artes têm de
ser levadas em consideração, principalmente para o músico.
Então, você passa a
a prestar um pouco mais de atenção no
teatro, o cinema deixa de ser uma diversio juvenil, passamos
a ter o gosto pela arte pelos vários significados que ela tem
E, evidentemente, este interesse passa pelo texto. Gostaria de
escrever, até mesmo, se possivel, escrever um livro
V: Um livro pode ser um sonbo, uma utopia. É sempre bom ter
uma pela frente
GG: É. Tem também a relação com o computador... porque
não cheguei nem na máquina de escrever toda escrita que
produzi foi à mão.. mas com o computador descubro um en-
canto novo...
.
Gil é um desses fenómenos que acontecem na música
brasileira: é uma de suas estrelas. Como pessoa é
extremamente generoso, carinhoso e tenho por ele grande
gratidão Eu o conheço há 30 anos, morei na sua casa quando
fui para Londres e ele foi o amigo das horas
dificeis. Se o admiro como pessoa, com seus
hábitos e seu comportamento, como músico
minha admiração é também enorme, seja no
palco ou em casa, fazendo qualquer coisa no
violão. Na música, Gil sempre é uma lição, porque
tudo o que faz está ligado ao prazer à sua
extrema musicalidade. Com sua música
e seu humor ele é dessas pessoas que enfeitam
a vida, que da graça a uma coisa tão sem graça
que é a existência
Júlio Bressane,
carica, cinesta
V. Há um fascinio pelas múltiplas possibilidades.
GG: E me veio um fascinio novo pela escrita
V: Por anos e anos se falou em politica. Parece que agora se
VOGUE BRASIL 222.1996
fala muito em economia. Acha que a saída do Brasil e pela
economia?
GG: Não acho que a saída de nenhuma nação, nenhuma co-
munidade, especialmente as comunidades novas, ticas, com-
plexas, com perfis não muito bem-definidos, como é o caso
do Brasil, seja pela economia. Ao contrário, o próprio flo-
rescimento dessas nações traz embutido no seu potencial uma
contestaçdo natural ao economicismo, il visão puramente
pragmatica ou ao utilitarismo puro e simples, com a visão
monetarista, a visão de resultados, a questão da riqueza ma-
terial, etc. Nos brasileiros estamos no ceme dessa contestação,
em termos internacionais. Somos um pais com dimensio con
tinental. Temos riqueza do ponto de vista da classificação
tradicional: riquezas minerais, o tal petróleo, os minerais es-
tratégicos, as areias monazíticas, etc. Com tudo isso, a riqueza
do subsolo, o potencial agricola, o parque industrial, pas
Samos a viver uma outra perspectiva. Porque há outras
riquezas, há o amálgama das raças, a disposição das nações
novas para criar outras literatures, músicas, até outras histórias