O Cover feature
Esse conceito também poderia ser aplicado ao debate
sobre o uso dos chamados programas de computador
open source, uma causa liderada pelo governo Lula?
O open source permite uma democratização do
desenvolvimento tecnológico, é do interesse da ciência.
O princípio é humanitário: se deixarmos de
compartilhar, em que tipo de mundo vamos viver?
Talvez voltemos ao feudalismo, em que o rei mandava
nos vassalos. É como a história do fazendeiro que queria
impedir aviões de sobrevoar suas terras porque o ruído
dos motores assustava as galinhas. Não sou contra
a propriedade, mas ela tem de existir de acordo com
vários interesses, não apenas o do dono!
Sobre a turnê internacional, qual
é a sua expectativa de voltar a Londres?
As recordações são mistas. Os tempos que passei
na Inglaterra não foram os mais felizes da minha
vida, pois fui parar lá depois de ser expulso do Brasil
(Gil e Cactano foram "convidados" pelo governo militar
a deixar o país em 1969, juntamente com intelectuais
que se opunham à ditadura militar). Mas foi em
Londres que tive a chance de viver uma realidade
diferente, de comprar uma guitarra elétrica.
O bom virou mau, que virou o bom...
Seu show Eletroacústico surpreende pelos flertes
com a tecnologia, mesmo em algumas canções
mais antigas. Qual é o próximo passo?
Já estou preparando um disco de sambas antigos,
um projeto com qual sonho há muito tempo. Volta
e meia dou uma ensaiadinha. Acordo, faço ginástica
e passo meia hora tocando violão (risos).
Recentemente, você recebeu dois prêmios muito
importantes, o Prêmio Extremadura à Criação,
na Espanha, e o Polar Music Prize, na Suécia.
Foi uma honra não apenas pelo reconhecimento do
meu trabalho e pelos colegas ilustres que já receberam
esses premios. No caso do Polar, foi a primeira vez em
que um artista latino-americano foi agraciado,
o que representa uma abertura importante de um
país europeu para a cultura do nosso continente.
Os suecos também prepararam uma festa muito
bonita para mim, com direito até a uma banda de
estrangeiros cantando minhas músicas. Só ficaram
um pouco sem entender quando me perguntaram
quem cu gostaria de indicar par ao prêmio
futuramente e cu sugeri o nome do Arnaldo Antunes.
Você acredita que esses prêmios também reforçaram
sua posição como astro da world music, especialmente
porque os europeus estranham um pouco essa
polivalencia dos músicos latinos?
Ouvi jornalistas me chamando de pioneiro da
world music, mas eu nunca decidi enveredar por essa
avenida. Foi um impulso, já que desde pequeno eu
ouvia todo o tipo de música, fosse pop, rock, baião,
jazz, tango ou música italiana. Essas influencias
acabaram se refletindo no meu trabalho. No fundo,
porém, sou basicamente um cara pop.
28 | JungleDrums #26 julho/2005
intellectuals who opposed the dictatorship). But it was
in London that I got the chance to experience a different
way of life, to buy an electric guitar. What
was good turned bad, and ended up
becoming good again...
One of the most interesting aspects
of your show, Electracústico, is the
way in which you flirt with modern
technology, even on some older songs.
What have you got planned next?
I'm already working on a record of
old samba songs, a project I've dreamt
of for some time now. Every now and
again I rehearse a bit. I wake up,
work out and spend half an hour
playing my guitar (laughs).
Recently, you received two
important prizes, the Premio
Extremadura a la Criación,
in Spain, and the Polar
Prize, in Sweden...
It was an honour,
and not only because
of the professional
recognition and the
illustrious people who
have won these prizes
previously. In the case
of the Polar, it was
the first time that a
Latin American artist
had won the prize, which
shows that a European country is
opening up to our continent's culture,
which is important. The Swedes
also prepared a very beautiful party
for me, with a band of foreigners
singing my songs. It was only when
they asked me whom I would like
them to indicate for the prize in the
future, and I suggested Arnaldo
Antunes, that they were left
a little perplexed.
Do you think that these prizes
also reinforce your status as
a World Music star, especially
since Europeans seem to find
the versatility of Latin American
musicians a bit bewildering?
I've heard journalists calling
me a World Music pioneer before,
but it was never something planned. It
was an impulse. I'd always listened to lots
of types of music all my life, from pop and
rock to baião, jazz, tango and Italian music,
and these influences ended up having an
impact on my work. Deep down, however,
I'm a pop-lover at heart.
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