sença negra em
São Paulo, compara-
tivamente ao Rio, Salvador, Recife,
São Luís, é coisa infima... Hoje a
gente associa São Paulo a uma "au-
sência de presença” negra. Não foi
assim cem anos atrás.
RAÇA Será que não foram
confinados pela questão
econômica?
GIL - Tenho a impressão de que é
pelo fato de São Paulo ter escolhido
como definição do seu caráter a ati-
vidade industrial com todas as suas
conseqüências - tendo que trazer
mão-de-obra imediatamente quali-
ficada, não podendo formar. Na
Bahia, ao contrário, a industrializa-
ção foi tardia. O pólo petroquímico
só chegou agora nos anos 50 e ain-
da sem o estardalhaço com que che-
gou a São Paulo. Lá os negros tive-
ram tempo para se preparar, insta-
lar e impor os seus terreiros de can-
domblé, a sua cultura, sua estética,
sua música, seu Carnaval. No
Rio
de Janeiro foi a mesma coisa. E, no
entanto, na virada do século, São
Paulo teve uma presença negra e
um dinamismo maior até que em
outros lugares. Por força das cir-
cunstâncias, esmaeceu um pouco
essa cor em São Paulo.
RACA - Nossa revista fez,
recentemente, uma reportagem
sobre a Cohab de Cidade
Tiradentes, que só sai nos jornais
nas páginas de crimes, mas que
vive uma efervescência cultural,
especialmente com o rap e o
pagode...
GIL - É um Harlem, um Bexiga,
não? Quando cheguei em São Pau-
lo, os negros estavam saindo do
Bexiga. Foram sendo expulsos. O
pagode tem uma função sociológi-
ca impressionante. Foi uma emer-
gência da periferia, não só aqui
como no Rio também — lá talvez
de forma menos estridente porque
os vasos comunicantes sempre
estiveram mais abertos. Aqui em
São Paulo era fechado, não havia.
Eu fico me lembrando... as pri-
Dezembro 98 RAÇA
BRASIL
“Como sou
menino, fica
difícil envelhecer,
assumir papéis
sérios. Eu gosto
de ficar cantando
e dançando por aí'