Desenho elaborado para ilustrar o conto "O mosquito", escrito por Iberê Camargo e publicado em 1988 pela editora L&PM no livro "No andar do tempo: 9 contos e um esboço autobiográfico":
O mosquito
"Ao fazer a barba pela manhã, vejo pelo espelho um mosquito pousado na parede do banheiro, às minhas costas.
É apenas um traço vertical, minúsculo risco a creiom, na alvura vítrea do azulejo.
Vou aniquilá-lo, penso comigo, com um golpe de toalha. Concedo-te a vida somente o tempo que necessito para terminar de fazer a barba. Devo usar a lâmina com cuidado, devagar, para não cortar o lábio superior já chupado pela idade.
Torno a fitar o mosquito. Ele continua imóvel na imagem do espelho, à espera, sem o saber, de sua morte, como todos os viventes. Ele vive porque lhe concedo viver. Aumenta minha prepotência sobre sua mísera existência. Cresce-me a presunção de dispor da vida e da morte.
Vou aniquilá-lo agora.
Torno a ensaboar a face com um pincel de cerdas fartas e macias que comprei em Paris muitos anos faz. Agora passo a gilete a contrapelo para escanhoar a face. Olho novamente para o espelho à procura do mosquito. Ele não está mais sobre o azulejo.
O sol penetra no banheiro pelo basculante – devem ser dez horas da manhã – e torna a parede de azulejo ainda mais vítrea, mais luminosa e levemente dourada. Continuo a procurá-lo, esquadrinhando paredes e teto. Ele muda de pouso leve como o ar.
Ah! Ei-lo pousado na parte inferior do trinco da porta. Parece escondido. Ali oculto, sorrateiro, talvez com a intenção de picar a mão de Deus.
Naquele lugar, a parte inferior do trinco, seria invisível para um homem de elevada estatura, que estivesse sempre em pé. Não sabe ele que o seu Deus também senta e usa o bidê do banheiro. Isto vai perdê-lo.
Terminada a barba, distraído, entro para baixo do chuveiro.
Ora! Ora! Esqueci o mosquito.
Espio pela fresta da cortina. O mosquito está outra vez pousado na parede, à mercê da minha vontade, do capricho de Deus!
– Logo que termine o banho te transformarei em pó. Serás pó, serás outra vez o nada.
Imagino-me brandindo a toalha, espatifando-o enquanto grito: “To be or not to be. That’s the question!”.
Fecho a torneira do chuveiro, apanho a toalha e começo a enxugar o corpo. Olho para a parede. O mosquito não está mais lá, não está em nenhum lugar. Vive por uma distração de Deus."
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