A arte cerâmica das mulheres Baniwa

Museu do Índio

A região do alto rio Negro, fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela só é acessível por via fluvial e aérea. Ali vivem 23 etnias indígenas, dentre as quais os Baniwa. Eles são cerca de 6000 indivíduos no Brasil, 2.500 na Venezuela e 7.000 na Colômbia. Para acessar suas aldeias a partir de São Gabriel da Cachoeira, último município brasileiro desta região amazônica (AM), viaja-se por centenas de quilômetros pelos rios Negro, Içana e Aiari.

Cestos de carga, facas, pedras de polir, tábuas, cuias, bacias e abanos trançados estão entre os materiais e ferramentas utilizados na produção da cerâmica feita pelas mulheres baniwa.

A massa cerâmica é feita de barro selecionado misturado às cinzas da casca de uma árvore chamada caraípe (da família das Chrysobalanaceas).
O pote é modelado por meio de uma técnica chamada "acordelado".

Os rolos de massa são adicionados um a um, até atingir o formato e a dimensão desejados pela ceramista.

Durante a secagem da peça, algumas escoras podem ser usadas para sustentar os potes.

Após a modelagem inicial, a ceramista define a forma dos potes com o auxílio de um pedaço de cuia, abrindo e estreitando as suas paredes. O resultado será uma peça mais leve e delicada.

Após a raspagem, quando a peça atinge o "ponto de osso", inicia-se o polimento. Ele trará brilho e ainda mais leveza aos potes.

Pedras importadas da região do Apaporis, macro-bacia do rio Japurá, são utilizadas no polimento.

O pigmento eewa, empregado na pintura dos potes de cerâmica, é encontrado somente em raros depósitos localizados no leito dos rios, acessíveis somente em determinados períodos do ano, quando as águas baixam.

A queima ocorre após a pintura, geralmente nas roças próximas às aldeias. É uma etapa delicada. Não pode chover e as peças não podem ser aquecidas muito rapidamente.

Após a queima, como num passe de mágica, as peças se transformam completamente: antes de cor cinza, com padrões pintados em amarelo, tornam-se claras, com padrões vermelho-alaranjados. A mudança de cor do pigmento é um resultantes da oxidação dos minerais ferrosos presentes em sua composição .

O envernizamento é a última etapa do acabamento das peças decoradas com grafismos.

Ele é feito com resina vegetal de um arbusto chamado oomapihitako em baniwa. Pode também ser feito da seiva do jutaí, árvore da família do jatobá (Fabáceas).

Os potes destinados a ir ao fogo para o cozimento de alimentos são impermeabilizados por meio de uma técnica de defumação.

A cerâmica é uma arte exclusivamente feminina entre os Baniwa, transmitida de geração a geração, das avós às netas, das mães às filhas.

Como toda arte, a cerâmica encontra-se ligada a outros campos da cultura indígena: mitos, ritos, técnicas artísticas e corporais, trocas econômicas, matrimoniais e ecológicas.

A forma tradicional de aprendizado ocorre durante a reclusão que segue a primeira menstruação das jovens Baniwa. As panelas feitas neste contexto são utilizados nos rituais de iniciação feminino e masculino praticados ainda em certas aldeias deste povo.
A cerâmica encontra seu par na cestaria – arte dominada com maestria pelos homens Baniwa. Ambas são presentes oferecidos  para visitantes, trocados entre famílias aliadas por casamento, ou vendidos, ainda, no comércio local.
Os povos indígenas do alto rio Negro são conhecidos por seu rico sistema de cultura material. Alguns dos objetos que produzem, contudo, não são feitos exclusivamente por homens e mulheres, mas em parceria, como é o caso dos raladores de mandioca.

A “cerâmica branca” produzida pelas mulheres deste grupo é um importante marcador de identidade no sistema interetinico do alto rio Negro.

Os potes claros com grafismos vermelhos se contrapõe à cerâmica com acabamento escuro, acompanhada de “pintura em negativo”, característica da produção das mulheres Tukano que habitam o rio Uaupés - outro dos formadores do rio Negro.

Embora distintas no acabamento as duas tradições cerâmicas são encontradas em formatos – panelas, tigelas, taças e bilhas – semelhantes.

A cerâmica caiu em desuso ao longo da segunda metade do século XX, afetada pela introdução de objetos industrializados e pela desestruturação da vida cerimonial baniwa - resultado da conversão ao evangelismo pentecostal de cerca de 80% desta população, ocorrida nos anos 1950.

Diante deste cenário, com o objetivo de documentar o conhecimento disperso entre algumas mulheres Baniwa e estimular o surgimento de uma nova geração de ceramistas, o Prodocult Museu do Índio- FUNA/UNESCO realizou, entre 2014 e 2015, um projeto de documentação e salvaguarda da cerâmica deste povo.

O projeto foi feito em parceria com as comunidades de Ucuqui-Cachoeira e São Joaquim do rio Aiari.

Ao lado da formação de novas ceramistas, outro resultado importante deste projeto foi a produção de uma nova coleção de cerâmica baniwa, adquirida pelo Museu do Índio em 2014. Estas peças vieram a se somar ao acervo do Museu, que já contava com potes baniwa coletados por importantes colecionadores e pesquisadores, como Gastão Cruls e Eduardo Galvão, nos anos 1950 e 1960.
A salvaguarda da cultura material baniwa é uma das prioridades do Museu do Índio. Para conhecer mais sobre a cultura material deste povo, visite em museudoindio.gov.br a base de dados do acervo Museu do Índio.
Credits: Story

CURADORIA, FOTOGRAFIA, VÍDEOS E TEXTOS
Thiago da Costa Oliveira

PRODOCULT BANIWA/HOHODENI

Projeto de documentação da cultura material e imaterial entre os Baniwa do alto rio Negro: formação de acervo e capacitação de indígenas.

COORDENADOR DE PESQUISA
Thiago da Costa Oliveira
(Pós-doc PNPD/CAPES - PPGAS/MN/UFRJ)

COORDENAÇÃO CIENTÍFICA
prof. Dr. Carlos Fausto
(Prof. Titular PPGAS/MN/UFRJ)

PESQUISADORES INDÍGENAS
Nazária Montenegro, Orlando Fontes, Ilda da Silva Cardoso e Jocimara Cardoso Fontes, todos hohodeni de Ucuqui-Cachoeira

CERAMISTAS BANIWA
Carolina Campos e Maiara Campos de Andrade, Dorinha Andrade Campos, Nazária Andrade, Maria Brazão, Maria de Lima, Ana Brazão, Laura Brazão, Docilene Brazão, Lucia Brazão, Adalta Rodrigues, Ana Souza da Silva e Cristina Rodrigues

GESTÃO CIENTÍFICA DO PRODOCULT
Chang Whan

PROJETO GOOGLE ARTS&CULTURE
Elena Guimarães (Serviço de Atividades Culturais)
Ione H. P. Couto (Coordenação de Patrimônio Cultural)
Thaís Tavares, Luiza Zelesco (Serviço de Referências Documentais)

MUSEU DO ÍNDIO/FUNAI

COORDENAÇÃO DE ADMINISTRAÇÃO
Rosilene de Andrade Silva

COORDENAÇÃO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Carlos Augusto da Rocha Freire

COORDENAÇÃO DE PATRIMÔNIO CULTURAL
Ione Helena Pereira Couto

COORDENAÇÃO TÉCNICO CIENTÍFICA
Sonia Maria Otero Coqueiro

COMUNICAÇÃO SOCIAL
Cristina Botelho
Rosângela Abrahão

SERVIÇO DE GABINETE
Arilza Almeida

DIRETOR DO MUSEU DO ÍNDIO
José Carlos Levinho

PRESIDENT DA FUNAI
Franklimberg Ribeiro de Freitas

MINISTRO DA JUSTIÇA
Torquato Lorena Jardim

PRESIDENTE DO BRASIL
Michel Temer

Credits: All media
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