20 Anos do Grupo de Estudos de Curadoria

REGINA TEIXEIRA DE BARROS

No conto ”A causa secreta", o personagem Fortunato Gomes da Silveira, um “ser capitalista”, e apresentado como um homem de largo coração, capaz de atitudes nobres e desinteressadas. Certo dia, salvou um empregado do arsenal de guerra atacado por capoeiras, que havia sido gravemente ferido com um punhal. Acompanhou sua lenta recuperação e depois saiu de cena. Costumava visitar os doentes internados na Santa Casa e acabou por fundar uma casa de saúde, junto com Garcia, um médico amigo.

Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas. “Demonstrou ter qualidades de enfermeiro e rara dedicação para com os enfermos. “Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite”. Toda a gente pasmava e aplaudia.”

Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas. “Demonstrou ter qualidades de enfermeiro e rara dedicação para com os enfermos. “Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite”. Toda a gente pasmava e aplaudia.”

Mas o coração humano, como observa Garcia, é ”um poço de mistérios”. Conforme o conto avança, Garcia, assim como o leitor, vai se dando conta de que, na verdade, Fortunato é um sádico voraz. Diante do sofrimento alheio não sente "raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma cousa parecida com a pura sensação estética."

Esta história ilustra o que Carl Gustav Jung chamou de sombra. Para a psicologia analítica, sombra e a instância onde se encontram nossas características negativas, com as quais não conseguimos ter contato direto. São aspectos pouco acessíveis à consciência, tidos pelo senso comum como desagradáveis, inconvenientes, inadequados ou ameaçadores. Esses aspectos negativos compõem tanto o indivíduo quanto a coletividade. Ao tornarem-se conscientes, esses conteúdos desestabilizam nossas certezas, podendo originar grandes transformações.

Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido um dos propósitos da arte e da literatura do século XX. Noturnos traz uma pequena mostra de obras da coleção do MAM-SP, selecionadas a partir de uma reflexão sobre o conceito junguiano de sombra. Nos trabalhos apresentados, transparecem alguns elementos que causam incômodo, seja por fazerem referência à sombra pessoal de cada um de nós, seja por abordarem aspectos sombrios que dizem respeito a coletividade.

A exposição está dividida em núcleos que aproximam determinadas obras segundo as questões que levantam. "Vias de acesso" é o primeiro núcleo da mostra que, como num prólogo, anuncia o que está por vir. A entrada no mundo das sombras se dá atreve da queda, da vertigem, do pavor, do contato com forças plutônicas. Em seguida, surgem as manifestações simbólicas ligadas a conteúdos arcaicos indiscriminados. São as feras, os monstros, os animais pérfidos e peçonhentos.

O núcleo “Expressões plásticas" traz trabalhos de diferentes técnicas que lidam com a questão de luz e de sombra no universo das artes visuais. Trata-se da sombra enquanto contorno de uma figura que se interpõe entre um foco luminoso e uma superfície. Ainda nesse âmbito, "Saturação" reúne obras inteiramente em tons de preto ou cuja imagem central é uma figura em negro.

Metrópole” aparece no seu aspecto subterrâneo, com fotografias em preto e branco, no qual a escadaria sem iluminação e o bueiro marcam a descida ao reino dos interesses os transeuntes caminham em direção a uma escuridão que não deixa transparecer seu frm

A sombra, na coletividade, aparece com recortes variados. Na religião, como a antítese entre o bem e o mal. No social, como a loucura. No regime militar, como parte da sombra da história de nosso país.

"Interiores” mostra aquilo que faz parte de nós, individual ou coletivamente, mas não temos acesso a luz do dia: o interior de um matadouro; a imagem num negativo fotográfico; a nuca, que mostra o que é você, mas só pode ser visto pelo outro.
Agressividade e volúpia, hostilidade e luxúria - assim como mesquinhez, inveja, revestimento, cobiça - são características sombrias da personalidade com as quais esbarramos ao longo da vida e que compõem o eterno jogo entre o oculto e o manifesto.
O módulo final de Noturnos inclui o visitante como elemento da exposição: "Você faz parte”.

The final module of Nocturnes includes the viewer as an element of the exhibition: "Você faz parte” [You belong].

Créditos: história

MAM-SP Sala Paulo Figueiredo

1 a 18 de abril de 1999

OBRAS EXPOSTAS

Ana Maria Tavares
(Belo Horizonte, MG, 1958)
Sandália, 1981
Lito-offset, 24,5 x 32,5 cm
Doação artista

Sandália, 1981
Lito-offset, 23 x 30,5 cm
Doação artista
Número de tombo: 1996.084

Sandália, 1981
Lito-offset, 22 x 34 cm
Doação artista

Anna Bella Geiger
(Rio de Janeira, RJ, 1933)
Grand noturno, 1984/85
Acrílica sobre tecido montado em madeira, 69 x 179 x 5,5 cm
Doação anônima

Arthur Luiz Piza
(São Paulo, Sp, 1928)
SoleiI noir, 1960
Gravura (goiva) cm cores, 81,1 x 49,2 cm
Doação Frederico Meclher

Éttoile, 1966
Buril e relevo sobre papel,
50,6 x 36,7 em
Doação Frederico Melcher

Cobra, 1973
Gravura (gaiva) cm cores, 39,1 x 29,5 cm
Doação Frederico Melcher

Arthur Omar
(Poços de Caldas, MG, 1948)
Auto-retrato com amarelo de Van Gogh (da série Demônios, espelhos e máscaras celestiais), 1998
Fotografia colorida, 130 x 127 cm
Aquisição MAM-SP

Auto-retrato esculpindo o grito (da série Demónios, espelhos e máscaras celestiais), 1998
Fotografia cibachrome, 130x 127cm
Aquisição MAM-5P

Bené Fonteles
(Bragança, PA, 1953)
Corte, 1980
Xerografia colada sobre papel, 42,8 x 60,5 cm
Doação artista

Caíca
(Barretos,SP, 1954)
São Paulo, Viaduto Major Quedinho (norte), 1977
Fotografia P&B, 20 x 30 cm
Prêmio Aquisição Kodak Brasileira - I Trienal de Fotografia 1980 MAM-SP
Fotografia P&8, 20 x 30 cm

Caíto (São Paulo, SP, 1954)
Sem título, 1986
Couro sintético, plástico e ferro, 137 x 54x 54 cm
Doação Galeria Casa Triângulo

Carlos Uchôa
(São Paulo, SP, 1961)
Sem título (da série Topologias), 1998
Carvão litográfico sobre papel, 35,9 x 42,9 cm
Doação artista
Sem título (da série Topologias), 1998
Carvão litográfico sobre papel, 35, 8 x 42,9 cm
Doação artista

Carmela Gross
(São Paulo, SP, 1946)
Gancho, 1995
Água-tinta, água-forte e ponta-seca, 80 x 27,5 cm
Doação do artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM-SP

Dudi Maia Rosa
(São Paulo, SP, 1946)
Sem título, 1989
Fibra de vidro e jornal sobre tela, 150,3 x 151,6 cm
Prêmio Motores MWM Brasil - Panorama 1989

Edith Derdyk (São Paulo, SP, 1955)
Sem título, 1997
Linha e cola vinílica sobre papel-arroz, 121 x 95,5 cm
Doação artista
Número de tombo: 1998.212

Farnese de Andrade
(Araguari, MG, 1926- Rio de Janeiro, RJ, 1996)
Anita 65, 1965
Nanquim (bico-de-pena)
Sobre papel, 47,7 x 32,7 em
Doação Gilberto Chateaubriand

Miss Brasil 1965, 1965
Nanquim (bico-de-pena) sobre papel, 31,8 x 49,2 cm
Doação Gilberto Chateaubriand

Gilvan Samico
(Recife, PE, 1928)
A queda, 1992
Xilogravura, 34,8 x 20,1 em
Doação Os Amigos da Gravura
Museus Castro Maya - Rio de Janeiro

lvens Machado
(Florianópolis, SC, 1942)
Sem título, 1985
Concreto armado, caco de vidro e madeira, 105 x 253 x 127 em
Doação Rubem Breitman

Livío Abramo
(Araraquara, SP, 1903 - Assunção, Paraguai, 1992)
Macumba, 1953
Xilogravura, 25,2 x 21,7 cm

Doação artista
Macumba, 1957
Xilogravura, 27 x 34,3 cm
Doação artista

Marcelo Grassmann
(São Paulo, SP, 1925)
Sem título, s. d.
Xilogravura colada sobre papel cartão, 8,5 x 16,7 cm
Doação O Estado de S. Paulo
Sem título, s. d.
Xilogravura, 11,3 x 21,2 cm
Doação O Estado de S. Paulo

Sem Título, s. d.
Xilogravura, 12,2 x 8,2 cm
Doação O Estado de S. Paulo

Sem título, s. d.
Xilogravura, 14,5 x 9,3 cm
Doação O Estado de S. Paulo

Sem Título, s. d.
Xilogravura colada sobre papel cartão, 35,6 x 10,4 cm
Doação O Estado de S. Paulo

Sem Título, s. d.
Nanquim sobre papel cartela, 10,2 x 24,2 cm
Doação O Estado de S. Paulo

Mário Cravo Neto
(Salvador, BA, 1947)
Carlinhos Brown como Exu, 1996
Fotografia P&B, 95,3 x 96 cm
Grande Prêmio Price Waterhouse de Arte Contemporânea - Panorama 1997

Miguel Rio Branco (Las Palmas de Gran Canária, Espanha, 1946)
Coração, espelho da carne (da série Coração, espelho da carne: interiores), 1974
Fotografia cm cores, 24 x 35,6 cm
Grande Prêmio - I Trienal de Fotografia de 1980
Doação artista

Lambe-lambe (da série Coração, espelho da carne: interiores), s. d.
Fotografia cm cores, 24,1 x 35,6 cm
Doação artista

Nazareth Pacheco
(São Paulo, SP, 1961)
Sem título, 1997
Cristal, miçanga, lamina de barbear e fio de náilon suspensos cm cilindro de acrílico, 129 x 39,5 x 8 cm
Grande Prêmio Embratel - Panorama 1997

Nelson Leirner
(São Paulo, SP, 1932)
Você faz parte, 1990
Grafite sobre papel e pintura sobre espelho (apropriação), 91 x 252 cm
Prêmio Crefisul - Panorama 1990

Octávio de Araújo
(Terra Roxa, SP, 1926)
Sem título, 1957/58
Xilogravura cm cores, 25x 16,4 cm
Doação Oswaldo Kathalian

Orlando Azevedo
(Ilha Terceira, Açores, 1949)
Ilha Valadares/ Paranaguá, 1993
Fotografia P&B, 25,8 x 36,7 em
Doação artista

Orlando Brito
(Janaúba, MG, 1950)
Presidente Geisel, numa solenidade militar em Brasília, 1978
Fotografia P&B, 17 x 18,4 em
Prêmio Aquisição - I Trienal de Fotografia 1980 MAM-SP

Oswaldo Goeldi
(Rio de Janeiro, RJ, 1895 - 1961)
O paraquedista, 1942
Crayon sobre papel, 48,3 x 33,1 em
Doação Patrída Mendes Caldeira

Regina Silveira
(Porto Alegre, RS, 1939)
As loucas, 1964
Xilogravura, 20 x 25 cm
Doação Oswaldo Kathalian

Lâmpada, 1995
Lito-offset, 58,5 x 40,8 cm
Doação artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravura do MAM·SP

Romulo Fialdini
(Belo Horizonte, MG, 1947)
Sem título (da série São Paulo), 1980
Fotografia P&B, 26,4 x 38,8 cm
Doação artista

Sem título (da série Milão), 1997
Fotografia P&B, 29,3 x 28,9 cm
Doação artista

Rosangela Rennó
(Belo Horizonte, MG, 1962)
Sem título (da série Vermelho), 1996
Fotografia cm cores laminada, 122x84cm
Aquisição MAM-SP

Tunga
(Palmares, PE, 1952)
Sem título, 1997
Monotipia sobre papel reciclado, 78 x 56,5 cm
Prêmio Museu de Arte Moderna de São Paulo: 50 anos - Panorama 1997

Valderlei Dias Nunes
(Bom Sucesso, PR, 1969)
Sem título, 1995
Óleo sobre tela, 22 x79 em
Doação ABRA - Academia Brasileira de Arte

Vera Martins
(São Paulo, SP, 1962)
Sem título, 1996
Tela desfiada sobre estrutura de madeira, 120 x 30 x 30 cm
Doação artista

Victor Brecheret
(Farnese, Itália, 1894 - S􀏆O Paulo, SP, 1955)
Onça, 1930
Granito, 56,4 x 115,5 x 25 cm
Doação Francisco Matarazzo Sobrinho

Vilma Slomp
(Paranavai, PR, 1952)
Verso de Rosas (da série DOR/Adversus oestus), 1996
Fotografia P&B, 45,5 x 45,5 cm
Doação artista

Créditos: todas as mídias
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