2016

PLANETA EM METAMORFOSE

Museu do Amanhã

Os processos naturais do planeta estão sendo profundamente modificados pelo impacto da ação humana. Mudanças climáticas, interferência no ciclo das águas e uma taxa acelerada de extinção de espécies são algumas evidências de que temos nos transformado em uma força geológica. Pensar como este impacto afeta a própria espécie humana é um dos grandes desafios do tempo em que vivemos. 

O AMANHECER DO ANTROPOCENO
Uma outra luminosidade que não a do Sol despertou olhares e curiosidades de quem estava nas imediações do Campo de Teste de Mísseis de White Sands, no Novo México (EUA). O estrondo ouvido naquele 16 de julho de 1945, uma segunda-feira, prenunciava uma mudança de rumos para a humanidade: acabara de ser realizado, ali, o primeiro teste com bomba atômica da história. Pouco tempo depois, em 9 de agosto daquele ano, o mesmo plutônio usado em White Sands mataria mais de 60 mil pessoas na cidade japonesa de Nagasaki.

Efeitos de bombas nucleares são devastadores mesmo em objetos a longa distância. Aqui, um teste feito com bomba atômica no estado de Nevada, EUA, em 1955 (Vídeo: Federal Civil Defense Administr. USA)

Este mesmo plutônio levará pelo menos cem mil anos para decair até se transformar em chumbo. Cientistas como o paleobiólogo Jan Zalasiewicz afirmam que esta marca da ação humana poderia ser um dos indicadores de que adentramos uma nova época geológica, o Antropoceno – ou “a época dos humanos”. Mas este, nem de longe, é o único marcador: traços de concreto, plástico e alumínio, apelidados de “tecnofósseis”, também seriam indícios. A agricultura extensiva, que usa fertilizantes em larga escala e causa desequilíbrio dos ciclos de nitrogênio e fósforo do solo também seriam um traço desta nova época – que sucederia o Holoceno, período geológico iniciado há cerca de 11,5 mil anos com o fim dos efeitos da última glaciação.
UM MUNDO MOVIDO A PETRÓLEO
Outra característica desta nova época é o uso em larga escala de combustíveis fósseis, que marcou a transição de uma economia de manufatura para uma industrial. Da primeira metade do século XIX para cá, a necessidade por energia para a produção industrial disparou e as emissões de dióxido de carbono na atmosfera aumentaram substancialmente. Esse aumento de emissões veio acompanhado, coincidentemente, por aumentos crescentes da temperatura média global. Desde que medições do clima começaram a ser feitas, ainda no século XIX, com o desenvolvimento da meteorologia moderna, o primeiro ano mais quente de que se tem registro é 1937. Nos últimos tempos, esse ‘recorde’ vem sendo quebrado quase que anualmente -- 2015 foi o ano mais quente registrado até o momento, antecedido por 2014.
UMA ATMOSFERA AGITADA
A queima de combustíveis fósseis lança dióxido de carbono e outros gases aceleradores do efeito estufa no planeta. A quantidade deles na atmosfera é tão grande que que já mudamos sua composição: para cada milhão de moléculas de ar, há 400 de dióxido de carbono. Parece pouco, mas a última vez que a Terra tinha a mesma concentração do gás na atmosfera foi entre 15 e 20 milhões de anos atrás – quando o planeta era bem diferente e a espécie humana ainda não existia. Cientistas atestam que 350 partes por milhão seria um limite seguro de concentração de dióxido de carbono para que a elevação média da temperatura global não ultrapasse os 2°C até o fim do século. Ao transpor este limite, contribuímos para aumentar os níveis de aquecimento do planeta, já que o dióxido de carbono é um gás que dificulta que os raios solares que incidem no planeta voltem ao espaço, retendo o calor na nossa atmosfera para além das nossas necessidades. 
MARCAS NA CAMADA DE OZÔNIO
Nossa ação ultrapassa o dióxido de carbono na atmosfera e se faz sentir também na estratosfera terrestre. Desde a década de 1970, cientistas desconfiavam que a camada de ozônio poderia estar em perigo devido ao uso de componentes químicos como os clorofluorcarbonos (CFCs). O químico Paul Crutzen, junto com os colegas Frank Rowland e Mario Molina, apontou para a relação entre destruição da camada de ozônio e CFCs. Tal conexão foi comprovada em 1981 com o lançamento de um satélite da Nasa, o Solar Mesosphere Explorer (SME), que “enxergou” as previsões dos três cientistas. Com menos ozônio na estratosfera, o planeta ficava menos protegido contra os raios solares UV, o que poderia acarretar em um maior número de casos de câncer de pele, catarata e redução das populações de plâncton nos oceanos.
Usados em geladeiras e aerossóis, os CFCs tiveram seu uso industrial proibido em 1987, com o Protocolo de Montreal -- e o mundo conseguiu zerar o uso da substância em 1996. Um estudo recente da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e do Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente (PNUMA) mostrou que, nos últimos anos, o desgaste na camada de ozônio sobre o Antártico diminuiu e mostra sinais de recuperação. Teremos que lidar, no entanto, com outras questões que exigem ações complexas: as emissões de dióxido de carbono na atmosfera, por exemplo, continuam avançando em velocidade preocupante.
VIDA MARINHA EM RISCO
Ao absorver dióxido de carbono, as águas dos oceanos se tornam mais ácidas. O gás, ao reagir com a água do mar, provoca a redução do pH do ambiente marinho. Isto é muito perigoso para espécies com carapaças de carbonato de cálcio, que podem ter dificuldade em desenvolver seus esqueletos e ‘cascos’. O aquecimento dos oceanos, por sua vez, além de provocar o derretimento de gelo nas calotas polares, prejudica a oxigenação aquática, asfixiando peixes e outras espécies.

Clique para navegar pelo recife de corais perto do aeroporto internacional de Pago Pago em Tafuna, a oeste da Samoa Americana -- é possível ver o recife antes e depois do branqueamento dos corais.

OCEANOS MAIS POLUÍDOS
A poluição aquática também é um grande problema para os oceanos: além de empobrecer a qualidade da água, provoca doenças e impacta profundamente o bioma marinho, causando prejuízos à biodiversidade de todos os continentes. A poluição, além disso, gera uma série de desequilíbrios nos ciclos naturais e, inclusive, no comportamento animal. Um estudo da universidade de Uppsala, na Suécia, mostrou que larvas de peixe, quando expostas a microplásticos -- pedaços minúsculos do material, com menos de um milímetro de diâmetro -- preferem comê-los ao zooplâncton. Como resultado, morrem mais rápido e têm seu crescimento profundamente afetado. Por causa do seu pequeno tamanho, estes plásticos, presentes em esfoliantes e outros produtos de beleza, são muito difíceis de ser filtrados no tratamento de resíduos e vão parar em lagos, rios e oceanos. 
ALERTA VERMELHO PARA OS RIOS
A vida aquática nos rios de água doce também se encontra profundamente afetada pela ação humana. Em boa parte do curso de rios como o Tietê, em São Paulo, e Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, não é difícil ver sinais claros de eutrofização. Neste processo, o excesso de poluição nos rios faz com que a concentração de fósforo e nitrogênio aumente, acarretando na reprodução de certas algas e bactérias que, por retirarem oxigênio da água para respirar, provocam a morte de animais e plantas que vivem nos rios.
Estamos, também, afetando o funcionamento dos ‘rios voadores’ principalmente através do desmatamento na Amazônia. Rios voadores são massas de ar que, evaporadas do oceano Atlântico, são atraídas pela umidade da região amazônica – principalmente pelas árvores. Esta umidade se transforma em chuva e boa parte dela é transportada para as partes mais ao sul do Brasil, fazendo com que também haja precipitação de chuvas. O aumento no desmatamento gera desequilíbrio neste ciclo.
BIODIVERSIDADE NA BERLINDA
A alteração de outros biomas em terra – principalmente por mudanças no clima, aumento da poluição e do desmatamento – tem provocado um grande aumento na taxa de extinção de espécies. Desde o século XX, plantas e outras formas de vida têm desaparecido da face do planeta cem vezes mais rapidamente que o normal por causa da ação humana. Pesquisas recentes alertam que o impacto da nossa espécie sobre outras é comparável ao do bólido que dizimou os dinossauros do planeta há cerca de 66 milhões de anos. A taxa natural de extinção seria o desaparecimento de duas espécies a cada 10 mil por século -- o que temos hoje é um ritmo muito mais acelerado que este. Desde 1900, por exemplo, tivemos a extinção de quase 500 vertebrados -- quantia bem maior do que as esperadas 9 espécies extintas se contássemos com o ritmo normal de desaparecimentos.
ULTRAPASSANDO LIMITES
Além provocar alterações na biodiversidade e nos biomas do planeta, também consumimos e extraímos recursos mais depressa do que a Terra é capaz de repor. Em 2009, pesquisadores do Stockholm Resilience Centre (SRC) propuseram nove limites planetários sob os quais seria seguro que a humanidade se desenvolva antes de causar danos irreversíveis ao planeta. Na lista estão perda de biodiversidade – de espécies de plantas e animais, acidificação dos oceanos, alteração dos ciclos de fósforo e nitrogênio, destruição da camada de ozônio, mudanças nos usos da terra, mudanças nos usos da água, carregamento de aerossóis na atmosfera, poluição química dos ecossistemas e mudanças climáticas.
Destes limites, já ultrapassamos três: mudanças climáticas, perda da biodiversidade e alteração do ciclo de hidrogênio. Apesar de termos melhorado um pouco quanto à destruição da camada de ozônio, um estudo publicado em janeiro de 2015 na revista Science indica que não iremos demorar muito para ultrapassar um quarto limite: o de usos da terra. Neste sentido, ainda precisamos fazer mais para que tornemos mais sustentável a nossa existência sobre o planeta.
POLÍTICAS GLOBAIS PARA PROBLEMAS GLOBAIS
Existem negociações para tratar do avanço destes limites no âmbito político global. Em dezembro de 2015, líderes do mundo inteiro se reuniram em Paris, na França, a fim de negociar políticas para reduzir as emissões de dióxido de carbono na atmosfera e ajudar países mais vulneráveis a se adaptar às mudanças climáticas. O dióxido de carbono, junto com outros gases como o metano, contribui para que o efeito estufa – que é um processo natural do planeta – se acelere. Com este processo acelerado, em muito pouco tempo podemos chegar a um aumento médio de aquecimento global que pode ser prejudicial à vida, inclusive humana, na Terra.
Com o diálogo que aconteceu na capital francesa, 195 governos do mundo perceberam que é preciso – de acordo com muitos cientistas e ativistas, urgente – rever nossos padrões de uso dos recursos naturais e da poluição que produzimos. Destas conversas, resultou um documento – informalmente chamado de ‘Acordo de Paris’ – em que cada um dos 195 países presentes pôde sugerir as contribuições a que querem se comprometer. O objetivo é que o Acordo entre em vigor em 2020, quando o Protocolo de Quioto, atualmente em vigor, termina. Analistas sugerem que, se bem sucedido, o Acordo de Paris será uma grande dádiva da nossa geração a gerações futuras.
O ANTROPOCENO TEM VÁRIAS FACES
Enquanto a ação para conter as mudanças climáticas caminha a passos lentos, seus efeitos são sentidos por pessoas em todo o mundo – mas não da mesma forma. Grupos sociais diferentes os sentem de formas distintas: em geral, os primeiros atingidos são os grupos mais vulneráveis – seja socialmente, economicamente ou ambientalmente. São os menos favorecidos econômica e socialmente os que têm de morar em locais mais propensos a acidentes ambientais ou aos efeitos da poluição de rios e córregos. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), os países mais pobres serão os mais atingidos pelas mudanças climáticas. Serão os que mais sofrerão com dias e noites mais quentes, elevação do nível do mar, mais chuvas imprevisíveis e ondas de calor em maior quantidade e duração.
MAIS DESLOCADOS AMBIENTAIS?
Esta mudança nos padrões de distribuição de chuva, frio e calor acarretará uma migração gradual de biomas e espécies que neles habitam. Com esta migração, é inevitável que a espécie humana também migre de certos locais para outros -- regiões tropicais tendem a ficar ainda mais quentes e a geografia global pode ser afetada devido à elevação do nível dos oceanos. Cinco ilhas do Arquipélago de Salomão, no oceano Pacífico, já foram submersas em decorrência do aumento do nível do mar. Mudanças como esta produzirão cada vez mais deslocados de suas terras por razões ambientais.
Museu do Amanhã
Créditos: história

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Pesquisa e Redação: Meghie Rodrigues
Edição de vídeos: Eduardo Carvalho
Edição de textos: Emanuel Alencar
Fotos: Global Population Speak Out, National Nuclear Security Administration Nevada Site Office Photo Library, Google Earth / Image Landsat, Greenpeace, Fotos Públicas, National Aeronautics and Space Administration (NASA), National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), Agência Brasil, Google StreetView
Vídeo: Federal Civil Defense Administration USA

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