Lambe-lambe: fotógrafos de rua em São Paulo nos anos 1970

Museu da Imagem e do Som

Resgatar uma das primeiras coleções do acervo do MIS foi o ponto de partida desta exposição. A coleção, elaborada por dois estudantes, é composta pela documentação dos fotógrafos de rua em atividade no início dos anos 1970. Ela registra um ofício que, já naquela época, estava em vias de extinção e que hoje faz parte da memória de São Paulo.

Os lambe-lambes, como ficaram conhecidos, surgiram na cidade, no início do século XX. Eram fotógrafos que utilizavam uma máquina com o laboratório acoplado, o que lhes permitia revelar instantaneamente as fotografias tiradas nos jardins e praças. Tiveram maior prosperidade entre as décadas de 1920 e 1950, mas, em decorrência das transformações urbanas e do maior acesso à fotografia, no início dos anos 1970 já eram considerados figuras raras e folclóricas. O MIS surgiu exatamente nesse período. Criado em 1970, a partir de um projeto elaborado por Francisco de Almeida Salles, Paulo Emílio Sales Gomes e Rudá de Andrade, o museu tinha como meta funcionar como um centro de documentação e preservação da memória oral e visual da cidade. Atentos às pesquisas promovidas pela instituição, e cientes do valor social e cultural dos lambe-lambes no contexto da paisagem urbana, os estudantes Marcio Mazza e José Teixeira se propuseram a documentar o dia a dia desses fotógrafos. Durante mais de um ano, percorreram a cidade e realizaram um levantamento oral e fotográfico que hoje segue preservado no acervo do museu. Como esperado, o desaparecimento dos lambe-lambes passou despercebido, somado a tantos outros que acontecem diariamente. Resgatar a coleção é, portanto, uma forma de manter viva uma atividade por muitos esquecida e que, entre outras coisas, estabelece uma relação direta com a cidade e suas transformações. Além disso, retomar essa pesquisa é também uma maneira de lançar luz sobre o acervo e a história do MIS, e de recuperar seu caráter documental e seu papel de zelar pela memória de São Paulo.

Os fotógrafos contam sobre os primeiros locais de trabalho, o cotidiano, os clientes famosos. Peinado explica que o Parque Dom Pedro foi o local de maior demanda nos anos 1950, auge da profissão.

Lambe-lambe
Existem diversas hipóteses quanto à origem do apelido “lambe-lambe”. Uma delas, de que teria surgido no período em que eram utilizadas placas de vidro para fazer os negativos e lambia-se a placa para determinar o lado da emulsão fotográfica. Outra versão parte do princípio de que os fotógrafos lambiam os envelopes com fotos para fechá-los. Durante a pesquisa do MIS, os lambe-lambes afirmaram considerar o apelido pejorativo e disseram que preferiam ser chamados de “fotógrafos instantâneos”.

Manoel Marques e Miguel Peinado foram dois dos primeiros fotógrafos de rua na cidade, e já estavam aposentados na época da pesquisa realizada pelo MIS.

Os fotógrafos contam sobre a dinâmica e laços afetivos entre os colegas de trabalho e as razões para o surgimento do apelido "lambe-lambe".

Os fotógrafos
Os lambe-lambes, em sua maioria, eram fotógrafos anônimos, de origem simples. A profissão teve seu auge entre as décadas de 1920 e 1950, quando a elite frequentava as praças da cidade. Graças à venda de fotos, tornaram-se proprietários de pequenos imóveis em bairros periféricos da capital. Em 1974, quando a pesquisa do MIS foi feita, a Prefeitura de São Paulo registrava quarenta fotógrafos, mas apenas metade seguia em atividade. Nem todos trabalhavam todos os dias, e alguns só fotografavam aos domingos, dia mais movimentado nos parques. Entre os fotógrafos entrevistados, a maior parte tinha mais de sessenta anos, e pelo menos 25 de profissão. Muitos haviam trabalhado na indústria, eram aposentados e fotografavam como passatempo. “Estou sempre de férias” – disse Miguel Peinado em seu depoimento. Alguns eram autodidatas e acreditavam que a técnica fotográfica não era coisa que se ensinasse para qualquer um. A maioria aprendeu com a família ou com os amigos. A família Peinado, de espanhóis vindos de Granada, depois de formar oito fotógrafos, exerceu monopólio da técnica lambe-lambe em São Paulo.

Os fotógrafos falam sobre os trabalhos mais comuns: postal e fotografia para documento, suas conquistas financeiras, os desafios no aprendizado do ofício, e o declínio da profissão.

A máquina de jardim
O equipamento dos lambe-lambes era simultaneamente câmera e laboratório, e ficou conhecido como “máquina de jardim”, pois todo o processo era realizado ao ar livre. Há controvérsias quanto a sua origem. Alguns fotógrafos defendem que a máquina foi inventada no Brasil pelo italiano Francisco Bernardi. Outros afirmam que ela foi importada da Europa e apenas aperfeiçoada. Fato é que a grande maioria das máquinas utilizadas pelos lambe-lambes na década de 1970 era da marca Bernardi. Bernardi era fotógrafo e fabricante de acessórios fotográficos em Bolonha e imigrou para o Brasil. Instalou-se em São Paulo e, por se deslocar constantemente pelo interior paulista, criou um processo fotográfico mais prático e instantâneo. O modelo Bernardi, como era chamado, foi fabricado até o final dos anos 1930, quando a família resolveu mudar de ramo. Os Bernardi também ficaram conhecidos pela invenção de uma máquina para secar mandioca.

Capuz preto
Filtro vermelho
Entrada de luz solar
Estoque de papel e filme
Porta-filme
Vidro despolido
Tanque de revelação
Tanque de fixação
Fole
Objetiva
Disparador

Fotógrafo José Garcia Jaime - Clic

O fotógrafo e o cliente
Até os anos 1950, predominavam fotos em formato postal. Famílias e casais de imigrantes enviavam seus retratos aos parentes, em geral vestidos com suas melhores roupas. Mais tarde, os lambe-lambes passaram a fazer mais fotos 3 x 4 para documentos. Introvertidos e até arredios, eles não buscavam clientes, esperavam ser solicitados. Entre seus acessórios, levavam uma cadeira, uma tela para fotos 3 x 4, além de paletó, gravata e espelho, caso o cliente chegasse despreparado.

Reproduções de fotografias lambe-lambe do acervo de Marcio Mazza, um dos pesquisadores responsáveis pela coleção produzida na década de 1970

O fotógrafo e a cidade
Os lambe-lambes foram testemunhas das transformações da cidade e das mudanças no perfil socioeconômico dos frequentadores dos espaços públicos. Seu trabalho refletia as atividades urbanas: nas áreas de lazer, retratavam famílias em formato postal; perto de repartições públicas, faziam fotos 3 x 4 para documentos. Os fotógrafos preocupavam-se em nunca usar a paisagem de seus colegas, e alguns pontos eram mais concorridos que outros. Quando entrevistados, contaram que, na praça Ramos de Azevedo, o público gostava de posar com gatos no colo. A fonte do desejo, que lembrava a Fontana di Trevi, de Roma, na Itália, também atraía muitos clientes. Outras paisagens frequentes eram o Viaduto do Chá e o Jardim da Luz, onde os melhores pontos ficavam próximos a uma figueira, à estátua de Giuseppe Garibaldi e ao chafariz.

Os fotógrafos falam sobre o rodízio entre os melhores pontos de trabalho. Destacam a importância da família Peinado para o ofício na cidade. Citam alguns fabricantes de câmera fotográfica.

José Teixeira, um dos pesquisadores responsáveis pela coleção produzida nos anos 1970.

O declínio da profissão
Entre as décadas de 1950 e 1970, a popularização das máquinas fotográficas e as novas formas de lazer levaram a uma mudança na profissão. A aristocracia e a classe média deixaram de frequentar as praças, e surgiu uma nova clientela formada por pessoas com menor poder aquisitivo. Para se adaptarem, os fotógrafos tiveram que baratear seu produto e diminuir as dimensões das fotos postais. Além delas, passaram a produzir retratos 3 x 4 para documentos. Com isso, de fotógrafos “artistas”, como eram conhecidos, passaram a ser vistos como fotógrafos ambulantes. No início da década de 1970, já não havia lambe-lambes jovens, e os veteranos acreditavam que, quando morressem, estaria encerrada a atividade. Hoje, o termo “lambe-lambe” é associado a cartazes colados diretamente nos muros da cidade, e pouca gente se lembra dos fotógrafos de rua, figuras marcantes nas praças de São Paulo na primeira metade do século passado.
O MIS e a coleção
Em plena ditadura militar, em maio de 1970, foi criado o Museu da Imagem e do Som. Era um projeto visionário elaborado por Francisco de Almeida Salles, Paulo Emílio Sales Gomes e Rudá de Andrade. Nos primeiros anos, o MIS tinha como meta valorizar a memória oral e visual da cidade, e registrar personagens e locais esquecidos e em vias de desaparecimento. Em 1973, dois estudantes da Universidade de São Paulo – José Teixeira e Marcio Mazza – documentaram, para o museu, o cotidiano e as técnicas dos fotógrafos lambe-lambes na cidade. Na época, a profissão estava prestes a acabar, e quase não havia material publicado sobre o assunto. O acervo do MIS conserva mais de 2 mil imagens, entre negativos e ampliações em preto e branco, e cromos. Há também áudios com depoimentos dos fotógrafos e uma câmera original do modelo “Centenário”. Por conta da pesquisa realizada para esta exposição, Marcio Mazza complementou a coleção com documentos originais, além de negativos, folhas de contato e ampliações.
Créditos: história

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Governador do Estado de São Paulo São Paulo Governor of the State
Márcio França

Secretário de Estado da Cultura Head of São Paulo State Secretary of Culture
Romildo Campello

Coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico Coordinator of the Museum Heritage Conservation Division
Regina Ponte

PAÇO DAS ARTES ORGANIZAÇÃO SOCIAL DE CULTURA

Conselho de Administração Administration Board

Presidente Chairman
Antônio Hermann

Vice-Presidente Vice Chairman
Marcello Hallake

Conselheiros Board Members
Mauro Andre Mendes Finatti, Renata Letícia, Rosa Amélia de Oliveira Penna Marques Moreira


Conselho Consultivo Advisory Board

Conselheiros Consultivos Consulting Board Members
Cecília Ribeiro, James Sinclair, Max Perlingeiro, Nilton Guedes


MUSEU DA IMAGEM E DO SOM

Diretor de Gestão e Finanças Management and Finance Director
Jacques Kann

Diretora Cultural Cultural Director
Isa Castro

Assessora para Assuntos Institucionais Institutional Affairs Consultant
Solange Moscato

ACERVO MIS
LAMBE-LAMBE
THE STREET PHOTOGRAPHERS IN SÃO PAULO IN 1970S
FOTÓGRAFOS DE RUA EM SÃO PAULO NOS ANOS 1970

Curadoria Curator
Isabella Lenzi

Curadora Assistente Assistant Curator
Juliana Caffé

Curadoria Exposição Virtual Virtual Exhibition Curator
Renata Tsuchiya

Créditos: todas as mídias
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