Mário Américo: o massagista das seleções

Museu do Futebol

Em 2014, o mundo inteiro esteve com os olhos voltados para a seleção brasileira e seu desempenho no mais importante campeonato de futebol, a Copa do Mundo. O Museu do Futebol, por meio do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), prestou homenagem a grandes personagens dessa trajetória esportiva.

NOSSO HOMENAGEADO

Entre as ações do CRFB está a de pesquisar, identificar coleções, digitalizá-las e tornar público esse acervo. Nosso homenageado nessa exposição é Mário Américo. Ela traz histórias desse personagem, relembradas por meio de seus objetos de trabalho, recortes de jornal e fotografias que estão sob a guarda de seu neto, Mário Américo Netto.

PROFISSÃO: Massagista

Mário Américo foi o massagista da seleção brasileira nas Copas de 1950 a 1974. Algumas das principais funções dessa profissão são acelerar o processo de recuperação, e reduzir fadiga e tensões musculares e articulares dos atletas.

Não apenas por suas habilidades técnicas, Mário é um dos poucos personagens que puderam se orgulhar de acompanhar de perto sete mundiais ao lado de grandes craques, diferentes técnicos, países e seleções. Foi testemunha dos bastidores desse campeonato, além de ser confidente dos atletas e um personagem hilário no universo do futebol.

Trajetória
Mário nasceu em 28 de julho de 1912, na cidade de Monte Santo, em Minas Gerais. Órfão de pai, fugiu de trem com 8 anos de idade da fazenda onde toda sua família trabalhava. Em outubro de 1920, desembarcou sozinho em São Paulo, onde trabalhou como engraxate por dois anos. Depois de algum tempo, encontrou na cidade o primo Walter Melquíades, que o levou para morar no bairro do Bixiga e ofereceu-lhe trabalho como mecânico na Oficina Santo Antônio.

"Mário Negrinho”, como era chamado, passou a ter aulas de bateria com o músico João Lombriga e fez parte de orquestras na adolescência. A carreira artística acabou cedo, pois foi obrigado a abandonar o grupo devido a advertência dada pelo juizado de menores ao ser encontrado tocando em bailes na noite paulistana.

O Boxe
Pouco tempo depois da breve carreira artística, Mário Américo encontrou outra paixão: o boxe. Na academia situada à rua Ladeira da Memória, no centro de São Paulo, Mário foi iniciado pelo treinador argentino Aristides Jofre e disputou algumas lutas no Rio de Janeiro como peso leve. Apaixonado pelo Rio, mudou-se para Madureira com sua esposa Maria de Souza, com quem teria seus dois primeiros filhos: Vera Lúcia e Mário César. A carreira de boxeador durou dez anos, com nocautes memoráveis. Mário, porém, foi nocauteado pelo lutador Antônio Mesquita. A luta sangrenta o aproximou de Almir do Amaral, entusiasta do boxe e médico do Madureira Esporte Clube. O amigo aconselhou o "briguento" Mário a mudar de profissão.

OS CLUBES


No Madureira

A nova empreitada profissional fez com que Mário Américo prometesse a si mesmo se tornar o melhor massagista de futebol que já existiu.

Aprendeu as primeiras técnicas com Giovani, massagista do time do Madureira, que estava em vias de se aposentar.

Comprou livros, consultou outros profissionais da área e, em menos de um ano, já havia assumido o posto de massagista oficial do clube.

Lá, conheceu nas peneiras o jogador Jair da Rosa Pinto, que mais tarde faria história com Isaías e Lelé no trio “Os Três Patetas”.

Jair sofria de uma distensão crônica na coxa direita, e, por esse motivo, suas massagens eram intensificadas e adaptadas a cada tipo de campo, temperatura ou marcador responsável por parar o atleta.

Mário Américo aprendeu sobre anatomia e fisiologia com os médicos Sérgio Blumer (que atuou no Sport Club Corinthians Paulista) e Nílton de Paes Barreto.

O Major Rolim permitiu ao novo massagista frequentar como ouvinte as aulas da faculdade em troca de aulas de boxe para os professores.

No Vasco da Gama

Na década de 1940, entrou para o Vasco da Gama. No estádio de São Januário, conheceu de perto a rotina dos grandes clubes cariocas: lidava com dirigentes, cartolas, médicos, jogadores experientes, novatos, macumbas, bebedeiras, esposas furiosas e, sempre que necessário, consertava um guarda-chuva para fazer um dinheiro extra no final do mês.

Na época, ganhou da torcida o apelido de “Pombo Correio” por levar recados do técnico Flávio Costa aos jogadores enquanto os mesmos simulavam contusões durante a partida.

Na Portuguesa de Desportos

O retorno para São Paulo se deu em 1952, inicialmente como um plano temporário de transição para o Fluminense, fato que nunca se concretizou. Mário Américo assinou contrato de dois anos com a Portuguesa de Desportos, mas por lá permaneceu até se aposentar, na década de 1970.

Um episódio cômico
Mário, ainda na equipe vascaína, na decisão do Torneio Rio-São Paulo entre Portuguesa e Vasco, agrediu em uma briga o presidente da Portuguesa, Mário Augusto Isaías, sem saber de quem se tratava.Tempos depois, Mário retratou-se publicamente em uma rádio e recebeu um telegrama de desculpas do próprio presidente.
As Copas
Mário conheceu de perto dos mais famosos atletas e também aqueles que nunca chegaram a despontar no futebol brasileiro. Passava longos períodos longe de casa concentrado com jogadores como Heleno de Freitas, Nílton Santos, Belini, Didi, Pepe, Tostão, Zito, Feola, Djalma Santos, Jairzinho, Pelé e outros tantos.
O rádio que falava em sueco
Com Garrincha, por exemplo, viveu a conhecida história de um rádio comprado pelo jogador durante a Copa na Suécia, em 1958. Mário também estava louco para adquirir um rádio, e mentiu para o ingênuo colega que o aparelho novo só falaria em sueco. O massagista se ofereceu para comprar o equipamento por bem menos que Garrincha havia pago, de forma  “poupá-lo” das gozações do restante da equipe...
Copa de 1950, no Brasil
Sobre a fatídica final da Copa de 1950, em “Mário Américo, o Massagista dos Reis”, escrito por Henrique Matteucci, o massagista comenta sobre o excesso de tempo de concentração e isolamento da equipe, entre as cidades de Araxá e Rio de Janeiro. Também criticou o assédio e o acesso de impressa, políticos, torcedores e parentes na área de concentração às vésperas da final contra o Uruguai. Contou que, mesmo antes da partida, alguns jogadores estudavam uma lista de comerciantes e industriais que já haviam oferecido prêmios pela “vitória” que nunca aconteceu.
Copa de 1954, na Suíça
Além do medo da favorita seleção da Hungria, que estava a mais de setenta partidas sem nenhuma derrota, Mário foi testemunha de uma evolução da prática de futebol: antes de começar a partida, os jogadores húngaros faziam ginástica, correndo e pulando dentro dos vestiários. Fruto de gozações nos bastidores daquela Copa, meses mais tarde, a mesma prática seria adotada pela equipe brasileira como o tão conhecido “alongamento”.
Copa de 1958, na Suécia
Foi parceiro do dirigente Paulo Machado de Carvalho e o considerou o melhor líder que já passou pelas equipes do Brasil. Mesmo “mandão” e vaidoso, nas palavras do massagista, Paulo Machado era um verdadeiro estrategista quando se tratava de organizar a comissão técnica e jogadores para um grande campeonato, como foi a Copa de 1958.

Na final entre Brasil e Suécia, Mário recebeu a missão de roubar a bola do árbitro Maurice Guigue e trocar pela bola reserva. Graças às peripécias de Mário, a bola encontra-se em território brasileiro.

Seleção Brasileira em treino para a Copa de 1958.

Copa de 1962, no Chile
Para Mário, o bicampeonato mundial deveu-se à escolha da mesma equipe de atletas de 1958, então mais experientes. Foi a grande Copa de Garrincha e de Aimoré Moreira, estreando como técnico. A melhor comissão técnica da seleção brasileira, para o massagista.
Copa de 1966, na Inglaterra
A convocação da equipe foi tumultuada com a seleção de 45 jogadores e com, tempos depois, a rápida dispensa de metade do grupo. Foi a Copa que, além de supercraques, teve a presença de homens viris, duros e fisicamente aptos para receber muita pancada. A estratégia foi adotada para uma das Copas mais violentas da história. Segundo Mário, foi a temporada com mais dirigentes e apadrinhados já vista até então.

Sem chegar às quartas de final, o Brasil voltou cedo para casa...

Mário narrou que, antes mesmo de a comissão desembarcar no Rio de Janeiro, a maioria dos dirigentes já descera pelo caminho, fugindo de explicações sobre a quantidade de dinheiro gasta ou os excessos de bagagens.

Mário Américo era famoso por seu carisma e atenção, até mesmo com as crianças.

Copa de 1970, no México
Segundo o “Tio” Mário – como era popularmente chamado entre os jogadores –, a torcida mexicana foi a mais calorosa vista até então. Torceram o tempo todo para o time brasileiro e, no jogo contra o Uruguai, com a lembrança da final de 1950, a torcida apareceu munida de faixas em apoio à seleção. O tricampeonato foi festejado como um carnaval em terra alheia, com direito a muita farra com água e farinha. 

Após a vitória no México, cada membro da comissão brasileira recebeu a concessão para abrir uma casa lotérica.

Recibo da gratificação da Copa de 70 creditado na conta bancária de Mário Américo.

Rivellino e Mário Américo, 1970.

Suvenir trazido da Copa de 70 com assinatura da seleção brasileira

Prataria oferecida como gratificação a Mário Américo pela Portuguesa de Desportos após a conquista da Copa de 1970 no México.

Copa de 1974, na Alemanha
O frio foi um grande inimigo desse campeonato. Mário nunca trabalhou tanto como naquele mundial. Qualquer pancada significava dor intensa no corpo dos atletas. Foi uma concentração de muita tensão e irritabilidade entre os membros da equipe, principalmente quando se tratava da escolha entre jogadores cariocas e paulistas.

O MASSAGISTA INTERNACIONAL

Depois do tricampeonato, Mário ganhou destaque entre os profissionais da área. Com a ajuda do colega e fisioterapeuta Dieter Hochmuth, lançou na Alemanha o creme de massagem Amazonas, assim como uma bolsa própria para carregar equipamentos de primeiros socorros dentro de campo.

Propaganda do creme alemão de massagem Amazonas.

Propaganda alemã de materiais esportivos.

Mário Américo acompanha Clodoaldo em tratamento de lesão, 1974. Ao fundo, o jogador Valdomiro.

Os carimbos do passaporte de Mário Américo não nos deixam mentir. Ele passou pelos mais longínquos países, de todos os continentes.

O mundo não cabe em xícaras
Sua coleção de mais de 3 mil xícaras, trazidas de diferentes cidades, ajuda a narrar essa trajetória profissional e geográfica.
Asa Branca: Um Sonho Brasileiro
Em 1981, Mário Américo e Garrincha contracenaram com o ator Edson Celulari no filme Asa Branca, do diretor Djalma Limongi Batista. O filme narra a trajetória de um jogador de futebol, do início de sua carreira em uma cidade do interior de São Paulo até o triunfo em uma Copa do Mundo.

Mário com o ator Edson Celulari nos bastidores das gravações do filme Asa Branca: Um Sonho Brasileiro.

Mário no Programa J. Silvestre, na TV Bandeirantes.

CDC Copa 70
A seleção de 1970 foi a predileta de Mário. Em homenagem, nomeou de “Copa 70” o Clube Desportivo da Comunidade (CDC, antigo CDM) que inaugurou na Zona Norte de São Paulo quando foi eleito vereador – tratam-se de espaços públicos, geridos por agremiações e fiscalizados pela Prefeitura. No “Copa 70”, acontecem diferentes atividades desportivas, além da prática de futebol amador com times como o Grone’s e o Antrax.

Enredo do carnaval 2014 da Banda Grone´s em homenagem à Mário Américo

Carteirinhas das diferentes associações da qual Mário Américo fez parte.

Fim da Carreira

Mário encerrou sua carreira futebolística em 1976, após algumas pressões da própria Confederação Brasileira de Desportos (CBD), hoje Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Vote em Mário Américo
Ainda em 1976, foi eleito vereador na cidade de São Paulo, com 53 mil votos, pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). O fim do mandato também encerrou sua breve carreira política, para a qual se dizia sem vocação. Nesse período, deu continuidade ao atendimento de atletas e pessoas comuns pelo Instituto de Fisioterapia, no bairro do Imirim, na região norte de São Paulo.

Panfleto de Mário Américo em campanha para vereador.

Mário, como vereador na Câmara Municipal de São Paulo.

Família Futebol
Após o falecimento de sua primeira esposa, em 1966, casou-se com Maria Hilda Rocha, conhecida por Iara, com quem teve seu terceiro e último filho: Mário Américo Júnior. 

O “Tio” foi uma espécie de psicólogo e “paizão” dos jogadores ao longo de três décadas de serviços prestados à comissão técnica brasileira.

Com a chegada e saída de tantos craques, por muitos anos Mário Américo permaneceu lá, preparado para qualquer atendimento e com um largo sorriso no rosto.

Mário Américo faleceu em 09 de abril de 1990.

Telegrama do jogador Zico enviado para a família de Mário Américo após seu falecimento

Créditos: história

Exposição Mário Américo

Versão original - 2014

Curadoria | Equipe de Conteúdo do Museu do Futebol
Proprietário do acervo | Mário Américo Netto
Digitalização do acervo | Rogério Alonso
Pesquisa e Textos | Aira Bonfim
Revisão e Tradução Tikinet
Edição de Vídeos Bruna Gottardo
Edição Google | Aira Bonfim, Bruna Gottardo e Pedro Sant'Anna

Versão revisada - 2018

Coordenação | Camila Aderaldo
Adaptação, edição google e tradução | Ana Letícia de Fiori


Créditos: todas as mídias
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