Arte da França: de Delacroix a Cézanne

MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Esta exposição, apresentada no MASP de 17.7 a 8.11.2015, atravessou quase duzentos anos de produção artística na França, dos séculos 18 ao 20, exibindo retratos, paisagens, naturezas-mortas e cenas históricas e do cotidiano, do mais importante acervo do período no Hemisfério Sul. Estiveram representados artistas de herança neoclássica, como Ingres, e romântica, como Delacroix; além de nomes ligados aos movimentos precursores do modernismo, como o realismo, de Courbet; o impressionismo, de Monet e Degas; o pós-impressionismo, de Cézanne, Van Gogh e Gauguin; o grupo dos Nabis, de Vuillard; e o cubismo, de Picasso e Léger. Grande parte dessas obras é testemunha das rupturas de natureza política, social e cultural que marcaram a Europa do século 19 e início do 20, quando a arte ganhou outros circuitos de produção e veiculação para além dos salões e encomendas oficiais, como a imprensa e a crítica especializada; os bares onde fervilhava a vida da nova burguesia e intelectualidade; os ateliês e a importância de sua dimensão expandida, especialmente no caso de Picasso; as academias alternativas, como Julian e Suisse, que ofereceram opções à formação mais tradicional da École de Beaux-Arts. A exposição privilegiou reunir conjuntos completos do acervo, com destaque para Renoir, Toulouse-Lautrec, Modigliani e Manet. Delacroix e Cézanne, juntos no mesmo espaço, na entrada, funcionaram como vetores para todo o percurso, uma vez que apontaram, cada um em seu tempo, tanto para o passado quanto para o futuro da história da arte, pontuando transições entre a tradição e o moderno; o antigo e o novo; entre, por exemplo, Ingres e Léger. 
Cézanne, que via em Delacroix um mestre e estudava pintura fazendo cópias de suas telas, soube perceber nele qualidades modernistas. Cézanne não só retomou algumas dessas qualidades como emprestou a elas novo significado, caso do encontro entre figura e fundo; do maior protagonismo dado aos elementos do quadro e da pintura, como a pincelada, em detrimento dos temas; e, sobretudo, da maneira como se valeu de um caráter supostamente inacabado de suas pinturas. Também foram exibidos itens do arquivo histórico e fotográfico do MASP, como correspondências sobre doações, aquisições, convites, folhetos de exposições, recortes de jornais, revistas e fotografias que recuperam parte da história das obras e do próprio museu. Apresentados no mesmo plano que as pinturas, apontam para uma redefinição de lugares e hierarquias entre os trabalhos de arte e sua história dentro da instituição, oferecendo um novo estatuto para materiais comumente distantes dos olhos do público. A disposição dos painéis, dos cabos de aço e das obras, bem como a relação deles entre si e com o espaço, retoma projeto de Lina Bo Bardi, arquiteta do MASP. Em 1950, na antiga sede da rua 7 de Abril, sua expografia já antecipava noções de transparência, leveza e suspensão, sem divisões em salas nem cronologias rígidas. Essas escolhas foram fundamentais e prepararam o terreno para a radical solução das telas dispostas sobre cavaletes de vidro que, ausentes desde 1996, retornaram ao segundo andar do MASP em dezembro de 2015. A seguir, uma seleção das obras expostas em "Arte da França: de Delacroix a Cézanne".

Paul Cézanne
Cézanne viajou pela primeira vez a Paris em 1861, onde se aproximou dos impressionistas. Até a década de 1880, sua produção possuía traços românticos, inspirada pelo lirismo e pelas pinceladas inacabadas de Eugène Delacroix (1798-1863). Gradativamente, ganhou traços construtivos, como na pintura "Rochedos em L’Estaque" (1882–85), em que cada elemento aparece de forma independente, como se a paisagem combinasse várias peças geométricas. O artista começou a se isolar a partir de 1886, ao se reconhecer no pintor fracassado que protagoniza o romance "A obra", de Émile Zola (1840–1902), seu amigo de infância, que aparece em "Paul Alexis lê um manuscrito a Zola" (1869–70). Cézanne queria elevar ao patamar dos clássicos o sistema de valores inaugurado pelos impressionistas, baseado na vibração da cor e da luz. Mas foi além e pintou os objetos a partir de diferentes pontos de vista, antecipando os preceitos cubistas.

Acredita-se que a personagem de "O negro Cipião" (1866–68) era um modelo que posava para os ateliês em Paris, mas a cena é muito similar a uma foto de 1863 que mostra um ex-escravo foragido com marcas de açoitamento nas costas.

Na década de 1890, Cézanne retomou o lirismo das obras da juventude. É o caso de "Madame Cézanne em vermelho" (1890–94), sua esposa e modelo frequente. A ausência de sombra coloca o fundo no mesmo plano da figura, dando densidade e unidade ao conjunto.

Eugène Delacroix
Estudioso dos clássicos, Delacroix escreveu sobre sua obra e de outros artistas ao longo da vida, o que contribuiu para que se tornasse um modelo intelectual da pintura romântica.

Viajou para conhecer pessoalmente o pintor John Constable (1776–1837), na Inglaterra, e a obra de Francisco de Goya (1746–1828), na Espanha.

Essas referências foram fundamentais para que Delacroix se desprendesse do rigor tradicional da pintura francesa, buscando sugerir sensações mais que ser fiel à representação.

As obras do MASP foram encomendadas pelo industrial francês Frederick Hartmann (1822–1880) para decorar sua residência. Nelas, Delacroix associa o tema das quatro estações a mitos greco-romanos.

As pinceladas largas são as mesmas para os cenários e para os personagens, e o movimento não está apenas nos gestos e na interação, mas no ritmo da própria pincelada. As curvas das rochas, as nuvens agitadas, a vegetação e as águas parecem acompanhar a sinuosidade dos corpos, conferindo tensão ao conjunto.

De longe, as telas de grande formato destacam as cenas em sua totalidade, com grande riqueza de detalhes.

De perto, cada trecho funciona com independência, destacando-se os blocos de cor, em especial, as massas de ocre e vermelho, e de verde e azul.

Marie Laurencin
Marie Laurencin ingressou na Académie Humbert, em Paris, em 1905, interessada na pintura de porcelanas. Lá, estudou com Georges Braque (1882–1963), que a levou ao ateliê de Pablo Picasso (1881–1973), na rua Ravignan, com o intuito de incentivá-la a ampliar as possibilidades de sua pintura.

Frequentou o espaço durante alguns anos, onde teve contato com discussões sobre temas como a superação do fauvismo pelo cubismo, em especial depois de o poeta Guillaume Apollinaire (1880–1918) apresentar-lhe o livro Peintres cubistes: méditations esthétiques [Pintores cubistas: meditações estéticas], de 1913. No entanto, Laurencin jamais assimilou o espírito cubista; ao contrário, sua pintura é leve e fluida. Obteve reconhecimento como ilustradora: são dela as litogravuras da versão de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, publicada em 1930 na França.

"Guitarrista e duas figuras femininas" (1934) é um exemplo fiel de sua paleta de cores suaves, marcada por tons de rosa e azul, com linhas tênues entre cada campo de cor. A cena do encontro musical ao ar livre remete a pinturas já consagradas, desde Giorgione (circa 1477–1510) a Edouard Manet (1832–1883), o que revela a presença de temas acadêmicos no vocabulário de Laurencin.

Suzanne Valadon
Aos quinze anos, além de garçonete nos bares de Montmartre, Suzanne Valadon tornou-se modelo para artistas como Toulouse-Lautrec (1864–1901) e Pierre-Auguste Renoir (1841–1919). Este último a introduziu na cena artística, depois de conhecer seus desenhos. Começou a desenhar aos dezessete anos, quando teve seu filho, o pintor Maurice Utrillo (1883–1955), de paternidade desconhecida. Foi a primeira mulher a exibir seus trabalhos no Salon des Beaux-Arts de Paris, em 1894. Na ocasião, o pintor Edgar Degas (1834–1917) comprou alguns de seus trabalhos e a incentivou a investir na gravura, abrindo-lhe as portas de seu próprio ateliê.

Após quinze anos improdutivos em sua carreira, que coincidem com seu primeiro casamento, Valadon voltou à ativa em 1909, adotando a pintura como suporte. Manteve as cores saturadas de seus desenhos em pastel, tomando emprestado de Degas temas como banhistas e nus reclinados. Em 1924, participou de exposições que reuniram mulheres artistas em Paris, recolocando seu trabalho em evidência.

Na obra do MASP, "Nus" (1919), uma mulher lê, deitada de bruços sobre a grama, enquanto a outra, sentada, arruma os cabelos e insinua o tamanco amarelo entre as pernas da primeira.

Os tons rosados e alaranjados de seus corpos, bem como as linhas que os contornam, projetam-nas para o primeiro plano, sobre as massas de verde da grama, da vegetação e dos tijolos da mureta.

Fernand Léger
De origem humilde, Léger foi aprendiz em um escritório de arquitetura antes de estudar na École des Arts Décoratifs e na Académie Julian, ambas em Paris. Participou do período de maior efervescência cultural de Montparnasse, em Paris, onde se beneficiou intensamente da proximidade de artistas como Robert Delaunay (1885–1941) e Marc Chagall (1887–1985), além do poeta Blaise Cendrars (1887–1961) que, em 1919, lhe dedicou o poema Construction.

O cubismo de Léger foi marcado por linhas fortes que delineiam os objetos, preenchidos por áreas monocromáticas e pelo sombreamento que lhes confere volume. Esses fundamentos foram difundidos pelos seus textos, entre eles, L’esthétique de la machine [A estética da máquina] (1923). Além de suas incursões no teatro, Léger produziu, em 1924, o Ballet Mécanique [Balé mecânico], primeiro filme abstrato da história do cinema, com fotografia de Man Ray (1890–1976). "A compoteira de peras" (1923), obra do MASP, dialoga com suas experiências nessas várias linguagens, ao referir-se a temas do cotidiano com um tratamento geométrico, dinâmico, que dilui, na vida comum, a estética e as cores da indústria. Os contornos grossos e as áreas de cor uniformes e sombreadas são influências reconhecíveis na obra da brasileira Tarsila do Amaral (1886–1973), sua aluna em Paris nos anos 1920.

Amedeo Modigliani
Antes de se mudar para Paris, em 1906, Modigliani estudou nas academias de Florença e Veneza. Na capital francesa, morou em Montmartre, bairroonde se reuniam artistas como Pablo Picasso (1881–1973), de quem Modigliani se tornou amigo.

Em 1909, conheceu o escultor romeno Constantin Brancusi (1876–1957), influência que o levou a dedicar-se exclusivamente à escultura até 1914, quando voltou a pintar. Modigliani era alcoólatra e vivia na penúria; morreu aos 36 anos de meningite tuberculosa. No contexto da Escola de Paris, desenvolveu um estilo que remete ao cubismo, com figuras que tendem à estilização geométrica, como nas faces alongadas das máscaras africanas.

Suas personagens carregam também uma melancolia que lembra a das madonas italianas do Renascimento. Seus retratos e nus são pintados sobre fundos quase monocromáticos, neutros, embora marcados pela pincelada. Os pescoços são esticados; as faces, elípticas e de traços delicados. As seis pinturas do MASP, todas feitas entre 1915 e 1919, entraram para a coleção do museu de 1950 a 1952. Entre as obras está o "Retrato de Leopold Zborowski" (1916–19), poeta polonês que se mudou para Paris e que, mais tarde, se tornou amigo e marchand de Modigliani.

Pablo Picasso
Picasso se formou em Barcelona e mudou -se para Paris na virada do século 20. Em pouco tempo, seu ateliê na rua Ravignan tornou-se ponto de encontro de artistas e intelectuais da época. Seu interesse pelas máscaras africanas e pela escultura grega arcaica, bem como a influência de Paul Cézanne (1839–1906), o levou a pintar como se os objetos fossem vistos de diversos lados e, assim, ganhassem movimento. O uso da geometria para estruturar a imagem e orientar o olhar fez de seu trabalho um grande marco para a arte do século 20.

O MASP possui quatro obras de Picasso, sendo as três em exposição do começo de sua carreira. Em "Toalete (Fernande)" (1906), o tema acadêmico do banho da moça assistida pela serva anuncia a presença de suas amantes como modelo, prática que repetiu por toda a vida. "Retrato de Suzanne Bloch" (1904) faz parte de sua Fase Azul, quando o artista usava apenas a cor azul para dar a ideia de unidade entre cada ponto da tela—ideia essa que ganhou novo caráter com o cubismo.

Em "Busto de homem" (1909), uma das primeiras obras cubistas, Picasso evitou linhas curvas e buscou a estrutura da figura mesclando os planos. Nessa fase, o artista distorcia as formas, a fim de dinamizar a relação com o objeto, abandonando totalmente a fidelidade ao modelo.

Paul Gauguin
Paul Gauguin é um exemplo de artista que olha para o mundo tomando as coisas outras como “exóticas”, tendo a cultura europeia como modelo. Passou parte de sua infância no Peru, terra natal de sua mãe, e integrou a marinha mercante francesa aos dezessete anos. Acostumou-se a viajar e, ao longo da vida, passou por vários países, como Panamá, Egito e Taiti, na Polinésia Francesa. Na França, estudou cerâmica, da qual absorveu a capacidade de simplificar e estilizar as formas. Embora tivesse muitas fotografias de viagem, suas pinturas eram feitas de memória, o que lhes conferia certo aspecto idealizado. As telas do Taiti são as mais conhecidas do artista.

É o caso de "Pobre pescador" (1896), em que um sujeito nu e reclinado sobre uma canoa bebe em uma cuia e observa o mar tranquilo e as nuvens agitadas.

A posição do corpo pode ser uma referência à imagem do relevo egípcio do Templo de Abidos, que circulava na França na década de 1880. Na cena, o homem é visto lateralmente, com o mesmo gestual das figuras da arte egípcia antiga. Já em "Autorretrato—Perto do Gólgota" (1896) um Gauguin místico e particularmente iluminado é assombrado por faces que saltam das rochas ao fundo.

Vincent van Gogh
Depois de estudar por dois anos em Paris, Van Gogh mudou-se para Arles, no sul da França, em 1888, onde iniciou uma série de trabalhos de luminosidade esplêndida e cores vibrantes. Nessa época, sofreu uma série de transtornos psíquicos e internações compulsórias, o que culminou em seu suicídio em 1890. Tudo isso está documentado em cartas, especialmente aquelas endereçadas a Theo van Gogh (1857–1891), irmão e marchand do artista.

As quatro obras do MASP coincidem com esse período de sua vida. Em "O escolar" (O filho do carteiro–Gamin au Képi) (1888), Van Gogh evitou a semelhança fotográfica com o modelo. As pinceladas ritmadas ganham força pelas cores fortes e saturadas.

Em "A arlesiana" (1890), Van Gogh cria a imagem de uma mulher talvez jovem, talvez velha. Os efeitos da pincelada depositam, no retrato, um novo filtro: o modo como o artista olha condiciona o que a figura é.

A organização do fundo rosa sintetiza o legado de Van Gogh para a história da arte: a cor que vibra e ilumina a si mesma.

Em "Passeio ao crepúsculo" (1889–90) e Banco de pedra no asilo de Saint-Remy (1889), as árvores tortuosas e as marcas do pincel que mudam de sentido sugerem uma agitação na cena, uma atmosfera estranha na qual céu, plantas e personagens parecem se mexer, como se estivessem vivos dentro da massa grossa de tinta.

Edouard Vuillard
Desde os dezoito anos, Vuillard frequentava ateliês de artistas. Foi amigo de Pierre Bonnard (1867–1947), com quem participou, em 1891, da primeira mostra dos nabis, grupo que refutava tanto a tradição acadêmica quanto as experiências impressionistas. Os nabis eram influenciados pelo grafismo das gravuras japonesas, de cores fortes.

Vuillard preferia cenas intimistas, e suas pinturas se aproximavam da estética fauvista, que recusava a perspectiva em favor da frontalidade. "O vestido estampado" (1891) mostra um tema recorrente em suas primeiras obras: o ateliê de costura de sua mãe.

Há três delimitações espaciais na sala: o fundo com a lareira, as paredes em linhas verticais e o espelho que reflete a mulher em primeiro plano.

A cena é envolta pelos tons de verde, ocre e lilás acinzentado, mas o destaque está na estampa do vestido. Com isso, Vuillard criou uma atmosfera da qual não emergem identidades (os rostos estão todos apagados), mas aparências
criadas pelas manchas e motivos das roupas e do local. Embora mais realistas, "A princesa Bibesco" (circa1920) e "Yvonne Printemps e Sacha Guitry" (circa1917) mantêm o registro dos hábitos parisienses em ambientes fechados.

Claude Monet
Em 1859, Monet conheceu Paul Cézanne (1839–1906), Camille Pissarro (1830–1903) e Edouard Manet (1832–1883), sua grande referência. Com eles, montou uma exposição, em 1874, a partir da qual se originou o termo “impressionista”, retirado de uma crítica negativa a seu trabalho "Impressão, nascer do sol" (1872).

As duas obras do MASP foram pintadas em Giverny, para onde se mudou em 1883. "A canoa sobre o Epte" (circa 1890) mostra seu interesse pelas superfícies aquáticas. A proximidade da água, que ocupa toda a parte inferior do quadro, indica que Monet buscava tanto os efeitos do reflexo das plantas sobre a superfície como a profundeza do rio.

O desfoque nas personagens e o enquadramento da canoa, cortada pelo limite da tela, lembram a linguagem da fotografia, influência decisiva para o pintor. A cena remete a gravuras japonesas que circulavam na França naquela época.

Monet tinha um interesse particular pelos efeitos da aparente transparência do ar, por isso pintava sob luz natural. Para ele, as cores construíam-se como camadas, de maneira que a relação entre elas potencializasse suas luzes e sombras, sem branco e preto.

"A ponte japonesa sobre a lagoa das ninfeias em Giverny" (1920–24) aproxima-se da abstração. É uma das últimas obras de Monet.

Edgar Degas
Durante sua formação, Degas conheceu o trabalho de Ingres (1780–1867), inspiração que o levou a trabalhar especialmente em representações da mulher, na figura de banhistas ou bailarinas. Em 1862, enquanto copiava uma pintura de Diego Velázquez (1599–1660) no Louvre, em Paris, Degas conheceu Edouard Manet (1832–1883), que o apresentou ao grupo de pintores impressionistas. Organizou todas as mostras do coletivo, desde a inaugural, em 1874, até a final, em 1886. Apesar disso, certas premissas impressionistas, como pintar somente a céu aberto sob efeito da luz natural, não estão presentes em toda a sua produção.

No entanto, outras características do movimento se manifestam mesmo em suas obras mais tardias, como a representação da luz e da sombra sem preto, explorando os efeitos da combinação entre cores.

Esse é o caso de "Quatro bailarinas em cena" (1885–90): o braço da bailarina central tem marcas azuis que, no conjunto, funcionam como sombra;

o tutu parece saltar da tela, porque as manchas roxas permitem que o rosa se destaque e tenha mais luz;

parte do rosto é verde, o que omite a expressão facial e destaca o gesto. Degas é também conhecido como escultor. O MASP possui um conjunto escultórico extraordinário de 73 peças, de cavalos e mulheres, fundidas em bronze, após sua morte.

Henri de Toulouse-Lautrec
Toulouse-Lautrec mudou-se para Paris em 1882. Montou um ateliê para atender a encomendas de periódicos como Le Mirliton, La Revue Blanche e L’Escarmouche, o que o transformou em precursor das artes gráficas durante e depois da Belle Époque, quando a França era o modelo cultural do Ocidente.

Como os impressionistas, que admirava, também foi influenciado pela gravura japonesa. Mesmo assim, era próximo dos artistas nabis (“profetas” em hebraico), que preferiam retratar os hábitos da burguesia parisiense em vez das sensações da luz. Por isso, pintava em lugares escuros, onde tinha controle dos efeitos da luz sobre a cor e as formas. O submundo parisiense foi seu palco. Antes disso, pintava temas bucólicos com a tinta mais diluída, caso de "O cão (Esboço de Touc?)" (circa 1880).

Nos bordéis, suas pinturas ganharam contornos marcados em azul ou verde, delimitando os campos de cor e destacando o movimento das modelos, como em "A roda" (1893) e "Mulher se penteando" (1891).

O alcoolismo causou sua internação, em 1899, e sua saída definitiva de Paris. "Retrato de Octave Raquin"(1901) e "Almirante do século 18" (1901) são dessa fase, em que a tinta era carregada, as grandes massas de cor não tinham contorno, e o suporte não era visível.

Edouard Manet
Manet foi uma figura essencial na passagem entre a arte acadêmica e a arte moderna. Era um grande mobilizador da cena artística na segunda metade do século 19 em Paris, agitador dos debates entre artistas nos cafés Guerbois e Nouvelle Athènes, e interlocutor de escritores e poetas como Émile Zola (1840–1902) e Charles Baudelaire (1821–1867).

Suas pinturas e personagens, em geral retratos de corpo inteiro, encaram duramente o espectador e parecem desafiar a tradição e a crítica. Talvez por isso seu reconhecimento nos salões de arte tenha sido tardio.

Em "A amazona–Retrato de Marie Lefébure" (1870–75), o forte contraste entre os verdes diluídos do fundo e a roupa da mulher, com seu preto radical e contorno geométrico, constroem um cenário quase abstrato para o qual o cavalo se volta e no qual ameaça penetrar.

O objeto na mão da amazona parece ter sido pintado duas vezes—um pentimento (“arrependimento” em italiano)—, dando movimento à cena.

"O Senhor Eugène Pertuiset, caçador de leões" (1881)—um comerciante de arte e de armas—é uma sátira às grandes caçadas de leões das pinturas de Eugène Delacroix (1798–1863). Caído sobre a terra roxa, o leão sugere a morte da tradição.

Pierre-Auguste Renoir
Renoir conheceu Claude Monet (1840–1926) ainda na juventude, quando frequentava ateliês e estudava na École de Beaux-Arts de Paris. Por meio dele, aproximou-se dos impressionistas.

No grupo, Renoir ficou conhecido por suas cenas dos cafés e bares de Paris, e também pelos nus femininos, muitos dos quais exibem sua primeira namorada, Lise. É o caso de "A banhista e o cão griffon" (1870).

O MASP tem doze pinturas do artista, entre elas, "Rosa e azul – As meninas Cahen d ́Anvers" (1881), que retrata as caçulas da família Cahen d’Anvers.

A exposição da obra na Fondation Pierre Gianadda, na Suíça, em 1987, revelou o destino cruel de Elisabeth, a garota de azul. Enquanto visitava a mostra, um sobrinho seu a reconheceu e escreveu ao MASP contando que, em 1944, ela havia morrido em um trem, a caminho do campo de concentração de Auschwitz, aos 69 anos.

A pintura destaca-se, no conjunto, pelo detalhamento excepcional dos vestidos, pelos relevos em branco que formam os babados e pelo cetim reluzente.

A maneira empastada de misturar as cores e conseguir reproduzir, na textura, a sensação tátil dos materiais também se repete em obras como "Menina com as espigas" (1888), em que o movimento da vegetação é tão vivo que a imagem parece saltar da tela.

Honoré Daumier
Apesar da formação de artista que recebeu na Académie Suisse, em Paris, foi com os jornais republicanos La caricature e Le Charivari, na década de 1830, que Daumier se consagrou com seus desenhos satíricos sobre política e costumes. Sua obra coincide com a radical mudança do gosto causada pelas transformações sociais na França, resultado do fortalecimento da burguesia e da imprensa como meio de difusão de imagens e informação. Em 1860, abandonou os jornais para se dedicar à pintura. Daumier era um interlocutor próximo dos artistas realistas e costumava retirar temas da literatura.

"Duas cabeças" (1858–62) fez parte de uma mostra de 98 trabalhos de Daumier, organizada em 1878 pelo escritor Victor Hugo (1802–1885), para ajudar o artista em um período de dificuldades financeiras. A pintura parece ser um fragmento, recorte de uma cena dramática que se completaria fora da tela. As duas personagens olham para o canto direito, anunciando um fato ou um terceiro elemento do qual só vemos uma mancha. Somente o rosto de uma das figuras é visível, com a expressão exacerbada por pinceladas rápidas e marcadas, enquanto a outra é vista apenas de perfil.

Gustave Courbet
Courbet foi a mais forte referência do realismo na pintura francesa do século 19. Pintava as coisas assim como as via: temas sociais, o trabalho no campo, retratos crus, brutos, não idealizados. Rechaçava a pintura classicista, que buscava legitimar as instituições oficiais por meio de modelos estéticos da Antiguidade. Também recusava o imaginário dramático do romantismo, que refletia os modos de vida e aspirações da burguesia. Courbet participou ativamente da Revolução de 1848 na França, no contexto da Primavera dos Povos, uma série de revoltas contra as crises econômicas e os regimes autoritários na Europa. Desde então, suas pinturas passaram a refletir um posicionamento permanente contra a ideologia dos salões e da arte oficial, a ponto de, em 1858, o artista organizar uma mostra com seus trabalhos recusados, o Pavillon du Réalisme.

As obras expostas, "Juliette Courbet" (1873–1874) e "Zélie Courbet" (1847), irmãs do pintor, mantêm as superfícies escuras típicas do artista, com predominância de cinzas, sépias e poucos detalhes coloridos que destacam as figuras do fundo. Embora pintadas com quase trinta anos de intervalo, possuem a mesma expressão informal e afetiva, sem a tradicional idealização da beleza feminina.

Jean-Baptiste-Camille Corot
A vida de Corot foi marcada por uma intensa produção e por viagens que alimentaram sua pintura, em constante transformação e sem adesão rígida a qualquer estilo específico. O MASP possui cinco obras do artista: três retratos, uma paisagem e uma natureza-morta.

Em "Cigana com bandolim" (1874), retrato da soprano sueca Kristina Nilsson (1843–1921), os ocres e vermelhos revelam uma sobriedade calculada: Corot tinha roupas e fundos prontos para esse tipo de pintura em seu ateliê.

O cuidado com a cor é também a tônica da obra "Rosas num copo" (1874), em que a transparência do copo e a variação entre pedaços diluídos e maciços de tinta criam a sensação de umidade.

O fundo uniforme destaca a cor de cada pétala. As linhas vertical e horizontal, e o copo deslocado do centro dão um aspecto casual e intimista para a imagem, como se ela fosse o recorte de uma distração. É uma das três únicas pinturas de flores do artista.

"Paisagem com camponesa" (1861) tem uma gradação de azuis entre o céu e as colinas ao fundo, semelhante à do verde do pasto e das plantas no centro do quadro.

A divisão horizontal marca um espelhamento tanto na cor quanto na composição: o terreno declina na mesma medida em que a linha azul da paisagem se levanta. A árvore ao centro conecta os dois planos, enquanto a camponesa trabalhando representa o trabalho como um elemento constitutivo dessa paisagem.

Jean-Auguste-Dominique Ingres
Ingres estudou na École de Beaux-Arts de Paris e foi um dos principais discípulos do pintor de temas históricos Jacques-Louis David (1748–1825). Em 1801, foi premiado pela França com a tradicional viagem a Roma, onde permaneceu de 1806 a 1820.

De volta a Paris, foi nomeado artista oficial e comandou um dos mais importantes ateliês da Acadèmie des Beaux-Arts, onde concorria com Eugène Delacroix (1798–1863). Seus retratos eram inspirados em ornamentos e temas mitológicos. Ingres alongava e distorcia os corpos para acentuar as expressões.

"Cristo abençoador" (1834) e "Virgem do véu azul" (1827) remontam à iconografia cristã. As mãos levantadas de Cristo são as mesmas do princípio do cristianismo, quando ele era retratado ensinando a rezar o Pai-nosso. Já as mãos de Maria, juntas, seguem a tradição medieval e representam submissão.

É o caso de "Angélica acorrentada" (1859), com suas proporções improváveis e corpo inflado, especialmente o pescoço. A cena remonta ao poema épico Orlando furioso (1516), em que Angélica é salva do monstro marinho ao qual foi oferecida em sacrifício. O monstro é cegado pela luz do escudo mágico do cavaleiro pagão Ruggiero, por quem Angélica se apaixona.

Jean-Honoré Fragonard
Fragonard foi aluno de Chardin (1699–1779), que o inspirou especialmente para a pintura de temas cotidianos. Apesar de participar de vários salões de arte, não conseguiu ser aceito como artista oficial. Seus retratos eram muito coloridos, com um dinamismo exagerado, o que lhe conferiu a fama de atender a quaisquer exigências dos compradores.

Seus temas eram decorativos e informais: casais enamorados, cenas domésticas e crianças, um tipo de pintura que, décadas mais tarde, se tornou comum entre os românticos. Após a Revolução Francesa (1789), Fragonard abandonou o trabalho na Asembleé Nationale para fugir do clima político em Paris. As duas obras do MASP são anteriores a essa época.

Em "A educação faz tudo" (1775–80), o artista dá um tratamento mais informal que Chardin para o tema da educação.

Na parte central e iluminada da cena, uma jovem brinca com dois cães para divertir as crianças. Um dos cães usa um manto vermelho e equilibra uma palha de milho entre as patas, enquanto o outro usa um chapéu negro de abas largas, como se ridicularizassem os hábitos ostentosos da aristocracia contra a qual a França se levantaria anos depois.

Jean-Baptiste-Siméon Chardin
Chardin foi um dos grandes nomes do barroco francês, caracterizado pelo drama e pela ostentação, que ilustravam tão bem o poder da monarquia absolutista. Em 1728, ganhou o título de pintor de naturezas-mortas na Académie Royale de Paris. Com o tempo, o artista passou a produzir pinturas de gênero, feitas para as casas de nobres e burgueses—retratos, cenas domésticas, crianças ou casais enamorados.

"O menino em Retrato de Auguste Gabriel Godefroy" (1741) era filho de um joalheiro e banqueiro para quem Chardin fez muitos outros trabalhos.

Na cena, ele observa o pião girar, distraindo-se dos estudos e deixando de lado os livros, o tinteiro e o pergaminho sobre a escrivaninha. A luz extraordinária que recai sobre o garoto traça uma linha diagonal na parede ao fundo, conferindo volume à composição.

A gaveta entreaberta em primeiro plano, com um prolongador de giz, confere profundidade ao móvel. Na época, os retratos levavam muito tempo para serem feitos; o modelo tinha que parecer natural e, ao mesmo tempo, sustentar a pose.

O pião era uma boa solução para manter o menino imóvel, mas com alguma espontaneidade. O tema da educação infantil era recorrente na pintura francesa do período.

Jean-Marc Nattier
Desde os quinze anos, Nattier já era premiado como artista e atendia a muitas encomendas privadas. Em 1718, após retratar Catarina, a Grande (1729–1796), imperatriz da Rússia, recusou o convite para se estabelecer na corte em São Petersburgo.

Foi então aceito como pintor de temas históricos na Académie Royale de Paris. Nattier é um dos maiores retratistas de sua geração, caracterizada pelo exagero decorativo e pela renovação da imagem da mulher, dada sua crescente importância na vida intelectual e cultural francesa no século 18.

Seus retratos reiteram o poder da nobreza sobre a plebe, através de simbolismos e da ostentação da riqueza, evidenciada pelos tecidos como o veludo e o cetim coloridos, que eram muito custosos e demarcavam papéis sociais. As pinturas do MASP reúnem quatro das filhas do rei Luís XV.

Cada uma delas é associada a um dos quatro elementos, identificados pela iconografia do globo, do fogareiro, do pavão e da ânfora. A mais velha, Louise-Elisabeth, é associada à terra; Anne-Henriette, ao fogo; Marie-Adélaïde, ao ar; Marie-Louise-Thérèse-Victoire, à água. As obras decoravam uma sala no Palácio de Versalhes.

MASP - Museu de Arte de São Paulo
Créditos: história

"Arte da França: de Delacroix a Cézanne"
17.7 a 25.10.2015
Curadoria: Adriano Pedrosa, Eugênia Gorini Esmeraldo, Fernando Oliva e Tomás Toledo

Créditos: todas as mídias
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