Iberê Camargo: camadas e sobrecamadas de alta expressão poética

Fundação Iberê Camargo

Quase no final da vida, Iberê Camargo (1914-1994) chegou a ser saudado pelo jornal Folha de São Paulo como “o maior pintor em atividade no Brasil”.

Essa titulação talvez aponte sobretudo o gosto mundano pelos superlativos, em geral tão caro ao jornalismo, mas, de qualquer forma, é reveladora do estágio de reconhecimento que o artista experimentou em vida.

Iberê foi um dos mais notáveis criadores do país na segunda metade do século XX, com um arco de influência e permanência ainda escassamente testado.

A fundação que leva o nome do pintor, funcionando em um admirável prédio projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza, em Porto Alegre, investiu de modo incisivo na preservação e na divulgação de seu legado estético.

Com isso, terá alcançado uma amplitude ainda maior de projeção de sua obra, inclusive em contexto internacional.

É inegável a alta qualidade poética dessa produção, que se manifestou sobretudo na pintura a óleo, no desenho e na gravura em metal.

Para fins didáticos ou de melhor compreensão, a trajetória de Iberê pode ser examinada em quatro ou cinco fases mais ou menos distintas.

Há uma extensa etapa de formação, que compreende desde a juventude do artista, ainda na região de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, extremo e então remoto sul do Brasil, até a conquista do prêmio nacional que lhe valeu um estágio de estudos na Europa, onde foi aluno do francês André Lothe (1885-1962), mestre cubista, e onde frequentou o italiano Giorgio de Chirico (1888-1978), expoente da pintura metafísica.

A segunda fase, após os estudos com o mineiro Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), é a da consolidação da paleta expressionista do pintor de Restinga Seca, com uma figuração mais carregada e um maior emplastamento da tinta a óleo.

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A terceira fase, que vai projetar de fato o nome de Iberê, com participação na Bienal de Veneza de 1962 e a execução de um painel de 49 metros quadrados na sede da Organização Mundial de Saúde, em Genebra, em 1966, é aquela em que ele progressivamente se aproxima da abstração (embora ele próprio nunca o tenha admitido), com telas em geral largas, com cores mais fechadas e com a justaposição de camadas e camadas de tinta, que seria uma das marcas de seu desejo de expressão.

As fases finais dessa produção correspondem à volta da figuração humana, nos anos 1980, com criaturas de perfil fantasmático e seus primeiros Ciclistas, seguida por uma nova leva de criaturas, mais densas, mais trabalhadas e mais dramáticas, em que despontam as Idiotas, inconsoláveis personagens que parecem resignar-se com a falta de sentido da vida e com a inevitável expectativa da morte.

Todas essas fases, inclusive a mais íntima do abstracionismo expressionista, foram acompanhadas pela constante presença dos carretéis.

Iberê adulto representou insistentemente, isolados ou em conjuntos, às vezes sobre mesas ou em interação com figuras humanas, esses que foram seus mais benquistos brinquedos de infância. De família humilde, com recursos parcos, ele se divertia com os carretéis de linha que sobravam das costuras da mãe.

Essa forma, que por vezes ele resumiu em quatro linhas, como as de uma ampulheta, perseguiu o artista da juventude aos últimos trabalhos, às vésperas do que seriam seus 80 anos.

Em uma exposição recente, em 2014, alusiva ao centenário de nascimento de Iberê, a fundação que o homenageia confrontou seus carretéis pintados com imensos carretéis de mais de três metros de altura, concebidos pelo artista cearense Eduardo Frota (1959).

As peças – monumentais – foram produzidas a partir da colagem de finas lâminas de madeira e compensado, recortadas e coladas umas às outras.

Reproduziam no espaço concreto o mesmo delicado (des)equilíbrio dos carretéis desenhados, pintados e gravados por Iberê.

Um arranjo ao mesmo tempo delicado e paquidérmico.

Sinalizavam, com sorte, algo da potência e da repercussão possível dessa plástica tão vigorosa no cenário da arte contemporânea. Algo ainda a ser melhor verificado e explorado.

Créditos: história

Texto gentilmente cedido por Eduardo Veras, crítico e historiador da arte, professor do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Organização
Gustavo Possamai


Tradução para o inglês
Franciele Amaral


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