18 de mai de 2017 - 29 de out de 2017

Iberê Camargo: NO DRAMA

Fundação Iberê Camargo

Composto por 52 obras do acervo e de coleções privadas, dentre elas painéis em fórmica, fotografias documentais, estudos preparatórios e até um vestido pintado por Iberê, a exposição reverbera o dinamismo de um artista que, malgrado o tom soturno ao qual sua obra é costumeiramente associada, fazia dos sábados e das sessões de pintura em sua casa momentos de ilustração, intimidade e diversão. São trabalhos que revelam a ação performativa de um ator-artista no ato de sua pintura. Aqui, essa relação pode ser vista nas composições de Iberê para peças e obras de autores intimamente ligados à atuação no palco, seja pela via da música e da dança, como Heitor Villa-Lobos; seja pelo caminho de textos literários, caso de João Simões Lopes Neto; ou, por fim, pelo viés da dramaturgia pura, como em Luigi Pirandello e Jean Genet.

Na mostra, este vínculo de Iberê com o dramático se evidencia através da investigação de uma exuberante civilização amazônica presente nos estudos de fundo de cena e figurinos para o balé Rudá, de Villa-Lobos; no conjunto de painéis pintados em fórmica que ilustram o imaginário das Lendas Gauchescas de Lopes Neto; nos guaches criados a partir de encenações de O homem com a flor na boca, de Pirandello; ou para As criadas, de Genet; e, finalmente, na pintura Retrato (Jane e Mariza) e no guache O delírio, que pontuam simbolicamente a força e a atitude com a qual Iberê Camargo se relacionou com o drama – seja nos palcos ou na vida. O delírio, sem fim...

Em 1962 Iberê realizou desenhos, estudos para painel e tapeçaria a partir da lenda Boitatá. Por encomenda, a obra foi executada em painel de fórmica para integrar o prédio do Sindicato de Corretores de Seguros e Capitalização do Estado da Guanabara, Rio de Janeiro.

João Simões Lopes Neto (1865-1916), escritor brasileiro, dedicou sua obra às lendas, aos causos e aos contos do Rio Grande do Sul - seu lugar de origem. Em 1913, publicou o livro Lendas do Sul, do qual a lenda Boitatá é parte integrante.

O significado de Boitatá em guarani é cobra de fogo, e é em torno desta figura que gira a lenda. Numa imensa noite escura e chuvosa, a terra está inundada na escuridão. Uma cobra grande tem sua gruta invadida pelas águas e sai para se alimentar: se alimenta de olhos de animais.

Sua pele é tão fina que a soma dos olhos dentro de seu corpo deixam rastros de luz por onde passa. A cobra grande enfraquece, os olhos dos animais não nutrem. Com o tempo vira a boitatá, a cobra de fogo que explode, explode de luz. Então, a noite se desfaz.

Em 1960, Iberê realizou 8 painéis a partir da lenda Salamanca do Jarau e os presenteou a Luiz Aranha, amigo e mecenas no início de sua carreira artística.

A lenda Salamanca do Jarau é parte integrante do livro Lendas do Sul, escrito por João Simões Lopes Neto e publicado em 1913.

Teiniaguá é uma Princesa Moura transformada em lagartixa pelo Diabo Vermelho dos índios, o Anhangá-Pitã. Com o corpo de lagartixa (salamandra) e a cabeça de pedra preciosa, cor de rubi, a Princesa encanta os homens. Seu destino é viver numa lagoa no Cerro do Jarau, ao sul do Brasil.

Salamanca do Jarau trata dessa personagem como parte da lenda, de tradição espanhola, sobre a influência ibérica na colonização de nossos vizinhos Argentina e Uruguai e na origem do povo gaúcho.

Em 1986 Iberê Camargo assistiu no Teatro Terreira da Tribo de Porto Alegre a montagem do texto teatral As Criadas, de Jean Genet, encenada pelo grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. Motivado pela peça, realizou uma série de guaches com a colaboração de integrantes da companhia teatral que atuaram como modelos em seu ateliê.

Jean Genet (1910-1986), escritor, poeta e dramaturgo francês, escreveu As Criadas em 1947. A peça é referência do Teatro do Absurdo, gênero teatral que se utiliza de narrativa insólita.

Sinopse da peça: Claire e Solange são irmãs e criadas na casa de uma Madame. Na ausência da dona da casa, as criadas invadem o quarto da madame, usam suas roupas, acessórios e encenam seu assassinato. Num jogo de projeções com revezamento de personagens, interpretam ora a Madame ora a criada.

"[...] Essa decantação da forma em muitas águas, isso tanto nas palavras, como nas linhas, na pintura, é uma depuração, uma síntese que leva por assim dizer a uma transfiguração que está além da aparência. Importante é encontrar a magia que existe nas coisas, na vida. Do contrário, seria apenas um testemunho visual de um fenômeno ao alcance de qualquer um. Acho que o pintor tem uma capacidade, digamos, de penetração além do modelo. Num determinado momento, o modelo não tem mais importância, ele que foi tão importante para a estruturação do quadro. Surge uma outra figura que nem mais está no ateliê, é um outro espaço." [1]

Iberê Camargo

Série de desenhos, estudos de figurinos e cenários para um projeto de encenação de Balé Rudá, de Heitor Villa-Lobos, encomendado a Iberê em 1959. O espetáculo não foi realizado.

"É certo que a grande epopéia tropical de Villa-Lobos, exuberante em personagens (mulheres sensuais e guerreiras dominam o primeiro e segundo atos) e ambientes (ora selvas, ora suntuosos palácios pré-colombianos) foi virada pelo avesso por Iberê. A explosão de cores amazônicas ganhou tons soturnos, uma das marcas registradas do pintor." [2]

Heitor Villa-Lobos (1887-1959), compositor brasileiro, criou Rudá, Poema Sinfônico e Ballet em 1951. Peça musical composta de dois atos, esta obra é uma representação histórica das raças do Novo Mundo.

Rudá, nome que dá título à obra, é considerado pelo autor, além de Deus do Amor na mitologia Marajoara, um símbolo desse sentimento em todas as civilizações pré-colombianas do Novo Continente.

Em 1992 Iberê, já diagnosticado com câncer, realiza a série Tudo te é falso e inútil. Reminiscências afloram nas obras desta série, os elementos trabalhados até aquele momento, como os carretéis, surgem agora como testemunhos de um tempo, imobilizados na memória e anunciando o fim.

"Tudo te é falso e inútil [...] toma seu título e inspiração de um poema de Fernando Pessoa. Vem, Noite antiquíssima e idêntica [1914], é o poema em que a noite, sábia e eterna, que viu nascer os deuses, sorri porque tudo lhe é falso e inútil." [3]

[...]
“Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.”
[...]

"Também a paleta responde à cor simbólica da noite, o azul e os branco-prateados da luz lunar. Crepúsculo do dia, crepúsculo da vida, as obras aludem a uma indiferença existencial que o pintor encarna em seres abatidos que sorriem com a ingenuidade do primeiro dia do mundo. No seu sorriso não está a sabedoria da noite, mas com o gesto impávido do alienado. A matéria tornou-se aquosa, delgada. As figuras se desenham e apagam sobre fundos densos, como palimpsestos, abrumados de antigos traços de bicicletas, carretéis, manequins: os símbolos de Iberê." [4]

"[...] Na pintura, que consideramos uma síntese de sua trajetória, temos a paisagem fundadora de sua obra, um lugar indiscernível como fundo da tela, mas com a presença inquestionável de um astro avermelhado; a figura monumental e impositiva, que sempre esteve presente (mas nem sempre visível) e, finalmente, uma natureza-morta, uma mesa com objetos. Mas é uma mesa impossível, sobre a qual vários carretéis lutam para permanecerem estáveis. Uma natureza-morta dinâmica, a negação da própria natureza do gênero, marcada pela estabilidade e pela imobilidade. Uma natureza-morta inquietante, observada por um espectador impassível e inerte, renitente nos seus braços imóveis e indiferente ao meio dinâmico, interior e exterior simultâneos, que o envolve." [5]

Iberê tinha um projetor 8 mm, colecionava filmes e projetava-os para amigos em seu ateliê. Antes dos filmes, passava um seriado de western (estrelados por Chaplin, Tom Mix, Ken Maynard, Elmo Lincoln, John Barrymore, entre outros), que era seu programa predileto. Em 1989, alguns desses que integravam sua filmoteca, como os seriados de cinema mudo, o motivaram a realizar uma série de desenhos.

No ano de 1992 Iberê participa das gravações do curta-metragem Presságio, de Renato Falcão. Em uma das cenas, o ator Manuel Aranha interpreta o personagem principal da peça O homem da flor na boca, de Luigi Pirandello, enquanto Iberê o desenha. A filmagem deu origem a uma série de guaches que foram doadas pelo artista em prol da campanha de prevenção da AIDS - Um ato de amor à vida.

Luigi Pirandello (1867-1936), escritor e dramaturgo italiano, escreveu O homem da flor na boca em 1923.

O conto em forma de cena teatral, em um ato, narra a história de um homem que se encontra numa situação limite e, a partir daí, passa a ficar mais atento às situações prosaicas do cotidiano.

Créditos: história

Iberê Camargo: NO DRAMA esteve em cartaz na Fundação Iberê Camargo de 12 de março a 29 de outubro de 2017, com curadoria de Eduardo Haesbaert e assistência e pesquisa de Gustavo Possamai.


Esta versão online da exposição não inclui a totalidade dos documentos expostos na apresentação original.


Organização
Gustavo Possamai


Estagiária
Larissa Fauri


Referências bibliográficas
[1] LAGNADO, Lisette. Conversações com Iberê Camargo. São Paulo: Iluminuras, 1994. p. 28.
[2] NAME, Daniela. O sonho latino de Iberê e Villa-Lobos: guaches inéditos feitos pelo pintor para "Rudá", balé que o maestro nunca montou, vão a leilão: O Globo, Rio de Janeiro, jun. 1999. 1 p.
[3] [4] HERRERA, María José. Iberê Camargo: um ensaio visual. Porto Alegre: Fundação Iberê Camargo, 2009. p. 18-19.
[5] GOMES, Paulo. Iberê e seu ateliê: as coisas, as pessoas e os lugares. Fundação Iberê Camargo: Porto Alegre, 2015. p. 64


Todos os esforços foram feitos para reconhecer os direitos morais, autorais e de imagem. A Fundação Iberê Camargo agradece qualquer informação relativa à autoria, titularidade e/ou outros dados que estejam incompletos nesta edição, e se compromete a incluí-los nas futuras atualizações.
acervo@iberecamargo.org.br


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