PROGRAMA ARTE ATUAL 2016-2017

Instituto Tomie Ohtake

Fábula, frisson, melancolia
29 setembro a 29 outubro 2017

Nesta sexta edição do Arte Atual, em Fábula, frisson, melancolia., os curadores Paulo Miyada e Carolina De Angelis reuniram Marcelo Cipis, Pedro Wirz e Tiago Tebet como catalisadores de imaginários e sensibilidades do tempo presente. Em registros estéticos variados, eles reverberam porções de fábula, de frisson e de melancolia: a dimensão do mistério - a lenda, o mito - que transborda sobre a natureza apreendida pela humanidade; a excitação coletiva em estágio de espetáculo; e a inércia, desilusão ou pulsão que não alcança seu alvo.

“Cada um se afina com determinado campo de fabulações que atravessam paisagens cotidianas - sejam as urbanas, as rurais ou aquelas presentes no imaginário coletivo. Como artífices, extrapolam as formas e os signos dados, criando imagens novas e cativantes. Contrapostos com a realidade atual, porém, não deixam de revelar alguma fissura, um descompasso com um mundo que se especializou em consumir sonhos, ou vendê-los como paródias decaídas de si”, afirmam os curadores.

Pedro Wirz, frente a uma época de inversão de valores e sentidos, volta-se a reminiscências atávicas. Retoma sua infância, retoma as raízes, o folclore, as histórias contadas em volta da fogueira... lendas, geografias e psicologias inteiras construídas graças à possibilidade do fantástico. Wirz propõe uma sala na penumbra, que instiga o visitante a adentrar a mata – evocada pelo estalado dos gravetos sobre o solo – e encontrar uma ciranda de figuras diminutas. Na instalação estarão duas esculturas, uma peça pequena em bronze sobre o solo, que representa pessoas girando em roda, como em uma ciranda; e uma enorme cobra de taipa sobre madeira na parede, enrolada. Grandes quantidades de terra fazem labirintos no chão, cera e troncos de árvores secos compões texturas, madeiras ganham as mais variadas formas. A lida com o bronze, constante em seu trabalho, rememora uma técnica tradicional da produção escultórica.
Nascido em São Paulo (1981), Pedro Wirz passou parte de sua infância e adolescência em Pindamonhangaba. Graduou-se pelo Instituto de Artes da FHNW Basel. Hoje vive e trabalha no Porto, em Portugal. Em parte de suas recentes pesquisas, o artista está resgatando o vocabulário e o imaginário que adquiriu em sua criação e vivência na região do Vale do Paraíba. Mito, fantasia e o modo de vida caipira – não em seu aspecto pejorativo, mas pelos seus traços culturais – dialogam em trabalhos enigmáticos que são, essencialmente, saídos da natureza.

Marcelo Cipis exibe o vídeo feito originalmente para a Bienal de São Paulo de 1991, junto a uma grande tela de 2,5 por 6 m, que reproduz o painel de fundo utilizado para a gravação do vídeo. Além disso, um conjunto de cerca de 10 pinturas que enfatizam o ruído e o inacabado, aspectos pouco vistos na produção do artista, mas que estão presentes em obras de diversos períodos, tendo se intensificado recentemente. Trata-se de um ambiente midiático, habitado por promessas de felicidade e bem-estar. Com afeto, o artista imaginou a face de um corporativismo bondoso, em imagens de humor aparentemente despretensioso

O vídeo de 1991, que divulga a empresa “Cipis Transworld, Art, Industry & Commerce”, dá indícios de um mundo em que a tecnologia e o mercado conviveriam de modo harmônico com a arte e a criação. O tempo, porém, deixa transparecer a angústia por trás do riso - o descontentamento que começa, recomeça e provoca curtos-circuitos no traço antes tão claro e preciso. Pinturas e desenhos demonstram indecisão e incerteza processual. Formando em arquitetura pela FAUUSP, Marcelo Cipis (São Paulo, 1959) vive e trabalha em São Paulo. Dedicou-se a ilustrações para periódicos, jornais e livros e ao mercado publicitário. Participou da 21ª Bienal de São Paulo com o trabalho que traz ao Arte Atual: “Cipis Transworld, Art, Industry & Commerce”.

Tiago Tebet apresenta um conjunto de cerca de 15 pinturas inéditas. O artista também deambula à procura de imaginários outros, aspectos do real que alimentem novos imaginários, mas seu território é a grande cidade. Nela, encontrou uma arquitetura divergente daquela que se ensina nas universidades e da que os empreendedores reproduzem, vorazes por novos negócios. Nem ciência, nem negócio, a arquitetura que lhe interessa é a do saber-fazer passado de geração em geração. O vernáculo: cimento, massa, pintura, textura, cor, ornamento. Tudo se processa e intensifica no ateliê do artista. Telas brancas exibem padrões típicos de técnicas de pinturas de casa.

Telas brancas exibem padrões típicos de técnicas de pinturas de casa. Pedras, massa e uma mistura de areia com cola somam-se a um procedimento de raspagem para revelar gradientes inusitados de cores vibrantes. No conjunto, de pinturas, porém, não predomina a celebração: algo áspero retorna e insiste em aumentar a gravidade de cada uma das pinturas”.
Formado em Artes Visuais pela Fundação Armando Álvares Penteado, Tiago Tebet (São Paulo, 1986) vive e trabalha em São Paulo e dedica-se, principalmente, à pintura. Suas obras testam procedimentos distintos dos tradicionais. Camadas que passam por processos de raspagem, inserção de cores inesperadas, textos que se misturam com as formas. Atualmente, Tebet pesquisa novas texturas atento àquelas usadas na construção civil, nas pinturas de casa.

QAP: Tá na escuta?
05 a 21 de maio 2017
Em contato. Online. Comprovante de residência. Cópia oculta. Adicionar novo contato. Solicitação pendente. Aviso de recebimento. Mensagem lida. Marcar amigo. Seguir. Deixar de seguir. Responder a todos. Disque 4 para voltar. Aguarde um momento. QSL, QAP, TKS. Câmbio. Nunca produzimos, editamos e compartilhamos tanto. Numa era de hipercomunicação, as tecnologias mediam distâncias e estendem o alcance de diferentes vozes enquanto possibilitam a amplificação dos pensamentos individuais e dos menores detalhes cotidianos. Ainda assim, o otimismo originalmente depositado no potencial das novas formas de comunicação como recursos para nos confrontar com o diverso parece cada vez mais restrito à teoria. Tornou-se usual constatar o fechamento sistemático de nossas redes em torno de opiniões já familiares, por vezes estratificando alinhamentos ideológicos e favorecendo a intolerância em detrimento das trocas. Câmara de eco, espelho narcísico, fábrica de ódio, circuito de verdades parciais. Em macro-escala, acontecem neste momento diversas batalhas pelos princípios que regem os canais de comunicação. Na escala dos indivíduos, persiste uma dúvida: será que entre tantas trocas, existe diálogo efetivo? E, para isso, alguém pratica alguma dimensão da escuta? Em 'QAP: Tá na escuta?', título alusivo à sigla usada por operadores de rádio, a ideia é que as salas de exposição sejam ocupadas por convites para entrar em contato direto com os artistas. 'QAP: Tá na escuta?' reflete sobre a escassez da escuta no tempo atual e ensaia modos de contato entre artistas e públicos. Os artistas foram convidados para elaborar propostas que privilegiassem a comunicação no período da exposição. Não há propriamente um conjunto de obras prontas, mas convites para o público. Conforme o teor dos projetos, eles podem se valer de canais telefônicos ou virtuais, da presença efetiva do artista ou mesmo de instruções para participação. Esses trabalhos podem acontecer inteiramente na sala de exposição, apenas começar aqui, ou terem neste espaço um ponto de uma rede – será por meio das trocas que as obras encontrarão suas dimensões reais. Embora pautadas pela escuta, as propostas não se configuram somente como convites amistosos, apartados das divergências. Lançam-se como pontes para o diálogo, que enfatizam o tempo presente dos visitantes, como convite para que estejam, pelos meios de comunicação escolhidos, junto aos artistas, dispostos a “perder tempo”. O tempo, condição incontornável para que haja escuta, é praticado aqui como antítese da urgência por produtividade capitalizada como trabalho ou consumo. Para quem quiser, há aqui tempo a ser gasto para compartilhar, assimilar, interiorizar e, mesmo, contrapor as proposições apresentadas. As trocas, gradativamente ditadas pela velocidade instantânea de nossos fluxos informacionais, devem aqui implicar o tempo do envolvimento, do deixar-se disponível para escuta, do estar em linha, mas não necessariamente online.

Audioguia do QAP

Aleta Valente

Neste trabalho, a artista problematiza a questão do aborto por meio de um canal aberto à discussão sobre o tema. Sua produção traz à tona muitos dos temas latentes em redes sociais, meios pelos quais Aleta desenvolve parte importante de seu trabalho. Na sala, ela convida ao público, a partir de um banner com o seu número de telefone, a entrar em contato caso desejem falar sobre aborto. A linha, como espécie de S.O.S., funcionará 24 horas.

Daniel Jablonski

“Fwd: Desculpe pela demora” tem como eixo central a correspondência via e-mail, ferramenta fundamental na comunicação contemporânea. Partindo de uma citação de Ricardo Piglia sobre o caráter de “dívida” que toda a correspondência carrega, a proposta do artista é de que o público lhe encaminhe via e-mail todas as conversas “perdidas” ou interrompidas, por qualquer motivo que seja, para que ele as encaminhe, dando alguma continuidade a estas. Tais conversas ficariam expostas na sala através de papéis, indicando o remetente original, o artista e o destinatário.

Raquel Nava (em parceria com Cila MacDowell)

As artistas buscam propor ao público exercícios telepáticos, nos quais duas pessoas deverão estar diretamente envolvidas: uma como emissora, a outra como receptora. São três exercícios diferentes, que se valem de instruções presentes em uma mesa, disposta no espaço expositivo. O objetivo final é experimentar e tentar perceber limites dessa possibilidade de comunicação, comparando imagens recebidas e enviadas pelos participantes.

Henrique Cesar

O trabalho “O informante” trata-se de um website interativo no qual o público pode contribuir enviando documentos, como textos, imagens e vídeos. Essa plataforma é uma espécie de arquivo que contém tanto as referências do artista quanto daqueles que desejam participar. A partir dos documentos, Henrique Cesar formula relações que não são necessariamente lineares ou que possuam sentido explícito.

Renata Cruz

O trabalho de Renata Cruz investiga as dimensões da escuta e da troca, utilizando o desenho como meio. Em uma mesa, a artista deixará papéis e lápis sempre dispostos para que o público possa fazer desenhos a partir do seu convite de observação da cidade. Cruz estará presente em diversos dias da exposição para realizar trocas sobre essas visões do espaço urbano com os visitantes. Ao longo da mostra, será construído um mural contendo os desenhos desse diálogo.

É como danças sobre a arquitetura
15 fevereiro a 23 abril de 2017
A vigília dos surrealistas nos legou a lucidez de que a linguagem é um campo de disputas em que as vantagens estão sempre do lado do poder instituído. Os escritos de Georges Bataille, especialmente, pulsam com a convicção de que a moral, a razão, a linguagem e a arquitetura funcionam todos como prisões para o homem, camisas de força que tornam tangível a estrutura de poder de uma época e excluem o risco de contato com qualquer ruído ou sujeira que possam maculá-la. A cidade, os monumentos, a arquitetura, as casas – todos podem ser lidos como linguagem e, portanto, basta saber lê-los para encontrar mapas bastante precisos de quais as forças dominantes em cada contexto. No caso de São Paulo, por exemplo, tão significativa quanto a idealização heroica do passado local feita pelo Monumento às Bandeiras construído para celebrar o quarto centenário da cidade, é que o mais conhecido dos monumentos paulistanos recentes seja a Ponte Estaiada para automóveis sobre a marginal Tietê, na região de negócios da avenida Berrini. E se nos aproximarmos da escala dos cidadãos desta e de outras grandes metrópoles, quantos não são aqueles que consideram as ruas, as calçadas, os locais de trabalhos e por vezes até suas próprias casas – supostos lugares de identificação e conforto – como uma sequência de espaços de constrangimento, em que a mente procura se manter alheia do desconforto contínuo dos corpos continuamente oprimidos por uma agressividade que nem se sabe bem como nomear? É que a cidade contemporânea perdeu a conexão com o corpo humano, enquanto suas ruas, praças, avenidas e pontes foram reduzidas a meros locais de passagem. Como aponta o historiador Richard Sennett, a vinculação do sujeito com seu entorno tornou-se inexistente,configurando o que ele chama de “liberdade de resistência”. É como se a cidade fosse uma língua que não praticamos mais como linguagem, apenas percebemos como discurso pronto e, quase sempre, árido e áspero. Como as polêmicas recentes têm demonstrado, reivindicar a possibilidade de falar a cidade, disputar sua aparição como linguagem ou introduzir ruído em sua imagem oficial é colocar-se em tensão e risco. Disso sabem muito bem os que fazem manifestações, os que pintam muros, os que escalam paredes, os que fazem da cidade pista, palco ou painel. Como se antecipasse essa situação, existe há muito tempo uma famosa expressão entre músicos norte-americanos que pode ser traduzida assim: “Escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura”. A analogia implica que a escrita estaria tão distante da experiência musical quanto a arquitetura, fazer duradouro, está da efemeridade da dança. É claro que corpo, espaço, dança e arquitetura possuem diversos níveis de relação, mas o dito nos lembra de uma indiferença fundamental, especialmente do lado da construção dos espaços contemporâneos. A inércia do construído quer ignorar asinvenções de espacialidade que não venham do Estado ou dos proprietários dos lotes urbanos. É um pouco quixotesco investir em uma disputa tão desigual; mas há quem insista e continue tentando escrever sobre música e dançar sobre arquitetura, ensaiando insurgências que tiram sua força (tática e poética) da efemeridade. Desde da arte contemporânea, artistas como Jorge Soledar, Lia Chaia e João Castilho catalisam e reinventam modos de fazer emergir nos espaços o movimento (e o enrijecimento) dos corpos. Entre fabulação inventiva e justaposição absurda, coreografia performativa e enfrentamento disjuntivo, as obras aqui reunidas abrem uma gama de possibilidades que relembra que as maneiras dos corpos "falarem" seus espaços vão além das categorias e nichos já formatados para a cultura, a arte e a liberdade de expressão nas cidades atuais.

Lia Chaia

Jorge Soledar

João Castilho

Quadro Desquadro Requadro
14 maio a 29 maio
Faço, desfaço, refaço” – um dos ditos e escritos que a artista Louise Bourgeois eternizou como síntese de uma constante reelaboração de si que, mesmo quando parecia autodestrutiva, era fundamental para a integridade de sua persona e de sua obra. Aqui, apresenta-se uma paráfrase: “Quadro, desquadro, requadro”. Entra em cena o enquadramento – noção central para a definição de processos de representação e percepção em diversa linguagens artísticas – e as possibilidades de disputá-lo, burlar suas regras e reconstituí-lo atravessado por corpos e espaços. Enquadrar não é só definir uma borda geométrica para uma imagem ou espaço, é também delinear uma mediação entre dentro e fora da ação, profundidade e epiderme da poética. Seja na pintura, no teatro, na dança, na fotografia ou no cinema, os enquadramentos mobilizam recursos de linguagem que incluem, mas não se limitam às bordas materiais da moldura, do frame e do proscênio. O quadro é a fronteira da cena, mas é também um indício de que existe um espaço interior à linguagem artística. As experiências modernas e contemporâneas procuraram de toda forma analisar seu funcionamento e alternadamente enfatizá-lo, negá-lo e reformatá-lo. Nesta exposição, contamos com a habilidade das artistas convidadas em assimilar parte da história do enquadramento e, ao mesmo tempo, explorar aparentes contradições ou fissuras em seu funcionamento. Seus caminhos e linguagens são singulares, mas é possível aproximá-las pelas relações com aspectos estruturais do quadro. Ana Mazzei e Renata de Bonis abordam situações limítrofes entre o dentro e o fora da representação na história da pintura ocidental, traduzindo-as em dispositivos espaciais que abarcam o corpo do espectador. Claudia Briza e Marcia Beatriz Granero aproveitam-se da eficiência da linguagem cinematográfica em definir um campo narrativo verossímil para criar curtos-circuitos entre fato e ficção, pessoa e personagem. Já Patrícia Araujo e Manuela Eichner respondem às experiências do espaço urbano, imagético e/ou expositivo como quadros que editam seus corpos, reagindo com intervenções que extrapolam a unidade da imagem enquadrada. A elas, juntam-se as contribuições de Clarice Lima, Dalila Camargo Martins e Carolina Bianchi, abertas ao público e detalhadas no folder da exposição. Seja nas linguagens abordadas em suas oficinas e performances, seja nas obras que ocupam as salas expositivas, a alusão aos quadros não devem necessariamente ser associada a aprisionamentos, afinal, como disse Louise Bourgeois em 2004: “O espaço é algo que você precisa definir. Senão, é como a ansiedade, demasiadamente vago”.

Manuela Eichner

Múltipla, a produção de Manuela Eichner (Arroio do Tigre, 1984) abarca desde videos e performances até oficinas colaborativas, passando pelo desenvolvimento de estampas, peças de design gráfico e ilustrações. Nessas diferentes frentes, recorre sistematicamente a princípios de colagem, ruptura e embaralhamento da unidade espacial, contextual e semântica de imagens de procedências distintas. Ultrapassar as bordas de um suporte e ampliar o seu quadro até que ele coincida com o espaço inteiro é uma estratégia latente nas propostas mais recentes de Eichner.

Os experimentos realizados em seus projetos monstera extrapolam o plano para invadir o espaço com colagens tridimensionais em que as imagens de corpos e objetos emaranhados ganham uma escala imersiva. A presença dessa massa híbrida, estranha e monstruosa em sua convergência de materiais impressos, plantas e objetos, interpela o espectador e suas presunções sobre corpo, espaço e natureza.

Ana Mazzei

O trabalho de Ana Mazzei (São Paulo, 1980) reflete as estruturas que instituem e delimitam o espaço da representação e da encenação. A referência às artes do espetáculo é recorrente, emergindo em vídeos que evocam dispositivos cênicos e em pequenas maquetes de feltro que evocam teatros greco-romanos, por exemplo. Em outras obras, essa reflexão é transposta para o âmbito da pintura, analisando suas estruturas formais, semânticas e simbólicas, desde a perspectiva até o enquadramento. Recentemente, Mazzei se voltou para as atitudes dos corpos que habitam o espaço da representação.

Garabandal, Marat e Ascensão compõem uma série de peças de mobiliário que permitem ao visitante escorar seu corpo de forma a aproximar-se das poses pouco naturais de célebres figuras pintadas por artistas como Jacques-Louis David ou Giotto. Os corpos sustentados pelos dispositivos congelam gestos, transpondo as convenções sociais e simbólicas da história da arte para a atualidade do espaço expositivo.

Renata De Bonis

Em muitos de seus projetos, Renata De Bonis (São Paulo, 1984) evoca lugares que visitou em viagens. Atenta ao que há nos ambientes naturais e remotos, procura restituir ou traduzir algo de sua singular presença em instalações sonoras, desenhos e coleções de objetos. A série Anotações a partir de Caspar David Friedrich é a primeira materialização de uma pesquisa acerca das paisagens sublimes consagradas por esse pintor romântico alemão da primeira metade do século XIX.

De Bonis, que sempre o admirou, viajou à Europa para mapear, localizar e visitar diversos dos cenários em que ele tinha realizado as suas pinturas. Ao invés de focar-se na imensidão atemporal das paisagens, capturou a sonoridade dos ambientes, a parte que existia apenas como imaginação projetada sobre a visualidade enquadrada. As faixas de som gravadas nas locações de Friedrich, então, tornaram-se substrato para esta sinestésica instalação sonora.

Márcia Beatriz Granero

Desde 2010, Márcia Beatriz Granero (São paulo, 1982) desenvolve videos que tecem curtas narrativas protagonizadas por Jaque Jolene, uma personagem fictícia interpretada por ela mesma. Essa figura anacrônica aparece em diversos contextos urbanos e, mais recentemente, tem sido vista em explorações dos espaços expositivos de São Paulo. Depois de repetidas visitas e uma pesquisa sobre o local, a artista elabora um roteiro de ações, sem falas, que assimila a sintaxe do cinema clássico – nos enquadramentos, trilhas sonoras e princípios de montagem; e nos gestos e expressões da encenação. A ficção é o meio que a artista encontrou para colidir elementos da história e do funcionamento das instituições com as obsessões de sua persona. Em Lacuna, é o Instituto Tomie Ohtake que recebe a visita de Jaque Jolene. Na narrativa fragmentária, o espaço sonoro é tão importante quanto as ações encenadas, e a presença imagética do edifício impõe se sobre suas dinâmicas de uso.

Claudia Briza

Nos seus videos e fotografias, Claudia Briza (São Paulo, 1965) atua em cenários incompletos, rearranjos de sobras de cenografias dos bastidores do meio audiovisual. Evidencia assim a artificialidade dos adereços cênicos, figurinos e efeitos de luz e movimento, enquanto descortina e desvia os mecanismos que viabilizam a projeção e a empatia do espectador por personagens e narrativas cinematográficas. Nos vídeos O ovo da serpente e A hora do lobo, a artista entra e sai de quadro, diante de projeções de trechos de clássicos do cineasta Ingmar Bergman, interagindo com os discursos e ações que estão se desenrolando no filme.

Se, em princípio, há uma separação clara entre a projeção e seu corpo, no vídeo, a artista integra um mesmo campo imagético com o filme de que se apropria. Já em A alegria era sempre uma pressa, Briza imita os trejeitos de Carmen Miranda, encarnação aos olhos do mundo do Brasil tropical e alegre – que terminou por sucumbir à força imagética de sua personagem.

Patrícia Araujo

O embate com outros indivíduos e com o seu entorno norteia diversas das intervenções filmadas, fotografadas ou performadas por Patrícia Araujo(Fortaleza, 1987). Em algumas ações, trata-se de um corpo vulnerável e passivo, que pena ao fundir-se com a paisagem. Noutras, tenta competir com o incomensurável ou procura sustentar um equilíbrio frágil quando são muitas as eventualidades que podem o derrubar.

Em Abalo, a artista apresenta uma constelação de registros que desdobram seu projeto Resposta Selvagem, no qual ela fixa lambe-lambes com nomes de acidentes geológicos nas paredes de alguns estabelecimentos de Fortaleza ou São Paulo que estão prestes a ser destruídos. Nesta instalação inédita, o abalo que pode ser comparado às dinâmicas imobiliárias se associa também a ensaios de aguda aproximação e abrupto choque em ações performáticas e em materiais de arquivo.

Da banalidade
3 fevereiro a 6 março 2016
É mais fácil reconhecer algo banal do que definir a banalidade. Nos feudos medievais, uma coisa banal – um moinho, por exemplo – era uma posse do senhor feudal que podia (ou deveria) ser utilizada por qualquer vassalo mediante uma taxa correspondente. O sentido primeiro do banal remete àquilo utilizado por todos, mas possuído apenas por um. Hoje em dia, o banal diz respeito a coisas de uso trivial e pouca originalidade, que podem ser empregadas por qualquer um em situações quaisquer, sem implicações ou consequências excepcionais. O banal passou a ser identificado com o que vale para todos e por isso mesmo não pertence a ninguém. É notável que a banalidade das coisas resulte delas serem "de todo mundo" e, com o tempo, terem se desvinculado da autoria original que um dia possa ter estado associada a elas. É como se o próprio sucesso de difusão de um objeto, expressão ou ideia acabasse lhe rebaixando em alguma hierarquia imaginária de valores de originalidade ou autenticidade. Isso é particularmente intrigante quando pensamos na linguagem, em que os termos precisam ser compartilhados por muitas pessoas para serem eficientes, pois a comunicação acontece com códigos compartilhados na indistinta região do que há "entre nós". Assim, muito embora seja em geral evocada em tom pejorativo, a banalidade interessa especialmente a muitos artistas contemporâneos. A própria possibilidade de objetos banais serem percebidos como arte já foi experimentada e debatida à exaustão e, sem precisar testar novamente essa hipótese, diversos artistas hoje recusam os terrenos dos "grandes" gêneros, assuntos ou técnicas para se dedicar a esmiuçar poéticas e possibilidades que residem no nível da banalidade mesma. Isso pode levar às sinuosas veredas do "gosto" popular, aos princípios mais basais e genéricos da linguagem ou à despretensão das anotações pessoais cotidianas. O que interessa aqui não é demonstrar como os artistas podem fazer algo especial valendo-se de coisas e materiais banais. Ao contrário, é acompanhá-los no manuseio do banal enquanto banal, aproveitando sua suposta falta de especificidade, aura e valor na tentativa de pensar seus significados e sentidos mais desconcertantes. Embora o banal seja lido como vulgar por não ter um dono reconhecível, ele na verdade está muito próximo do que somos e exercemos em nossos balbucios cotidianos. Lidar, de dentro da arte, com a epiderme do banal é uma oportunidade de atentar para o que tece a trama da nossa vida quando não estamos particularmente atentos a ela. Como diz a popular canção de ninar que John Lennon compôs para seu filho: “A vida é o que acontece quando estamos ocupados fazendo outros planos”.

Ana Elisa Egreja

Com princípios realistas, as pinturas de Ana Elisa Egreja seduzem o olhar para ser ludibriado em um jogo ilusório familiar, como na apresentação de um mágico circense. Rara na arte de hoje, sua minuciosa técnica pictórica é comumente associada a momentos históricos da arte até o século XIX ou mesmo ao saber um pouco brega, um pouco nostálgico das aulas de pintura para diletantes, com um gosto comum, banal, quase vulgar no modo como saboreia cores, texturas e luzes. "
Em sua produção recente de obras de pequeno formato (estudos de naturezas mortas contemporâneas), a artista se demonstra consciente do estranhamento que promove, oferecendo a si mesma e ao público oportunidades concentradas de prazer e dúvida. Sem poder resolver o encontro com essas obras por uma separação entre alta e baixa cultura, boa e má pintura,arte e espetáculo, o espectador se vê desarmado diante de bromélias exuberantes, toalhas estampadas, cerâmicas populares, caveiras anacrônicas, berinjelas inesperadas, flores delicadas – todas representadas como sugestões cromáticas deformadas pelas retículas dos vidros “fantasia”, como são nomeados pela indústria esses baratos materiais."

Cabelo

Sem pedestal, sem materiais nobres, sem resguardo em virtuosas intenções ou na solenidade intelectual, Cabelo experimenta a arte como dinâmica rasteira, junto ao prosaico e ao espontâneo. Com uma obra que pode tanto evocar formas rituais secularizadas e delirantes, quanto se filiar à poesia marginal de vivência poética do cotidiano, o artista por vezes se define como sismógrafo de seu tempo, um instrumento de captura de fragmentos de ideias, sons e sentenças a seu redor, organizando-os em pequenas notas. Entre vídeos, stills, tecidos e serigrafias, o motor desta sala é o desenho, parcela mais delicada de sua obra, que articula a percepção do entorno com as divagações e associações livres do pensamento.

Quando desenha com pincel e nanquim, converge caligrafia, anotação, rabisco e movimento; nascem daí figuras que têm algo de ideograma, caligrama, hieróglifo e marca rupestre. Ampliados e multiplicados pela serigrafia em cores vibrantes sobre tecidos igualmente coloridos, os desenhos fazem, da parede ou da caverna, partituras de ritmos de repetição e movimento. No vídeo, o processo é inverso: a câmera desliza sobre a superfície de objetos quaisquer que refletem vestígios de luzes eletrônicas; imagens e traços aparecem como se a câmera estivesse em transe e fosse veículo para a emergência do desenho.

Julia Kater

É possível aprender muito sobre o funcionamento da linguagem observando como ela falha – seja porque está ainda imatura ou porque tornou-se disfuncional. É o que faz a produção recente de Julia Kater, que além de artista atua como pedagoga. Desenhos livres sobre temas impostos apresenta fragmentos de uma coleção de nuvens, árvores, sóis e casas desenhados por crianças em idade de alfabetização. Aprender a ler e a escrever não implica apenas em incrementar os processos cognitivos e as habilidades motoras. A coleção editada pela artista evidencia, em um sagaz encadeamento visual, o caráter esquemático do “desenho alfabetizado” que se forma quando as crianças, compelidas a significar algo, repetem formas esquemáticas pré-fabricadas.

Em Breu, as imagens gravadas apresentam, em uma montagem não-linear, o processo semi-artesanal de asfaltamento de um retângulo desenhado arbitrariamente no meio de um gramado baldio. O som traz um texto circular que abunda em adjuntos adverbiais de modo (certo e errado, principalmente), sem definir nenhum objeto claro. Inspirado pelo discurso de uma paciente fixada na narrativa de uma história de retidão e desalinho de alguma coisa que não podia enunciar diretamente, o texto constrói o discurso em um ciclo sem fim, sobre o qual não se aplicam as ideias de progressão e evolução.

Créditos: história

Núcleo de Pesquisa e Curadoria Carolina Mologni, Luise Malmaceda, Paulo Miyada, Priscyla Gomes e Theo Monteiro

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.
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