Entre o tangível e o intangível

Introdução
“SIGNVM”. Palavra latina empregue entre os séculos VI e VII com o duplo significado de símbolo ou sinal e que passou a designar “sino” em algumas línguas novilatinas, como o português. O sino é parte integrante da paisagem cultural e sonora do mundo ocidental. Apesar de se tratar de um bem material, a presente exposição apresenta-o sob uma perspetiva intangível. De facto, a Convenção do Património Cultural e Imaterial (Paris, 2003) contempla já esta interdependência entre o material e o imaterial. Nesse sentido, a exposição pretende criar registo dos valores intangíveis da tradição sineira em Portugal através de uma visita guiada pelas técnicas de fundição de sinos, muitas vezes passadas de geração em geração, e pelo toque manual, aqui memorado. Não se descura o carácter sagrado e apotropaico que o sino adquiriu na mentalidade popular enquanto regulador de costumes e do imaginário.

O sino é parte integrante da paisagem cultural e sonora do mundo ocidental.

Exposição com o duplo sentido de apresentar a intangibilidade do “sino” e ser um “sinal” de atenção para a preservação dos seus valores.

A arte do saber fazer
A “arte de fundição” dos sinos é uma prática ancestral. No território português, e sobretudo no norte, apesar dos escassos vestígios arqueológicos, existem exemplares  datados do século X. Por volta do século VIII, com as mudanças nos modos de execução e nos materiais de conceção, desenvolvem-se dois modelos fundamentais: o tipo taça (pouco profundo e sem badalo, percutido pelo lado de fora); e o tipo profundo (formato cónico ou em colmeia, com badalo no seu interior). Estes sinos podiam ser modelados segundo três técnicas: a modelação horizontal com falso sino em cera, praticada sobretudo no período medieval; a modelação horizontal com falso sino em barro, que facilitava o fabrico dos sinos de maior dimensão; e a modelação vertical com sino em barro, usada em Portugal a partir do século XIV. Esta atividade milenar industrializou-se, levando a que se perdesse o seu cunho artesanal. A limitação do mercado interno e a mudança de mentalidades verificada após o fim do Estado Novo (1933-1974), em Portugal, levaram à quebra de uma produção regular e à extinção de muitas oficinas de fundição. Por conseguinte, assistimos à perda de um ambiente etnográfico existente em torno dos sinos.

Após uma longa tradição de saber fazer desde o 3º milénio a.C., o sino aparece na Europa a partir de 100 a.C.

O relato de virtudes profiláticas do som do bronze é conhecido desde Plínio (século I) e Ovídio (séculos I a. C. e I d. C.)

Sino tangendo

O sino era batizado e recebia um padrinho cujo nome pode ser indicado no sino. As características da sonoridade são definidas pela composição da liga metálica.

Santa Bárbara é a padroeira dos ofícios ligados à metalurgia e frequentemente invocada em sinos como fórmula esconjuratória da trovoada.

Cada sino tem uma nota musical característica determinada pela quantidade de metal, pela forma e dimensão do sino e espessura do bojo.

Os motivos decorativos dos sinos são obtidos através de caracteres móveis em cera reproduzidos em carimbos de madeira e aplicados à face externa do falso sino.

Motivos religiosos e de caráter apotropaico constituem uma presença recorrente nos sinos.

A partir do século XVII, o ano de fundição consta normalmente nos sinos, juntamente com o nome do fundidor.

O toque manual e a sua automatização
O toque manual tem perdido expressão devido à progressiva mecanização dos sinos a partir dos anos de 1980, e consequente desaparecimento de grande parte dos sineiros. Assim, é um património intangível frágil, cujas técnicas e práticas encontram-se em vias de desaparecimento.Outrora o sino foi o principal regulador da vida da comunidade. Reconheciam-se, pelo som, três fases do dia: ao amanhecer, o toque das ‘Avé-Marias’; ao meio dia, o ‘Angelus’; e ao anoitecer, as ‘Trindades’. Identificam-se ainda outros toques para recordar os atos litúrgicos, tais como as missas, terços, procissões, casamentos, funerais e toques de defuntos. Assim, os toques despertavam emoções individuais e coletivas. O toque era expressão da posição social do indivíduo. Nesse sentido, consoante o montante pago ao sineiro, variava o número de badaladas num nascimento, casamento ou falecimento.Existem ainda toques funcionais, como convocatórias para acontecimentos civis ou avisos da ocorrência de incêndios, naufrágios, batidas de lobos, perseguições a ladrões e outras ameaças à comunidade. Os restantes toques, que animavam a paisagem sonora em distintas ocasiões, estão praticamente esquecidos, permanecendo na memória dos mais idosos.

Manter viva a tradição do toque manual é valorizar o impacto que os sinos tiveram, historicamente, na paisagem rural, sonora e etnográfica.

Pelo seu carácter regulador, os toques proporcionaram um sentimento de pertença das comunidades ao lugar.

As badaladas diferenciavam o sexo de uma criança, ao assinalarem um nascimento ou de um batismo.

O sino podia ser tocado de forma estática ou em movimento, consoante os gestos do sineiro e o tipo de execução sonora pretendida.

Por quem os sinos dobram
A ligação do sino às lendas e literatura é uma constante por todo Portugal. O sino ora aparece como auxiliar de um bom parto, ora se encontra sepultado em lagos ou rios, tocando pelas entranhas da terra, denunciando as «mouras encantadas».É também de destacar o poder esconjuratório dos sinos, contra as entidades maléficas, como bruxas, almas penadas e demónios. Segundo a crença popular, no dobrar dos finados, quanto mais o sino tocava para mais longe o Diabo fugia. Acreditava-se também que o som do sino podia curar doenças da ‘cabeça’ e de audição, sendo comum o padrinho tocar o sino para que o afilhado não ficasse surdo.  Os sinos aparecem como motivo de orgulho, tornando-se objeto de inveja. Nesse sentido, o seu roubo ou tentativa de destruição é um atentado à honra e integridade da comunidade. A documentação do norte de Portugal e Galiza demonstra a utilização de “sub-sino” como sinónimo de freguesia. Historicamente há, de facto, uma noção de património e legado a transmitir. A preservação do cunho artesanal nas técnicas tradicionais de fundição e no toque manual impõe-se. Cabe à época do sino industrializado valorizar a carga imaterial deste objeto para que os seus significados jamais se percam.

A maioria dos sinos possuía elementos decorativos, como bandas rendilhadas.

Também figuras religiosas como Deus Pai, Jesus Cristo, Nossa Senhora, e santos padroeiros eram frequentes.

A regra beneditina e a expansão do fenómeno monástico foram fundamentais no processo de afirmação do sino na Europa, tornando-se um elemento caracterizador do mundo cristão, da paisagem e do ambiente sonoro europeu.

No plano da memória coletiva, o sino foi importante enquanto voz da comunidade e signo da sua identidade.

O toque dos sinos assumiu um papel importante na cultura portuguesa.

Os toques a rebate avisam ameaças à comunidade. Também anunciam batizados, casamentos e mortes.

Os sinos e as respetivas torres sineiras são elementos caracterizadores do ambiente sonoro e da paisagem portuguesa.

Ancestral comunicador de boas e más notícias, o sino é um objeto que ultrapassa a sua materialidade, convertendo-se num sinal de pertença de um lugar e de uma comunidade.

Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Créditos: história

FICHA TÉCNICA

COORDENAÇÃO:
Lúcia Rosas (FLUP), Maria Leonor Botelho (FLUP) e Hugo Barreira (FLUP)

COMISSÃO CIENTÍFICA:
Ana Cristina Correia de Sousa (FLUP), Lúcia Maria Cardoso Rosas (FLUP), Maria Leonor Botelho (FLUP) e Hugo Barreira (FLUP)

CURADORIA:
Lúcia Maria Cardoso Rosas (FLUP), Maria Leonor Botelho (FLUP), Hugo Barreira (FLUP)

PRODUÇÃO:
Maria Leonor Botelho (FLUP), Hugo Barreira (FLUP)

EQUIPA TÉCNICA:
Ana Patrícia Gonçalves, Andréa Diogo, Joana Duarte, Marisa Santos

AUTORES:
Ana Patrícia Gonçalves, Andréa Diogo, Joana Duarte, Marisa Santos

TRADUÇÃO:
UNAPS | LETRAS

APOIOS:
UNIVERSIDADE DO PORTO | FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO | DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS E TÉCNICAS DO PATRIMÓNIO/ FLUP

CRÉDITOS DAS IMAGENS:
Ana Patrícia Gonçalves, Andréa Diogo, Joana Duarte, Marisa Santos

PUBLICAÇÃO DAS IMAGENS AUTORIZADA POR:
Direcção Regional da Cultura do Norte (DRCN)
Fundição de Sinos de Braga - Serafim Da Silva Jerónimo & Filhos, Lda.
Paróquia da Nossa Senhora da Conceição (Porto)

BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL:
ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de – Carácter mágico do toque das campainhas: apotropaicidade do som. Revista de Etnografia. Volume VI, Tomo 2 (1966). Porto: Museu de Etnografia e História, [s.d].
AUGUSTO, Carlos Alberto - Sons e silêncios da paisagem sonora. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.
BELLINO, Albano – Archeologia Christã. Lisboa: Empreza da Historia de Portugal, 1900.
BRAGA, Alberto Vieira – As Vozes dos Sinos na Interpretação Popular e a Indústria Sineira em Guimarães. Porto: Imprensa Portuguesa, 1936.
CORREIA, Mário – Toques de sinos na terra de Miranda. Sendim: Centro de música tradicional Sons da Terra, 2005.
RESENDE, Nuno (Coord.) – O Compasso da Terra. A arte enquanto caminho para Deus. Volume I: Lamego. Lamego: Diocese de Lamego, 2006.
SEBASTIAN, Luís – História da Fundição Sineira em Portugal. Coruche: Câmara Municipal de Coruche, 2008.

Créditos: todos os meios
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes, podendo nem sempre refletir as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.
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