1940 - 1960

Fotógrafas pioneiras em São Paulo

Instituto Moreira Salles

Hildegard Rosenthal, Alice Brill e Madalena Schwartz no acervo do Instituto Moreira Salles (IMS).

A crise europeia do final dos anos 1930 leva a uma emigração intensa de profissionais, intelectuais e artistas europeus para as Américas já antes da Segunda Grande Guerra, sendo no Brasil as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro os principais destinos destes imigrantes de países do leste europeu e de outras nacionalidades, em grande parte de origem judia, que aqui se estabeleceram e atuaram em diversas áreas da indústria, das comunicações e das artes visuais, contribuindo decisivamente para a modernização destes setores na segunda metade da década de 1940.

As décadas de 1940 a 1960 em São Paulo representam, portanto, um momento único de convergência de diversos vetores que levaram a um ciclo intenso de industrialização e desenvolvimento cultural da cidade no pós-guerra, que se refletirá diretamente nas comunicações e nas artes visuais do país. Na fotografia, especificamente, três fotógrafas que imigraram para o Brasil neste período contribuíram significativamente para o desenvolvimento desta linguagem no país.

Considerada uma das pioneiras do foto-jornalismo brasileiro, Hildegard Rosenthal (1913-1990) registrou paisagens e cenas urbanas de São Paulo, tipos humanos e retratos de personalidades do meio cultural e artístico de sua época.Vive até a adolescência em Frankfurt, na Alemanha, onde estuda pedagogia de 1929 a 1933. Mora em Paris entre 1934 e 1935. De volta a Frankfurt, estuda fotografia com Paul Wolff (1887-1951) – um especialista em câmeras de pequeno formato – e técnicas de laboratório no Instituto Gaedel. Em consequência do regime nazista, transfere-se para São Paulo, em 1937. Nesse ano, começa a trabalhar como orientadora de laboratório na empresa de materiais e serviços fotográficos Kosmos.

Poucos meses depois, é contratada como fotojornalista pela agência Press Information e realiza reportagens para periódicos nacionais e internacionais. Nesse período, documenta São Paulo, Rio de Janeiro, o interior paulista e cidades do sul do Brasil. Suas fotos permanecem pouco conhecidas até 1974, quando o historiador da arte Walter Zanini realiza uma retrospectiva de sua obra no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC-USP. Em 1996, o Instituto Moreira Salles (IMS) adquire mais de três mil negativos de sua autoria.

Madalena Schwartz (1921-1993), nascida na Hungria, imigra para a Argentina em 1934, onde reside até a décadade 1960, quando fixa residência no Brasil. Começa a estudar fotografia no Foto Cine Clube Bandeirante em 1966. Na década de 1970, publica fotografias nas revistas Iris, Planeta, Claudia e Status, entre outras. Faz sua primeira exposição individual no Masp (Museu de Arte de São Paulo), em 1974.

Entre 1979 e 1991, trabalha para a Rede Globo de Televisão e colabora com a Editora Abril. Em 1983, recebe o prêmio de melhor fotógrafo da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA.Algumas de suas fotos mais conhecidas são retratos de artistas plásticos, músicos e intelectuais brasileiros, como os de Manabu Mabe, Bibi Ferreira, Paulo Autran, Mario Schemberg e Pietro Maria Bardi. Também tem ensaios sobre o teatro underground, com destaque para série de fotos de travestis e transformistas, publicada no livro Crisálidas em 2012 pelo Instituto Moreira Salles (IMS). A obra da fotógrafa húngara, com mais de 16 mil imagens, preservada pelo IMS, compõe-se de retratos de paulistanos das décadas de 1970 e 1980, além de rostos anônimos registrados em viagens pelo Norte e Nordeste do Brasil.

Filha de um artista plástico morto em um campo de concentração, Alice Brill (1920-2013) nasceu em Colônia, Alemanha, e migrou para o Brasil em 1934 com sua mãe, para escapar do nazismo. Decidida a abraçar o ofício paterno, já em 1940 passou a frequentar o Grupo Santa Helena, associação informal de pintores que frequentavam ateliês no Edifício da Sé, em São Paulo, conhecido como “Palacete Santa Helena”. Seus mestres foram Paulo Rossi Ozir, Aldo Bonadei, Yolanda Mohaly, Poty e Hansen Bahia, que a influenciam a trabalhar com pintura a óleo. 

Em 1946, ganha uma bolsa de estudos e até 1947 faz uma série de cursos na University of New Mexico, em Albuquerque, e na Art Student’s League de Nova York, ambas nos Estados Unidos. Estuda desenho, pintura, escultura, gravura, história da arte, literatura, filosofia e tem seu primeiro contato com a fotografia.

Já de volta ao Brasil, começa a trabalhar como fotógrafa da revista Habitat, para a qual realiza reportagens sobre arquitetura e artes plásticas.Sua longa carreira resultou em mais de cem exposições individuais e coletivas, entre elas a I Bienal de São Paulo, em 1951. Foi fundadora do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), do Clube dos Artistas e Amigos da Arte de São Paulo e da Associação Brasileira de Pesquisadores em Arte. Em 1975 se formou em Filosofia pela PUC-SP e posteriormente fez mestrado e doutorado em Estética na USP. 

Publicou três livros: Mário Zanini e seu tempo (Ed. Perspectiva, 1984), Da arte e da linguagem (Ed. Perspectiva, 1988) e Flexor (1990), além do capítulo sobre artes plásticas do livro O expressionismo (org. Jacó Guinsburg, Ed. Perspectiva, 2002).

Em 2005, foi realizada a retrospectiva O mundo de Alice Brill, com parte de sua produção fotográfica, já então pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles (IMS). A coleção com imagens da fotógrafa alemã é composta por cerca de 14 mil negativos do período mais intenso de sua produção, 1948 a 1960. 

São retratos espontâneos de famílias e de personalidades com quem conviveu ao exercer a pintura, sua outra atividade artística; fotos documentais dos índios do Xingu, que realizou durante a Expedição Roncador-Xingu; fotos dos índios Carajás no Mato Grosso e fotos do trabalho desenvolvido com os internos do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em São Paulo. Produziu ainda importante registro da capital paulistana, por ocasião de seu quarto centenário, e de Ouro Preto e Salvador, entre outros.

A atividade destas três fotógrafas no circuito de artes paulistano nas décadas de 1940 a 1960 ocorre no mesmo período em que cresce a importância do Foto Cine Clube Bandeirante, organização de amadores e profissionais da fotografia que reflete a esfuziante e criativa atmosfera artística e cultural do pós-guerra na capital paulistana. Ingressam neste período no Foto Cine Clube Bandeirante Thomaz Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca e Chico Albuquerque, que terão atuação destacada na década de 1945 a 1955. Os trabalhos destes fotógrafos constituem a vertente formadora da fotografia moderna brasileira, realizando trabalhos de forte viés formal e abstrato, baseados em construções de luz e sombra a partir da paisagem, arquitetura, objetos ou naturezas mortas, além dos retratos. Hildegard, Alice e Madalena convivem e contribuem diretamente com este momento de renovação das artes e da fotografia no país.

Nas décadas de 1960 e 1970, uma nova geração de fotógrafas virá se somar ao cenário da fotografia paulistana e brasileira, através dos trabalhos de Maureen Bisilliat (http://www.google.com/culturalinstitute/exhibit/maureen-bisilliat/gRj-tw8Q?hl=pt-BR), Cláudia Andujar e Nair Benedicto, entre outros nomes de mulheres que contribuirão para a fotografia moderna e contemporânea no país, construindo um legado tanto para o fotojornalismo brasileiro como para a geração de fotógrafos e artistas visuais que desenvolveria no Brasil, a partir dos anos 1980 e 1990, a fotografia como linguagem autônoma e plenamente integrada ao circuito das artes.

Créditos: história

Curator — Sergio Burgi
Curator — Joanna Balabram

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