Arquitetura e construção

MAM Rio

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro é uma instituição que, ao longo de sua história, sempre esteve atenta ao seu papel e ao seu desempenho frente à sociedade para o qual foi criado. Como instituição carioca por excelência, o MAM Rio nuca se furtou em participar não só dos principais momentos da história da arte brasileira, como também da história da nossa cidade.

Para além desse espaço de criação e reflexão sobre a arte e a cidade, o MAM Rio também faz parte de uma história mais ampla que a própria instituição. Com sua sede localizada em um dos edifícios mais representativos da moderna arquitetura brasileira, à beira de um dos maiores cartões-postais do mundo, nosso museu consegue como poucos articular em seu dia a dia as belezas da arte e da natureza. Desde a origem de seu projeto, o arquiteto Affonso Eduardo Reidy se preocupou em legar para a cidade uma instituição cuja sede é até hoje, por si só, um monumento ao ideário moderno de um Brasil em permanente transformação. Com sua arquitetura ao mesmo tempo brasileira e universal, Reidy conseguiu transformar o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em um museu não só do Rio, mas também de todos os seus visitantes. Sua construção, com mais de 50 anos de história, é um marco para arquitetos e turistas de todas as partes do mundo.

Fazer uma exposição sobre a construção deste museu, que tenha ao mesmo tempo um apelo visual e de pesquisa, é a melhor maneira do MAM Rio retribuir todos aqueles que, ao longo de sua história, admiraram de alguma forma suas edificações e sua vista. Com essa exposição, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro oferece ao público um pedaço fundamental da história da arquitetura nacional e de sua memória.

(Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand | Presidente | Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro)

Se a correspondência entre a obra arquitetural e o ambiente físico que a envolve é sempre uma questão da maior importância, no caso do edifício do Museu de Arte Moderna, essa condição adquire ainda maior vulto, dada a situação privilegiada do local em que está sendo construído, em pleno coração da cidade, no meio de uma extensa área que, num futuro próximo será um belo parque público, debruçado sobre o mar, frente à entrada da barra e rodeada pela mais bela paisagem do mundo. Foi preocupação constante do arquiteto evitar, tanto quanto possível, que o edifício viesse a constituir um elemento perturbador na paisagem, entrando em conflito com a natureza. Daí o partido adotado, com o predomínio da horizontal em contraposição ao movimentado perfil das montanhas e o emprego de uma estrutura extremamente vazada e transparente, que permitirá manter a continuidade dos jardins até o mar, através do próprio edifício, o qual deixará livre uma parte apreciável do pavimento térreo. Em lugar de confinar as obras de arte entre quatro paredes, num absoluto isolamento do mundo exterior, foi adotada uma solução aberta, em que a natureza circundante participasse do espetáculo oferecido ao visitante do Museu.

Nos últimos 40 anos transformou-se muito o antigo conceito de museu, que deixou de ser um organismo passivo para assumir uma importante função educativa e um alto significado social, tornando acessível ao público o conhecimento e a compreensão das mais marcantes manifestações da criação artística universal e proporcionando um treinamento adequado a um contingente de artistas que, perfeitamente integrados no espírito de sua época, poderão influir decisivamente na melhoria dos padrões de qualidade da produção industrial.

Mas, não foi apenas o antigo conceito de museu que se transformou: a própria noção de espaço arquitetural modificou-se. O desenvolvimento das novas técnicas de construção deu lugar à “estrutura independente” e, como conseqüência, ao “plano livre”, isto é, a função, portanto, passou a ser exercida exclusivamente pelas colunas; as paredes, liberadas da sua antiga responsabilidade estrutural, passaram a desempenhar, então, com uma liberdade nunca antes imaginada, o papel de simples elementos de vedação: placas leves, de diferentes materiais, livremente dispostas, oferecendo as mais amplas possibilidades na ordenação dos espaços. Surge assim um novo conceito do espaço arquitetural, o “espaço fluente”, canalizado, que vem substituir a antiga noção do “espaço confinado” dentro dos limites de um compartimento cúbico.

A ação eminentemente dinâmica do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, abrangendo todas as manifestações das artes visíveis dos nossos dias, requer uma estrutura arquitetural que lhe proporcione o máximo de flexibilidade na utilização dos espaços, possibilitando seja o uso de grandes áreas, seja a formação de pequenas salas, onde determinadas obras possam ser contempladas em ambiente íntimo. A galeria de exposição do MAM do Rio de Janeiro foi projetada com esse objetivo: ocupa uma área de 130 metros de extensão por 26 metros de largura, inteiramente livre de colunas, de modo a oferecer absoluta liberdade na arrumação das exposições. Essa área terá pé-direito variável: parte com 8 metros, parte com 6,40 metros e, o restante, com 3,60 metros de altura.

A iluminação natural confere um sentido de vida e de movimento aos espaços, beneficiando as obras expostas da variedade de sensações que a luz diurna proporciona. Quando zenital, a luz é difusa e uniforme; não há sombras, não há relevo, o ambiente torna-se neutro, inexpressivo. Quando lateral, dá direção ao espaço e relevo aos objetos, proporcionando ainda ao visitante a possibilidade de contato visual com o exterior. Todavia, um sistema rígido e exclusivo limitaria a liberdade de mostrar, sob as melhores condições, obras que, eventualmente, possam vir a ser mais valorizadas com iluminação zenital ou mesmo artificial. A galeria de exposições do MAM, nos trechos de menor pé-direito, terá iluminação lateral e nos trechos de pé-direito duplo, iluminação zenital, através de shedes e lanternins.

O fato de a luz natural, de um modo geral, apresentar vantagens sobre a luz artificial, na apresentação das obras, não diminui a importância do que esta última representa para o Museu de hoje. A iluminação artificial é evidentemente indispensável, não só para a noite, como para a exibição de objetos que possam ser prejudicados pela luz solar, como desenhos, tecidos, etc. A qualidade da luz a ser empregada é um outro ponto de importância num museu de arte. A luz incandescene é rica em raios vermelhos e alaranjados que modificam o aspecto de certas cores. A luz fluorescente, por seu lado, provoca a sensação de frieza e altera igualmente o aspecto das cores. A combinação de ambas, porém, permitirá uma grande aproximação ao efeito da luz solar. Para o MAM foi projetado um sistema muito flexível: o teto da galeria da exposição será guarnecido com placas translúcidas de um plástico vinil, as quais difundirão a luz emitida por tubos fluorescentes, proporcionando uma iluminação suave ao ambiente. A superfície luminosa assim constituída será interrompida de dois em dois metros por rasgos transversais, onde será fixados refletores de luz incandescente, equipados com lentes apropriadas, os quais serão dirigidos exatamente para os pontos em ]que se fizer necessária a iluminação, sem produzirem reflexos ou ofuscamento ao visitante. Todo o segundo pavimento do corpo central do edifício será destinado a exposições, bem como uma parte do terceiro pavimento, onde ficarão situados, ainda, um auditório com 200 lugares, com equipamentos para exibições cinematográficas, filmoteca, biblioteca, os serviços de administração e direção do museu, e o depósito para a guarda das telas não expostas. Esse depósito, onde as obras deverão ser conservadas em perfeita segurança. Terá condições constantes de temperatura e umidade, ficando completamente isolado das variações atmosféricas do exterior. As telas serão fixadas em trainéis leves, de correr, ligeiramente afastados um dos outros, permitindo dessa forma, reunir em um espaço reduzido um grande número de telas e assegurando-lhes perfeitas condições de ventilação e facilidade para o exame dos interessados.

Ocupando uma parte do pavimento térreo e o subsolo do corpo mais baixo do edifício, ficarão os serviços e instalações auxiliares do museu compreendendo a entrada de serviço, os locais para desembalagem e a identificação e o registro das obras, a expedição, os depósitos, as oficinas e os laboratórios, a sala de gravura, e um grande salão onde serão preparadas as exposições. Ainda no pavimento térreo do mesmo corpo funcionará a Escola Técnica de Criação. Suas instalações compreendem, além dos locais destinados aos serviços administrativos, salas de aulas ateliês diversos, laboratório fotográfico, tipografia, clicheria, encadernação, cantina para estudantes, etc. No segundo pavimento desse corpo, ficarão o restaurante e o terraço-jardim, que se comunicam com a galeria de exposições.

Nas extremidade leste do conjunto ficará situado o Teatro com mil lugares. O palco terá uma largura disponível d 50 metros, 20 metros de profundidade, e 20 metros de altura livre até o urdimento. A construção cênica baseia-se num sistema de carros movimentados eletricamente, que se deslocaram para os espaços laterais e do fundo do palco. A boca de cena terá 7,50 metros de altura e 12 metros de largura, podendo chegar a 16 metros em caso de abertura total para a realização de concertos sinfônicos.

Créditos: história

"Memorial descritivo" (Affonso Eduardo Reidy, Arquiteto, 1953).
MAM Rio, 2016.

Créditos: todas as mídias
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