Gonzaga Duque: um crítico no museu  

Museu Nacional de Belas Artes

Gonzaga Duque: um crítico no museu 
Durante muitos anos no Brasil, a crítica de arte era realizada em artigos publicados na imprensa. Raros eram os livros de arte produzidos no nosso país no final do século XIX e início do século XX, abordando uma análise crítica a respeito da arte e dos artistas que aqui trabalhavam. Um dos principais intelectuais desse período, que praticava a crítica de arte como profissão, sistematicamente, foi o carioca Luiz Gonzaga Duque Estrada [1863-1911]. Intuitivo, além de bem informado sobre correntes artísticas da época, é dele o retrato mais fiel que possuímos desse período de formação de nossas artes visuais.  Na esteira da reedição de seus trabalhos, publicados quando ainda era vivo, póstumos ou reunidos recentemente em livro, tendo como base textos esquecidos em publicações há muito desaparecidas, concebemos esta exposição que reúne pinturas, esculturas e desenho de artistas brasileiros e estrangeiros pertencentes ao acervo do museu, ao lado de comentários que tais obras inspiraram a Gonzaga Duque.

Partida de Jacob, Rodolfo Amoedo
É a partida de Jacob duma tocante simplicidade que nos penetra a alma e nos relembra aquela dulcíssima passagem bíblica do eleito do Senhor.

Os seus recursos de arte constroem a cena por uma maneira inédita. Mostra-nos Jacob na sua humilde condição de pastor, à porta da choupana,

recebendo o ósculo da mãe cuidadosa.

É ao descer da noite. O orvalho cai, e num lindo céu de opalas diluídas o crescente brilha

O braço materno distende-se para a frente a abençoar o filho.

Foram abertos os apriscos e o rebanho se recolhe ao grito costumeiro do zagal. Há como uma bendição em tudo – o exprimir intraduzível das coisas que auguram a glória desse dia eterno.

Más Notícias, Rodolfo Amoedo
Atestado das excepcionais qualidades do mestre, do seu vigor de pintar, da firmeza magistral de seu desenho, da limpeza de suas tintas e do poder expressivista de sua arte

porque essa bela mulher, senhora de lindas vestes e mais lindos olhos, umedecidos de lágrimas, diabolicamente negros, é um flagrante d’alma feminina, um instantâneo maravilhoso do tormento de um coração

que a carta, amarrotada nas suas lindas garras de airosa dama senão de deusa contrariada, acaba de sangrar.

Arrufos, Belmiro de Almeida

Os assuntos históricos tem sido o maior interesse de nossos pintores que, empreendendo-os, não se ocupam coma época nem com os costumes que deve formar os caracteres aproveitáveis na composição dessas telas. Belmiro é o primeiro, pois a romper com os precedentes, é inovador, é o que, compreendo por uma maneira clara a arte de seu tempo, interpreta um assunto novo. Vai nisto uma questão séria – menos de uma predileção do que a de uma verdadeira transformação estética.

O pintor, desprezando os assuntos históricos para se ocupar de um assunto doméstico,

prova exuberantemente que compreende o desidratum das sociedades modernas e conhece que a preocupação dos filósofos de hoje é a humanidade representada por essa única força inacessível aos golpes iconoclastas do ridículo, a mais firme, a mais elevada, a mais adorável das instituições – a família.

Frutas, Estevão Silva

Quase se lhe não encontram atenuações, meias tintas, doçuras e esbatimentos;

reparem-se os frutos que vivem na tela, ao contato criador de seus pinceis – cor segura, mas quase simples, sobretudo de um eclatante efeito de ruborejamentos intensos de cajus e amarelidões vibrantes de mangas, sem combinação de gama. Deverá ser assim sua alma, deverá ter essas visões ásperas, barulhentas de colorido selvagem, a sua fantasia [...]

O colorido quente, intenso, gritalhão de seus frutos reunidos à escuridão das sombras, dá aos quadros, mesmo aos menores, um aspecto de rudeza que domina e destrói a macieza aveludada, a delicadeza voluptuosa com que tratava alguns espécimes da natureza frutífera dos trópicos [...]

Vista de Roma, Agostinho da Motta

Tirada do natura, é a obra de inestimável valor pela precisão do toque, pela poética combinação da cor.

No primeiro plano, à margem de um córrego, duas figurinhas italianas, bem posadas, contemplam o vasto cenário de Roma, ao descansar do sol.

A antiga cidade dos césares, aquela robusta Roma dos tempos heróicos, tão vista, tão historiada e tão prostituída, repousa ao fundo, envolta em um manto azulado de névoas, sob um céu alaranjado, porém longo e melancólico.

O esboroado anfiteatro

o zimbório de S. Pedro, as agulhas das torres, dominam a vastíssima e sinuosa planície de telhados, lá de longe, levantadas para o céu, esfumados pela dúbia claridade do crepúsculo, parecem procurar nos espaço, a potentíssima história do seu passado.

Figueira Brava, Facchinetti

Pela favorável aceitação obtida Nicolau Facchinetti dedicou-se com amo á arte, que a necessidade e as tendências lhe fizeram escolher. A pouco e pouco foi-se aproximando da natureza, dando aos seus trabalhos o mérito de fidelidade, quase o valor de duma estampa botânica. Mas, em compensação, melhorava a tonalidade, entrava , como se diz na gíria de ateliê, na cor dos nossos pores-de-sol, dos nossos verdes...

Oréadas, Eliseu Visconti

Interpretando assunto de tão remota criação, o artista procurou dar-lhe o tom característico, fazê-lo em uma suave reconstrução dos sentimentos clássicos com os recursos da técnica contemporânea. Aliou à maneira antiga o expressivismo ingênuo do motivo, que ali sentimos se nos comunicar, com a temulência de um perfume exalado pela gracilidade dificilmente igualável, de suas corretas figuras.

Gioventú, Eliseu Visconti

Olhe-se, pois para essa Gioventú, distinguida com a Dança das Oréadas com a ambicionada medalha de prata da Exposição Universal de 1900. A casta beleza que observamos na Dança, frisantemente na citada figurinha loura, a que a ortodoxia moralista não deformou com a insexualização de irrisório decoro, aquela casta beleza impressionante que nos deixa as pupilas umedecidas de ternura, transunda mais comovedora nesse adorável pré-rafaelismo que nos fixa, abstrata e tímida, como aturdida do esplendor da vida ardendo no seu franzino busto de menina a se fazer moça.

Bacantes em festa, Rodolfo Chambelland

É um ar livre em que há muito talento e não pequena soma de artifício, mas artifício perdoável diante da imensa dificuldade em que um artista se encontra, em nossa terra, para obter modelos que satisfaçam a uma composição variada como é essa.

Em verdade, tais assuntos, quando não se recomendam pela beleza dos nús ou eminente originalidade da composição, descambam rapidamente para o ridículo. Isto posto, compreende-se o quanto trabalhoso se tornou ao moço artista a feitura do seu novo quadro, e daí toda a desculpa para o artifício empregado ao título de recurso, o que é flagrante logo na visível transformação do modelo feminino em vários tipos,

e modelo a que falta, em absoluto, a elegância e flexibilidade.[...]

O mesmo artifício está repetido na teoria de bacantes desdobradas ao longo do campo, em que a impossibilidade do nu ao ar livre obrigou o artista não só a falsear os valores de cor, como a confundir em massa uniforme os corpos a distância.
No entanto, a sua composição merece francos elogios pelo distendimento gracioso da linha serpentina

e pelo excelente efeito de contrate da sombra ao primeiro plano com a larga claridade dos planos secundários. As figurinhas, tocadas de cor, são bem movimentadas e expressivas;

a paisagem é vasta e iluminada, transmitindo a impressão fresca do dia; as perspectivas felizes, o céu diáfano e claro.

Figura de Mulher, Artur Lucas

Arthur Lucas é um belíssimo desviado do curso natural de sua tendência por circunstâncias indebeláveis da sorte contrária. Pintor, e pintor por temperamento, fez-se caricaturista, fez-se ilustrador, porque o gênero lhe garantia a subsistência. Mas a sua qualidade nata de colorista, a sua grande vocação para a palheta, ficou latente e, por vezes, rompeu obstáculos de tempo e compromissos para se externar em lindos painéis imaginosos, de uma suave fantasia de cores e formas [...]

Sobre um fundo roxo, igual, sem nuanças, destaca-se outra cabeça de mulher, de uma suavidade sonhadora, quase ideal. Também morena e em perfil, mas desse moreno tênue das magnólias que se vão fenecendo; o da coroa escura dos seus quentes cabelos castanhos pende um véu transparente, que a envolve numa névoa de visão e todo o seu busto, que é leve como as plumas, está encoberto por um leve tecido claro, em tons brandos de branco e cinza, harmonizando-se com a indecisão sentimental de seu semblante,

que o gesto da mão, sobre a vareta do leque, revela e inculca.

Cataplum, Mariano Barbasán Lagueruela

É extraordinário e admirável o Sr. Barbasán Lagueruela!

Cataplum!...sabem os senhores que seja?

É uma ruasita de aldeia, em Itália, creio. Muito lixo,

muita galinha e muitos galos...

O dia está lindo, um glorioso dia, glórious day, no dizer dos ingleses e do smart sr. V de o Paiz ; o sol vai quente , brune o céu, metaliza raras folhagens de raros arbustos, lãs em vibrações a pedra e a caliça do casario reúno, acaçapado e caturra.

Uma petiza, que já floreja a moçoila, vem com a caçarola [a] caminho de casa; mas, como é traquinas ou descuidada, não atende por onde pisa, e, num dado momento,

cataplum... bate de ventas na esterqueira da ruasita. E esperneia, escabuja, berra desesperada com a queda e mais danada com a perda das papas, o que lhe há de custar, conjeturamos, uma roda viva de valentes petelecos se não for de rudes tabicadas.

E os irmãozinhos, que a seguiam, sem saberem o que fazer, ficam pasmados a “ver a cena”,

enquanto as galinhas, galos e frangotes alarmados com o berreiro, se escamujam por todos os cantos, em cacarejos desesperados.

Aí tem, como me foi possível traduzir, o que é o Cataplum do Sr. Barbasán Lagueruela, um quadrinho de pouco passa de um palmo.
Isso, quanto ao assunto; quanto à pintura, é de saber-se que o admirável Sr. Barbasán Lagueruela possui uma palheta maravilhosa e maneja os pinceis que parecem finíssimos como um alfinete de almofada, com a perícia de um Boldini, ou do famoso Meissonier, tendo como eles, para a vantagem da contemplação de sua obra, um desenho corretíssimo.E, por menor que seja o detalhe, ele o representa completo.

A cabecinha de um dos petizes, é menor que a unha do polegar de um recém-nascido, está tratada com tal minúcia que nem lhe faltam pestanas.
Não prejudica, porém a impressão do brilhante quadrinho o excesso de minudência, porque, sobre o asseio das tintas, há a precisão absoluta dos tons.

Eterna Luta, José Otávio Correia Lima
Na “Eterna Luta”, inspirada na vida humilde dos trabalhadores rurais, o movimento do cavador da terra não tem a contorção muscular dos robustos operários de Constantin Meunier, que foi quem trouxe para assuntos da escultura as ocupações cansativas dos rudes e dos oprimidos, sem as convenções e delambimentos dos que, anteriormente, intentaram reproduzir o homem de trabalho.

A ação do lavrador do Sr. Correia Lima está no esforço rítmico de enterrar a pá no solo, servindo-se, como é habito dessa gente do campo, da compressão do pé sobre o cimo da folha para fazê-lo penetrar mais fundo na massa empapaçada do terreno.

Como esforço rítmico o movimento é moderado, e apesar do cuidado com que modelou a figura arrancada da plastelina um magnífico tipo de trabalhado, apesar da observação com que reproduziu o ato, não lhe notam arremessos trejeitados e musculosidades contorcidas. Não perde, porém, com isso a Eterna Luta na naturalidade expressiva da sua figura representativa. É um caboclo nu, copiado com fidelidade naturista e movimentado com conhecimento aturado do corpo humano. Mas o que fica evidenciado é que a sua maneira se caracteriza por original expressão de sentimentos , que constituem a inconcussa vantagem da escultura moderna sobre a antiga.

Eça de Queiroz, Antonio Teixeira Lopes
Na obra do Sr. Teixeira Lopes, como na de todos os criadores que merecem a veneração de grandes artistas, estas componentes estão intimamente ligadas e tanto se nos insinua, nos penetra com o sentimento preciso das expressões, como nos fascina e deslumbra, num mesmo jato, pela habilidade dos decalcos do polegar, duma certeza rara pelo que de maciez e meiguice, e das raspagens violentas, em arremessos nervosos, dos esboçadores, que indicam o alto grau da sua educação visual no equilíbrio da eurritmis. [...]
E se quereis, meus senhores, atender ao busto do amado Eça de Queiroz, o mesmo que serviu, assim creio, para a belíssima escultura monumental do largo do Quintela, em Lisboa. [...]

Vede como a ironia fina e risonha da sua boca, arregaçada pel’alfinetada do ceticismo moderno, cristaliza a minúcia típica e recorda, admiravelmente, a elegância e diabólica do alegre filósofo mundano.

Vede como esse olhar sorrindo e sorrindo caustica e como na órbita direita há o vinco dum hábito, como nos deixando perceber o monóculo casquilho do petulante inquiridor da alma alheia! E a cabeça que admiramos, é um retrato, exatamente um retrato, porque sobre o preciso delineio físico transparece a espiritualidade que a vivificou.

Os ex-alemães, Klixto (Calixto Cordeiro, dito)
A sua caricatura é o bizarrismo da linha, ainda que pretendendo o aleijão hilariante da estrutura. Abstraída qualquer intencionalidade, que por ventura acuse, ela está inteira na maior ou menor destreza da mão do desenhista, é feita para a visão, tem um encanto a garridice da forma.

Nada, porém, ele perdeu com a escolha, porquanto seu desenho, nem sempre satisfazendo justos rigores acadêmicos, se torna das mais preciosas páginas de ilustrações e das mais estimadas revistas de estampas.

Figura feminina de vermelho à janela, Rodolfo Amoedo
É acentuada a predileção do professor Amoedo pelo modernismo e pela feminilidade elegante na aquarela [...]

Em todos [os trabalhos], porém, a sua maneira de aquarelar não se confunde com a de outros, é original. Esse mestre, não mancha,termina suas aquarelas com o mesmo esmero que dispensa às suas valiosas tabletas a óleo;

mas isso lhe dá ao trabalho um certo encanto, resultante de uma delicadeza em que o toque não se acusa em placas, e sim se difunde, se combina suavemente sem maneirismo.

Créditos: história

Gonzaga Duque: Um crítico de arte no museu

Realizada no Museu Nacional de Belas Artes

De 09 de outubro a 30 de novembro de 2008

Curadoria
Pedro Martins Caldas Xexéo

Créditos: todas as mídias
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