Djanira: Cronista de ritos, pintora de costumes

Museu Nacional de Belas Artes

Djanira: Cronista de ritos, pintora de costumes  
“Eu sou ingênua, mas minha pintura não”, declara Djanira nos anos 70 quando alguns críticos a denominava de primitiva. Djanira sonhou em ser pintora e nem mesmo as intempéries da vida poderiam impedi-la de pintar. Na exposição Djanira: cronista de ritos, pintora de costumes destaca-se dois pontos essenciais da artista: Djanira, mulher ingênua, mas pintora moderna e Djanira, cronista, pintora andarilha e antropóloga, que retratou o cotidiano de seu país com imenso lirismo poético. Pintora moderna, “não improvisa, não se deixa arrebatar”, como afirmou Mário Pedrosa, e apesar da espontaneidade descrita em suas pinturas, sua ingenuidade está no seu modo de ver, de experimentar a vida, tentando através do traço, da marca, das cores e da fatura plástica no espaço bidimensional da tela, concretizar o sonho.  A narrativa apresentada na exposição foi imposta pela própria temática da artista enquanto cronista de costumes: lazer, trabalho, paisagem e devoção. Temas presentes em toda a sua trajetória e trabalhados exaustivamente pela artista.  

A mítica que envolve o surgimento de Djanira pintora pode ser representada pela obra Costureira, de 1951.

Dona de uma pensão no bairro de Santa Teresa hospedava artistas como Emeric Macier, que lhe ensinou “a cozinha da pintura”, e realizava pequenos reparos como costureira para melhorar sua condição financeira. Teria sido uma de suas clientes que, ao se deparar com um ateliê de costura com desenhos e croquis afixados pelas paredes, teria chamado atenção de Djanira para o seu talento artístico.

O lazer, que muitas vezes é fonte de trabalho para uns e de diversão para outros, como nos Estudos para Opera de Pequim, s.d e pela pintura O Circo, de 1944,

construída em uma movimentada e rigorosa espiral, com uma vertente infantil e onírica, percebe a influencia de artistas como Pieter Bruguel. É na década de 40 que, a convite do artista Milton Dacosta, Djanira segue pra Nova York. Mesmo sozinha e sem falar inglês, a artista não esmoreceu, entrando em contato com o diretor da New School que, encantado por suas obras, desvelou o mundo artístico nova-iorquino, conhecendo Segall, Chagall, entre outros.

De volta ao Brasil, Djanira peregrina o País em busca do que deseja tornar arte. Como uma antropóloga e cronista visual, iria in locu para captar fidedignamente o Brasil e seu povo. Os trabalhadores aparecem silenciosos, como em “Trabalhadores de cal”.

Concentrados em seu oficio, sem rosto, sem fisionomia,

humanizados apenas pelos olhos e de certa forma sem apresentar seu gênero, o individuo retratado representa o coletivo.

Enquanto o mundo secular aparece mais despojado, seus santos aparecem em ricos detalhes, em especial na indumentária, remetendo aos detalhes da obra Costureira. O projeto desenvolvido pela artista chamado Oratório Djanira, composto de 10 gravuras, inspiradas nas iluminuras da Idade Média e acompanhadas pelos poemas de Odylio Costa Filho, foram realizados artesanalmente e concluídos com a mão esquerda, já que sua direita havia passado por duas cirurgias e necessitava ficar imobilizada.

Este belo conjunto de gravuras representando patronos e imagens de devoção é impregnado de detalhes barrocos e complexas tramas de motivos como grafismo indígena e chita.Do religioso ao sincrético, no percurso expositivo, os Estudos para Oratório Djanira foram ladeados por dois outros santos. De um lado São Sebastião e do outro São Cosme e Damião, ambos também cultuados pelas religiões de matriz africana.

Os estudos, tanto para os orixás quanto para os azulejos contribuem para desmitificar Djanira como artista naif. O rigor e preocupação da composição e proporção já demonstram que a artista estava além desta adjetivação.

A união entre o cotidiano e a experiência religiosa e mítica, e a sinergia entre o fazer artístico e poético fizeram de Djanira, para além de artista ingênua e/ou primitiva: uma contadora de história que apresenta a imagem do Brasil e sua nacionalidade sem ser ufanista. Seus “instantâneos” sintetizam, através do purismo da fatura cromática e do despojamento das formas, a preocupação estilística da arte moderna brasileira. O homem, como imagem fundamental para construção de suas obras, é aquele que entre a fé e o trabalho, entre as intempéries e seu descanso torna-se herói. Um homem que sai da própria terra. Para o critico de arte Mario Pedrosa, Djanira “era a própria terra”. E essa terra, enquanto terra mater, é aquela que dá e tira vidas, mas, sobretudo, é aquela que alça os homens aos sonhos e aos atos de heroísmo.

Créditos: história

Djanira: Cronista de ritos, pintora de costumes

Centro Cultural dos Correios - Niterói/RJ
17 de novembro de 2014 a 21 de março de 2015

Museu dos Correios – Brasília/DF
21 de julho a 18 setembro de 2016

Centro Cultural dos Correios- São Paulo/SP
De 13 de dezembro de 2016 a 05 de fevereiro de 2017

Curadoria
Daniela Matera

Créditos: todas as mídias
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