RIOS EM EXTINÇÃO

Museu do Amanhã

Expandimos como espécie às margens de grandes rios. Deles, tiramos a água que bebemos, que usamos para cozinhar, nos banhar e fabricar diversos produtos. Parte de nossa eletricidade vem da força de suas águas. Mas nossa relação com os rios se tornou predatória. Muitas vezes, mortal. Conseguiremos, um dia, melhorá-la? 

SOMOS UM PROBLEMA?
A Humanidade tem alterado os fluxos da Terra de muitas formas. A emissão de gases de efeito estufa contribui para o aumento da temperatura global. Os plásticos que usamos cotidianamente são quase onipresentes; a biodiversidade é profundamente afetada com a perda de biomas e mudanças na cadeia alimentar, provocadas por espécies invasoras na fauna e na flora. 
A ação humana é sentida também na forma como afetamos a vida e a dinâmica das águas. A erosão provocada pelo desmatamento tem alterado o padrão de sedimentação e o curso de muitos rios no mundo. A pesca com uso de redes altera também a sedimentação do solo dos mares - o contato de redes com o fundo dos oceanos agita os sedimentos depositados no leito dos mares.
O aumento ou diminuição na sedimentação pode ser bastante prejudicial a estes ecossistemas. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mais sedimentos no fundo de rios e oceanos reduz a quantidade de luz necessária para a produção de algas, o que provocaria a elevação da temperatura das águas e redução do crescimento de vegetação. 
Além disso, as populações de peixes também são afetadas, devido à diminuição de oxigênio disponível para reprodução, sem contar um risco maior enchentes. Por outro lado, uma sedimentação diminuída por culpa da mineração, por exemplo, pode prejudicar ecossistemas pela falta de minerais, nutrientes e matéria orgânica que eles transportam. 

Um estudo recente de pesquisadores das Américas, Europa e Austrália mostra que o desflorestamento e o uso dos solos para pastagens de gado e plantações em larga escala têm aumentado os fluxos de sedimentos de muitos rios. A construção de estradas tem provocado a erosão de superfícies e o desmoronamento de encostas em diversas regiões do planeta.

O vídeo, feito com base nas imagens capturadas pelo satélite Terra, da NASA, mostra a progressão do desmatamento no estado de Rondônia entre 1975 e 2012.

GRANDES BARRAGENS 
A construção de barragens em rios é considerado um dos principais impactos em rios pelo mundo. Atualmente, existem cerca de 48 mil grandes barragens - ou com mais de 15 metros de altura - em funcionamento, segundo a organização não-governamental World Wildlife Fund (WWF). Essas estruturas são usadas para gerar eletricidade, irrigar grandes áreas, prover água potável e prevenir inundações. A maioria dos complexos foi construída nos últimos 60 anos, a uma velocidade de mais de uma grande barragem por dia. Cada uma delas deve durar entre 50 e 200 anos, interrompendo o transporte de sedimento para os oceanos. 

A Usina de Três Gargantas, no rio Yangtze (China), é tão grande que pode ser vista do espaço

Estas barragens também causam perdas para as populações e mudanças drásticas nos ecossistemas onde são instaladas. Por isto, muitos ativistas e pesquisadores questionam governos no mundo inteiro sobre o quão limpa seria a energia produzida por usinas hidrelétricas.

No Brasil, a hidrelétrica de Belo Monte é objeto de grande controvérsia política e ambiental. A usina está sendo construída no rio Xingu nos arredores de Altamira, norte do Pará, onde mais de 500 famílias foram deslocadas para dar lugar à construção.

O projeto que prevê a construção de cinco usinas no rio Tapajós - Complexo do Tapajós, no estado do Pará - também tem gerado muita tensão entre comunidades Munduruku e governo brasileiro. No início de agosto de 2016, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) arquivou a concessão de licenciamento ambiental para a construção da usina de São Luiz do Tapajós, uma das hidrelétricas do Complexo. Além da inviabilidade ambiental, a obra alagaria uma aldeia Munduruku - o que é proibido pela constituição brasileira, que permite a remoção de indígenas de suas terras apenas em caso de catástrofes ou epidemias.

O fluxo reduzido de sedimentos de nascentes para os principais rios do mundo provoca, combinado à extração de água subterrânea, alta de hidrocarbonetos e sedimentos no fundo dos rios. Isso tem causado a rápida baixa de volume de muitos rios. O processo, iniciado na década de 1930, ocorre em velocidades maiores que o aumento do nível dos oceanos hoje. 

O Rio Colorado, após tantas barragens construídas ao longo de seu curso, não mais consegue desaguar no oceano Pacífico - termina a pouco mais de oito quilômetros do Mar de Cortez, no Golfo da Califórnia.

UMA QUESTÃO BRASILEIRA
No Brasil, poluição em grande quantidade e mudança de curso também são problemas enfrentados por grandes rios. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rio mais poluído do país é o Tietê, em São Paulo. Ele é seguido pelos rios Iguaçu, na divisa entre Paraná e Santa Catarina, o Ipojuca, que corta Pernambuco, o dos Sinos, que desemboca em Canoas (RS), e o Gravataí, que corta as cidades gaúchas de Canoas e Porto Alegre. 

Apesar da intensa poluição, ainda existem porções do curso do Tietê onde a água é limpa

O Rio Doce, que corta o Espirito Santo e Minas Gerais, e o Paraíba do Sul, que passa por Rio de Janeiro, São Paulo e Minas, também estão entre os dez mais poluídos do país. Resíduos químicos industriais e o uso de pesticidas na agricultura estão entre os maiores responsáveis pela degradação destes cursos d'água.
Em novembro de 2015, o Rio Doce também sofreu um grande impacto, resultante do maior desastre ambiental já ocorrido no Brasil. O rompimento da barragem de rejeitos de mineração do Fundão, na cidade de Mariana, em Minas Gerais, contaminou suas águas e lançou uma grande quantidade de rejeitos que alcançou a foz do Doce no município de Linhares, no Espírito Santo, desembocando no Oceano Atlântico. Muitas pessoas que moravam nos arredores, como os habitantes de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, tiveram suas casas e pertences destruídos. O padrão de sedimentação do Doce também foi alterado e bancos de areia restam em suas margens.

“Era como se Guliver tivesse passado um pincel com tinta vermelho-amarronzada pelas árvores”, observou o fotógrafo Bruno Veiga, ao registrar o impacto do rompimento sobre Paracatu de Baixo (MG), em abril de 2016

O rompimento da barragem do Fundão em Mariana (MG) afetou mais da metade do curso do Rio Gualaxo do Norte, afluente do Rio Doce

CAMINHOS POSSÍVEIS
Em março de 2014 e fevereiro de 2015, a organização não-governamental SOS Mata Atlântica analisou a qualidade da água de 111 rios brasileiros no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. O estudo, lançado em 2015, mostrou que quase um em cada quatro rios tinha suas águas consideradas ruins ou péssimas – e só 15% tinha água de boa qualidade. 
No entanto, esforços de recuperação de cursos d’água mostram que um outro cenário é possível. A exemplo da despoluição de grandes rios europeus como o Tâmisa (Inglaterra) e Reno (Alemanha), uma parceria público-privada criou o programa “Cultivando Água Boa” no estado do Paraná. Desde 2003, o projeto já despoluiu mais de cem microbacias hidrográficas do rio Paraná, mais de 1.000 quilômetros de mata foram replantados e houve melhoras na rede de esgoto de quase 30 municípios. 
No Rio de Janeiro, a despoluição da Baía de Guanabara é um desafio ainda não superado. Em duas décadas, o governo do estado já colocou em prática dois programas para melhorar a qualidade ambiental da Baía, que recebe a contribuição de mais de 100 rios e canais localizados em 16 municípios, onde vivem quase 9 milhões de pessoas. O tratamento de esgotos em sua bacia hidrográfica não ultrapassa hoje os 35%. Já foram gastos cerca de R$ 4 bilhões, mas a maioria das praias da Baía continua impróprias para o banho.
Mas será que estes esforços terão efeito no tempo que precisamos? Em março de 1977, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu pela primeira vez que o acesso à água potável é um direito humano básico. O plano de ação resultante da Conferência da ONU sobre a Água diz que “todos os povos, seja qual for o seu estágio de desenvolvimento e as suas condições sociais e econômicas, têm direito a ter acesso a água potável em quantidade e qualidade igual às suas necessidades básicas”. Em 2010, a ONU reconheceu formalmente o acesso à água como um direito humano básico. Conseguiremos assegurá-lo para as próximas gerações?
Créditos: história

Presidente do Conselho de Administração do IDG: Fred Arruda
Diretor Presidente: Ricardo Piquet
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Diretora Captação de Recursos: Renata Salles
Gerente de Exposições e Observatório do Amanhã: Leonardo Menezes
Pesquisa e Redação: Meghie Rodrigues
Edição de vídeos: Eduardo Carvalho
Edição de textos: Emanuel Alencar
Fotos: Gustavo Otero, Bruno Veiga, US Fish and Wildlife Service, US Geological Survey, Greenpeace, Fotos Públicas, National Aeronautics and Space Administration (NASA), Pixabay, Pedro Vásquez Colmenares, Leonid Yaitskiy, Eurico Zimbres, Luciano Silva, Rafa Tecchio, Gledson Agra de Carvalho, Deni Williams, Google StreetView, Wikimedia Commons
Vídeo: Greenpeace (modificado) e Nasa.gov Video (via Youtube)

Créditos: todas as mídias
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