Um dos mais aclamados coletivos de arte do nosso tempo.

Sala de Lectura
A obra Sala de Lectura apela à estrutura panóptica, utilizada para a construção do chamado Presídio Modelo, instituição penitenciária em Cuba que, nos anos 50, teve entre seus detentos a Fidel Castro e seu irmão Raul Castro.

A transformação desse referente em um espaço circular de prateleiras vazias, uma sala de leitura sem livros, faz referencia à vulnerabilidade do homem em meio a sistemas de vigilância.

A ausência de livros esvazia o conteúdo que o próprio nome indica. Num outro sentido evoca a estruturas arquitetônicas harmônicas que, despojada da sua referência original, sugerem múltiplos usos.

Ciudad Transportable

Na sétima edição da Bienal de Havana, no ano 2000, Los Carpinteros apresentaram a obra “Ciudad Transportable”. Ao estilo de barracas de camping, dez tendas erigiam-se e identificavam as edificações icônicas de qualquer cidade contemporânea. Edifício de apartamentos, construção militar, igreja, universidade, hospital, prisão, fábrica, capitólio, farol e armazém são escolhidos como elementos denotativos da infraestrutura arquitetônica básica que garante o funcionamento de uma cidade.

Trata-se das estruturas simbólicas de organização, controle e poder que dividem o espaço urbano em parcelas interdependentes, colocadas aqui em uma posição de instabilidade e fragilidade, que contrasta com a autoridade que cada uma delas representa. O nomadismo típico do ser contemporâneo entra como variável desestabilizadora quando deixa de ser uma opção individual para ser atribuído a todo o tecido de instituições de domínio que afetam a vida em sociedade.

O migrante nunca vai sozinho; com ele, parece viajar todo o sistema formativo e de crenças que molda seu presente: mais que carregar sua casa, ele carrega uma cidade e uma história. Por um lado, a instalação oferece uma interpretação amena e nostálgica, parece, por outro lado, lembrar severamente da impossibilidade de fugir das estruturas de domínio, pois essa cidade é onipresente, idêntica em sua configuração, similar em suas intenções – e as unidades opressivas que a conformam serão encontradas em todo lugar.

Embora uma leitura local, desde referências arquitetônicas cubanas, seja possível, ao padronizar essas construções, os artistas lançam sua reflexão para além do contexto da ilha, chamando a atenção sobre questões que dizem respeito ao homem contemporâneo, qualquer que seja sua geografia de origem.

Para Los Carpinteros, artistas que hoje constroem sua vida e obra de várias coordenadas, como cidadãos do mundo, a “CiudadTransportable”, tal qual fantástica premonição, é metáfora de seu cotidiano atual.

Dos Pesos

A pintura e a escultura se integram, de forma criativa, na obra “Dos Pesos” (Dois Pesos). É um autorretrato dos artistas em pleno processo de manipulação da madeira, matéria prima utilizada nas obras iniciais do coletivo artístico e a causa pela qual foram batizados como Los Carpinteros.

Cada nota do peso cubano apresenta um ícone patriótico. Assim, a nota de 1 peso tem o rosto de José Martí, herói nacional, e, a de 3 pesos,o rosto de Che Guevara. Não existe nota de 2 pesos em Cuba. Ao se colocar como protagonistas nesta nota fictícia, os artistas assumem o espaço reservado aos heróis da História, e o fazem desde a posição de trabalhadores manuais, representando o esforço do trabalho. Uma das leituras a esta obra pode ser a reflexão sobre a remuneração como critério de valor do trabalho, no momento em que a crise econômica decorrente da queda do socialismo na Europa do Leste, levou à maior desvalorização da moeda na historia de Cuba: nos anos 90, 1 dólar chegou a ser equivalente a 100 pesos cubanos, e o salário médio de um trabalhador não ultrapassava os 300 pesos. “Dois Pesos” é a sequencia de uma obra anterior feita em madeira por Alexandre Arrechea e Dagoberto Rodríguez, intitulada “Un Peso”.

Havana Country Club

A obra "Havana Country Club“ é uma peça que dialoga com o passado histórico. A Universidade das Artes em Cuba ocupa, hoje, parte do espaço e instalações do que, anos atrás, fora o seleto Country Club de Havana e seu imponente campo de golf. Um dos maiores emblemas da exclusão por parte da elite, o Country Club, se torna um espaço de conhecimento, é reeditado pelos artistas, que se autorretratam jogando golf. Não se trata de um processo simples de reconciliação com o passado, mas de relativização das distâncias entre dois modelos de vida e sociedade.

Marquilla cigarrera cubana

A obra “Marquilla cigarrera” resgata a cultura visual associada à indústria do tabaco, historicamente mais irreverente e livre que a produção artística acadêmica. As caixas de charuto serviam de suporte a ilustrações de crônicas cotidianas, por vezes carregadas com um comentário social subversivo. Com base nessa tradição, Los Carpinteros propõem uma cena surreal em que os artistas interagem com a história da arte de modo aleatório e dessacralizador.

Em primeiro plano, Alexandre Arrechea, despido, com um charuto, impõe-se como protagonista, que chama a atenção sobre a exclusão da figura do negro na história da arte, pois o entorno em que aparece inserido é uma sala de pintura histórica do Hermitage, onde outra figura, Dagoberto Rodríguez, também sem roupa, conversa com uma obra na parede. A obra destaca a vocação lúdica do coletivo de artistas, também na inscrição, que pode ser lida como uma declaração artística do grupo que, até hoje, não perde “a vontade de voltar a jogar”.

Cuarteto

Esta é uma obra para a qual a palavra “plasticidade” cai muito bem, instrumentos que se derretem suave e perfeitamente, oferecem uma imagem tridimensional de um recurso artístico usado na pintura. A veia surrealista de Los Carpinteros aparece aqui, numa linguagem contemporânea de objetos isolados no drama da sua decomposição, que nos faz imaginar uma música que se esvai na medida que os instrumentos perdem a forma que os define, até mudar de estado e virar matéria líquida e abstrata.

VDNKhToy

A obra “VDNKhToy” toma como referência o Monumento aos Conquistadores do Cosmos, obelisco de 110 metros de altura que representa um foguete espacial decolando, construído em Moscou, no ano de 1964, para celebrar as realizações soviéticas na exploração do espaço. O monumento encontra-se localizado ao lado do Centro Panrusso de Exposições (antigo Centro de Exibição das Realizações da Economia Nacional), mais conhecido por sua sigla no original em russo: VDNKh. Na obra de Los Carpinteros, o sentido vitorioso e comemorativo do monumento se vê minimizado e até ridicularizado pela alteração de cor, escala e, sobretudo, de material.

O original revestido em titânio é trocado por minúsculas peças amarelas de Lego. Com sua tendência ao lúdico reforçada no título, que associa a enigmática e ilegível referência de consoantes a um possível brinquedo, os artistas mais uma vez tentam dessacralizar os emblemas da utopia. A carreira pelo espaço, uma das frentes que tomou inesperadas proporções na Guerra Fria, foi um projeto de supremacia simbólica em um mundo marcado pela fricção entre dois modelos de sociedade. Os troféus dessa batalha, exibidos com orgulho à época, hoje se assemelham a grotescos lembretes da incapacidade real de impactar ou mudar significativamente a vida do homem na Terra.

“VDNKhToy” traz para um primeiro plano essas contradições com um objeto que encarna a construção da utopia e sua temporalidade, na possibilidade sempre latente de que, em um instante, tudo possa ser desfeito. Afinal, qualquer certeza de futuro é tão frágil quanto retirar ou adicionar uma peça de Lego.

Podium

A obra “Podium” apresenta um objeto comum deslocado do seu entorno, uma peça seca que provoca um certo estranhamento, mas carrega em si diversas simbologias. Esse pódio é o objeto que oferece o espaço da palavra, que magnifica a pessoa que o usa e transfere a sensação de poder envolvida no privilégio de influenciar nos/ aos outros por meio do discurso.

A referência ao objeto similar usado por líderes políticos nos seus discursos não é mera coincidência. Mas o fato de se tratar de uma peça de papelão ondulado e velcro, imprime uma transitoriedade inédita para o objeto pesado e silencioso, que se assume símbolo da palavra e das ideias.

Celosía Poliédrica Flotante

Da junção entre conceitos que convocam áreas diferentes, surge a obra “Celosía Poliédrica Flotante”. Por um lado, o termo “celosía”, na área da botânica, identifica o gênero da planta popularmente conhecida como crista-de-galo. Por outro, é impossível não registrar que, em espanhol, a palavra celosía remete de imediato à arquitetura, como denominação da estrutura decorativa vazada que permite a comunicação entre dois ambientes, frequentemente interior e exterior, e pode ser traduzida como cobogó, treliça, muxarabi.

Na aquarela, os elementos modulares que se repetem como se fossem parte de uma fachada evocam a arquitetura, mas ao mesmo tempo adotam o formato do crescimento orgânico vegetal. A ambiguidade da celosiaé ilustrada em um protótipo único, que no momento em que harmoniza arquitetura e natureza, também transmite uma sensação claustrofóbica. Los Carpinteros aproveitam a liberdade ilimitada do trabalho em suporte bidimensional para ensaiar uma reflexão teórica sobre o espaço e devolvem um modelo que conecta a abstração concreta com referências naturais. Tal modelo, no entanto, é conceitualmente desafiado por mais um componente racional, o poliedro, que, no campo da geometria, adjetiva o objeto ambivalente, multiplicando suas possibilidades. O título da obra adverte que o resultado dessa combinação estará sempre em constante mutação, oscilante entre o que é possível delimitar e o infinito – uma quimera.

Trash - Shopping Cart

A obra Trash - Shopping Cart, Reinterpreta um carrinho de supermercado e assume a forma de lixeira. A alteração da forma deformação desencadeia uma nova leitura inevitável, que nos faz estabelecer uma relação entre a sociedade de consumo e o desperdício o consumismo e o lixo. A obra chama a uma reflexão sobre como somos induzidos a comprar mercadorias descartáveis e desnecessárias para alimentar a sede por lucros, imperativo do sistema do capitalismo global.

Sandalias

A obra Sandalias, de 2004, Representa um objeto de uso cotidiano, que é transformado em um mapa tridimensional urbano. Acartografia de bairros de Havana é levada na sola de um chinelo (ou chancleta, no espanhol cubano). por dedução o objeto torna explícita a conotação de “chancletear”– gíria cubana para “gastar a sola do sapato”, ou caminhar pela cidade. Ao mesmo tempo, ter a cidade literalmente em seus pés. Esse jogo de significados é comum a vários dos objetos da sala, como as camas que se abraçam quando dormem, sugerindo, mais uma vez,o objeto com alma e vitalidade próprias, que assume um comportamento humano e torna-se, desse modo, um objeto surreal. A obra Sandalias, de 2004, Representa um objeto de uso cotidiano, que é transformado em um mapa tridimensional urbano. Acartografia de bairros de Havana é levada na sola de um chinelo (ou chancleta, no espanhol cubano).

E, ao virar um simples silogismo, por dedução o objeto torna explícita a conotação de “chancletear”– gíria cubana para “gastar a sola do sapato/ bater perna”, ou caminhar pela cidade. Ao mesmo tempo, ter a cidade literalmente em seus pés.

Créditos: todas as mídias
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