A batalha das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo

À procura do 5º elemento, Bárbara Wagner, 2016-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

A procura do quinto elemento
Bárbara Wagner

Bárbara Wagner tem se dedicado a observar as relações entre as manifestações da cultura popular, especialmente as musicais, e o acesso às tecnologias de produção e circulação de imagens.

À procura do 5º elemento, Bárbara Wagner, 2016-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Sua pesquisa sobre o brega-funk do Recife deu origem ao filme Estás vendo coisas (2015) e cresceu com o projeto sobre o funk de São Paulo chamado Mestres de cerimônias, contemplado com a Bolsa de Fotografia zum /ims em 2015.

À procura do 5º elemento, Bárbara Wagner, 2016-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Durante meses, a artista registrou mais de 300 garotos e garotas que se dispuseram
a concorrer diante de um júri, caprichando no visual, estreando composições, arriscando a voz e o corpo na performance de palco.

À procura do 5º elemento, Bárbara Wagner, 2016-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Alguns jovens encaram a câmera, num contato visual que transmite determinação e confiança; outros lançam um olhar distante, como se estivessem perdidos nos devaneios da fama ou duvidassem do resultado do concurso.

A Resistência do Corpo, Letícia Ramos, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

A resistência do corpo
Letícia Ramos

Letícia Ramos é uma fotógrafa-cientista, uma viajante que atravessa os séculos revirando as diversas aventuras de invenção das formas de representar o mundo.

A Resistência do Corpo, Letícia Ramos, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Este trabalho faz referência aos desdobramentos da Revolução Industrial, período em que a fotografia era usada para embasar teses científicas, aprimorar a “máquina do mundo” e ampliar a capacidade produtiva.

Os corpos fragmentados, os instrumentos mecânicos, o fundo escuro e pontilhado criam uma atmosfera calculada e misteriosa, como se estivéssemos diante de uma experiência robótica ou espacial. O uso da fotografia dá veracidade ao trabalho e faz com que mesmo uma situação improvável ganhe ares de documento.

A Resistência do Corpo, Letícia Ramos, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

O uso da fotografia dá veracidade ao trabalho e faz com que mesmo uma situação improvável ganhe ares de documento.

#AOVIVO, Mídia Ninja, 2013-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

#AoVivo
Mídia Ninja

Em junho de 2013, um grupo de jovens roubou a cena nas redes sociais ao cobrir do chão as manifestações de rua contra o aumento das tarifas de transporte público.

#AOVIVO, Mídia Ninja, 2013-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Conectados por computadores e celulares, transmitiram diariamente e ao vivo os eventos que estouraram no país.

#AOVIVO, Mídia Ninja, 2013-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

De dentro das manifestações, os jovens ofereceram a milhares de espectadores novos pontos de vista de um mesmo acontecimento. O impacto foi tremendo. Em pouco tempo, a imprensa tradicional parecia um paquiderme defasado, incapaz de seguir o fluxo das notícias.

#AOVIVO, Mídia Ninja, 2013-2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

A baixa qualidade da imagem era visível, mas progrediu com o tempo. Vistas pixelizadas, borrões noturnos ou mesmo cenas travadas são elementos característicos de um cinema gráfico que começa a ser assimilado.

A máscara, o gesto, o papel, Sofia Borges, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

A Mascara, o Gesto, o Papel
Sofia Borges

As fotografias de Sofia Borges são o resultado de uma viagem a Brasília feita em fevereiro de 2017 para registrar a atividade do Congresso, no momento em que a atuação parlamentar ganhava peso na disputa política.

A máscara, o gesto, o papel, Sofia Borges, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Em menos de um ano, deputados e senadores haviam se exibido em votações constrangedoras, que culminaram no afastamento da presidente em exercício.

A máscara, o gesto, o papel, Sofia Borges, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

A máscara, o gesto, o papel é uma instalação composta de quadros de duas faces. De um lado, veem-se fotografias de bocas quase desfocadas, reproduzidas das pinturas a óleo de Urbano Villela que homenageiam os ex-presidentes da casa.

A máscara, o gesto, o papel, Sofia Borges, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

De outro, vemos gestos retirados de fotos que registram cenas das sessões legislativas.

Postais para Charles Lynch, Garapa, 2015, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Postais para Charles Lynch
Garapa

O Brasil ostenta números vergonhosos de casos de linchamento, muitos deles documentados e reproduzidos em fotos e vídeos. Perplexo diante desse quadro, o coletivo Garapa resolveu estudar essas imagens. Foram meses de trabalho excruciante pesquisando vídeos de linchamentos brasileiros no YouTube.

Postais para Charles Lynch, Garapa, 2015, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

No livro Postais para Charles Lynch fotogramas dos vídeos têm seus códigos numéricos manipulados com a inserção dos comentários que os acompanham nas redes sociais.

Postais para Charles Lynch, Garapa, 2015, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Os comentários destroem o código das imagens e causam uma distorção visual que lembra os antigos ruídos de tevê.

Postais para Charles Lynch, Garapa, 2015, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

O registro atual de linchamentos é ubíquo como a presença das câmeras e celulares.

Postais para Charles Lynch, Garapa, 2015, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Se existe uma imagem de linchamento, é porque há quem fotografe e filme – um sujeito que pode ter participação ativa, passiva ou ser apenas testemunha.

Postais para Charles Lynch, Garapa, 2015, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Postais para Charles Lynch é um manifesto de denúncia e um monumento fúnebre contra o desejo de julgar o outro e violentar seu corpo.

Eu, mestiço
Jonathas de Andrade

Entre 1950 e 1951, pesquisadores coordenados pelo antropólogo Charles Wagley, da Universidade de Columbia, Thales de Azevedo, da Universidade da Bahia, e Luiz de Aguiar da Costa Pinto, da Universidade do Brasil (atual ufrj), saíram a campo em três comunidades para entender os fatores econômicos, políticos, culturais e psicológicos que influenciavam as relações raciais.

Eu, mestiço, Jonathas de Andrade, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

O projeto valorizava os estudos de comunidade como forma de abordar realidades sociais complexas, utilizando um procedimento que conjugava investigações empíricas com formulações interpretativas. Dentre as várias ferramentas de pesquisa, a fotografia tinha papel especial. Nos vilarejos visitados, retratos de homens e mulheres considerados brancos, mulatos, negros e caboclos eram apresentados aos habitantes, que deviam selecionar quem exibisse “mais, menos e muito pouco de determinado atributo”.

Eu, mestiço, Jonathas de Andrade, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

A pesquisa definia seis atributos – riqueza, beleza, inteligência, religiosidade, honestidade e aptidão para o trabalho – e tabelava os resultados. Havia também perguntas específicas: “Você aceitaria esta pessoa como vizinho?”, “Você convidaria esta pessoa para jantar?”, “Você aceitaria esta pessoa como cunhado ou cunhada?”.

Eu, mestiço, Jonathas de Andrade, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

O resultado da pesquisa foi publicado em Raça e classe no Brasil rural: um estudo da Unesco (1952). Sem exibir as imagens usadas pelos pesquisadores, o livro incluía algumas fotografias feitas por Pierre Verger.

Eu, mestiço, Jonathas de Andrade, 2017, Da coleção de: Instituto Moreira Salles

Com o livro em mãos, Jonathas de Andrade percorreu cidades do país para fotografar indivíduos de diferentes tipos e em poses variadas, algumas delas espontâneas, outras dirigidas. Entre 2016 e 2017, armou seu estúdio portátil em São Paulo, Maranhão e Bahia, e produziu centenas de retratos, com enquadramentos que variavam do corpo inteiro ao
3 × 4. Os retratos foram então agrupados e impressos em pranchas de papelão barato, do tipo usado pelas lojas para reproduzir em tamanho real imagens de celebridades e produtos.

Créditos: história

CORPO A CORPO

A batalha das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo

Uma exposição do Instituto Moreira Salles, 2017

Artistas: Bárbara Wagner, Garapa, Letícia Ramos, Sofia Borges, Mídia Ninja, Jonathas de Andrade

Curadores: Thyago Nogueira e Valentina Tong (assistente)

Adaptação da exposição para o Google Art Project: Ângelo Manjabosco

Créditos: todas as mídias
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