A batalha das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo

A procura do quinto elemento
Bárbara Wagner

Bárbara Wagner tem se dedicado a observar as relações entre as manifestações da cultura popular, especialmente as musicais, e o acesso às tecnologias de produção e circulação de imagens.

Sua pesquisa sobre o brega-funk do Recife deu origem ao filme Estás vendo coisas (2015) e cresceu com o projeto sobre o funk de São Paulo chamado Mestres de cerimônias, contemplado com a Bolsa de Fotografia zum /ims em 2015.

Durante meses, a artista registrou mais de 300 garotos e garotas que se dispuseram
a concorrer diante de um júri, caprichando no visual, estreando composições, arriscando a voz e o corpo na performance de palco.

Alguns jovens encaram a câmera, num contato visual que transmite determinação e confiança; outros lançam um olhar distante, como se estivessem perdidos nos devaneios da fama ou duvidassem do resultado do concurso.

A resistência do corpo
Letícia Ramos

Letícia Ramos é uma fotógrafa-cientista, uma viajante que atravessa os séculos revirando as diversas aventuras de invenção das formas de representar o mundo.

Este trabalho faz referência aos desdobramentos da Revolução Industrial, período em que a fotografia era usada para embasar teses científicas, aprimorar a “máquina do mundo” e ampliar a capacidade produtiva.

Os corpos fragmentados, os instrumentos mecânicos, o fundo escuro e pontilhado criam uma atmosfera calculada e misteriosa, como se estivéssemos diante de uma experiência robótica ou espacial. O uso da fotografia dá veracidade ao trabalho e faz com que mesmo uma situação improvável ganhe ares de documento.

O uso da fotografia dá veracidade ao trabalho e faz com que mesmo uma situação improvável ganhe ares de documento.

#AoVivo
Mídia Ninja

Em junho de 2013, um grupo de jovens roubou a cena nas redes sociais ao cobrir do chão as manifestações de rua contra o aumento das tarifas de transporte público.

Conectados por computadores e celulares, transmitiram diariamente e ao vivo os eventos que estouraram no país.

De dentro das manifestações, os jovens ofereceram a milhares de espectadores novos pontos de vista de um mesmo acontecimento. O impacto foi tremendo. Em pouco tempo, a imprensa tradicional parecia um paquiderme defasado, incapaz de seguir o fluxo das notícias.

A baixa qualidade da imagem era visível, mas progrediu com o tempo. Vistas pixelizadas, borrões noturnos ou mesmo cenas travadas são elementos característicos de um cinema gráfico que começa a ser assimilado.

A Mascara, o Gesto, o Papel
Sofia Borges

As fotografias de Sofia Borges são o resultado de uma viagem a Brasília feita em fevereiro de 2017 para registrar a atividade do Congresso, no momento em que a atuação parlamentar ganhava peso na disputa política.

Em menos de um ano, deputados e senadores haviam se exibido em votações constrangedoras, que culminaram no afastamento da presidente em exercício.

A máscara, o gesto, o papel é uma instalação composta de quadros de duas faces. De um lado, veem-se fotografias de bocas quase desfocadas, reproduzidas das pinturas a óleo de Urbano Villela que homenageiam os ex-presidentes da casa.

De outro, vemos gestos retirados de fotos que registram cenas das sessões legislativas.

Postais para Charles Lynch
Garapa

O Brasil ostenta números vergonhosos de casos de linchamento, muitos deles documentados e reproduzidos em fotos e vídeos. Perplexo diante desse quadro, o coletivo Garapa resolveu estudar essas imagens. Foram meses de trabalho excruciante pesquisando vídeos de linchamentos brasileiros no YouTube.

No livro Postais para Charles Lynch fotogramas dos vídeos têm seus códigos numéricos manipulados com a inserção dos comentários que os acompanham nas redes sociais.

Os comentários destroem o código das imagens e causam uma distorção visual que lembra os antigos ruídos de tevê.

O registro atual de linchamentos é ubíquo como a presença das câmeras e celulares.

Se existe uma imagem de linchamento, é porque há quem fotografe e filme – um sujeito que pode ter participação ativa, passiva ou ser apenas testemunha.

Postais para Charles Lynch é um manifesto de denúncia e um monumento fúnebre contra o desejo de julgar o outro e violentar seu corpo.

Eu, mestiço
Jonathas de Andrade

Entre 1950 e 1951, pesquisadores coordenados pelo antropólogo Charles Wagley, da Universidade de Columbia, Thales de Azevedo, da Universidade da Bahia, e Luiz de Aguiar da Costa Pinto, da Universidade do Brasil (atual ufrj), saíram a campo em três comunidades para entender os fatores econômicos, políticos, culturais e psicológicos que influenciavam as relações raciais.

O projeto valorizava os estudos de comunidade como forma de abordar realidades sociais complexas, utilizando um procedimento que conjugava investigações empíricas com formulações interpretativas. Dentre as várias ferramentas de pesquisa, a fotografia tinha papel especial. Nos vilarejos visitados, retratos de homens e mulheres considerados brancos, mulatos, negros e caboclos eram apresentados aos habitantes, que deviam selecionar quem exibisse “mais, menos e muito pouco de determinado atributo”.

A pesquisa definia seis atributos – riqueza, beleza, inteligência, religiosidade, honestidade e aptidão para o trabalho – e tabelava os resultados. Havia também perguntas específicas: “Você aceitaria esta pessoa como vizinho?”, “Você convidaria esta pessoa para jantar?”, “Você aceitaria esta pessoa como cunhado ou cunhada?”.

O resultado da pesquisa foi publicado em Raça e classe no Brasil rural: um estudo da Unesco (1952). Sem exibir as imagens usadas pelos pesquisadores, o livro incluía algumas fotografias feitas por Pierre Verger.

Com o livro em mãos, Jonathas de Andrade percorreu cidades do país para fotografar indivíduos de diferentes tipos e em poses variadas, algumas delas espontâneas, outras dirigidas. Entre 2016 e 2017, armou seu estúdio portátil em São Paulo, Maranhão e Bahia, e produziu centenas de retratos, com enquadramentos que variavam do corpo inteiro ao
3 × 4. Os retratos foram então agrupados e impressos em pranchas de papelão barato, do tipo usado pelas lojas para reproduzir em tamanho real imagens de celebridades e produtos.

Créditos: história

CORPO A CORPO

A batalha das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo

Uma exposição do Instituto Moreira Salles, 2017

Artistas: Bárbara Wagner, Garapa, Letícia Ramos, Sofia Borges, Mídia Ninja, Jonathas de Andrade

Curadores: Thyago Nogueira e Valentina Tong (assistente)

Adaptação da exposição para o Google Art Project: Ângelo Manjabosco

Créditos: todas as mídias
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