1968 - 1997

Detenção sem julgamento na John Vorster Square

South African History Archive (SAHA)

"a instituição icônica dos anos de apartheid, dos anos de tortura, do reino da polícia, do reino das forças enfurecidas..."
BARBARA HOGAN, ex-detida
Massacre de Sharpeville, 21 de março de 1960
Massacre de Sharpeville, 21 de março de 1960

Entre 1960 e 1990, sucessivos governos do Partido Nacional durante o apartheid da África do Sul usaram amplamente as detenções sem julgamento como uma arma para combater a oposição política e as crescentes resistência e insurreição. 

Após o massacre de Sharpeville em 1960, a subsequente proibição do Congresso Nacional Africano e do Congresso Pan-Africano e a declaração de estado parcial de emergência, o primeiro-ministro HF Verwoerd designou BJ Vorster como ministro da Justiça. 

Balthazar Johannes [o equivalente a João em africâner] Vorster, que depois substituiria Verwoerd no cargo de primeiro-ministro, era um “verkrampte” (Africâner nacionalista de linha dura) que avisou: 

"... o desrespeito à lei e à ordem não será tolerado sob absolutamente nenhuma circunstância".

O estado de emergência durou cinco meses, resultando em mais de 11.500 detenções. Vorster rapidamente tornou as políticas de segurança da África do Sul mais rígidas, instituindo uma abordagem praticamente de tolerância zero a qualquer resistência contra o estado e garantindo que a Divisão de Segurança da Polícia Sul-Africana ganhasse grandes poderes. 

A Divisão de Segurança da Polícia Sul-Africana tinha sido originalmente estabelecida no final da década de 1940, como resposta direta a atividades do ainda ilegal Partido Comunista Sul-Africano (SACP, na sigla em inglês). Alinhada ao sentimento anticomunista mundialmente disseminado no alvorecer da Segunda Guerra Mundial, a Divisão de Segurança tinha a tarefa de controlar os comunistas, nacionalistas negros e organizações supostamente "radicais".

Sob a supervisão de BJ Vorster, a Divisão de Segurança se tornou a "força enfurecida", temida em todo o país. 

Recorte de notícia do jornal Sunday Times de agosto de 1961 detalhando a escalada ao poder de BJ Vorster

"Talvez, não seja inapropriado lembrar aos honrados membros que o grande advogado americano Wigmore perguntou certa vez: 

'Por que a súbita preocupação pelos criminosos?'

Minha pergunta é: 

'Por que a súbita preocupação pelos comunistas na África do Sul?"'

                                — BJ VORSTER se dirige ao Parlamento em 1962
HELEN SUZMAN, política e ativista anti-apartheid, sobre BJ Vorster
Lei de Emenda às Leis Gerais, 1963
Seção 6 da Lei de Terrorismo nº 83, 1967

Ao lado de um conjunto crescente de outras leis criadas para silenciar os oponentes do apartheid, a detenção sem julgamento era usada com fins interrogatórios e punitivos, bem como para separar indivíduos de suas comunidades e seus eleitorados. 

A opção de detenção sem julgamento foi primeiramente inserida nas normas da Lei de Segurança Pública de 1953, introduzida em resposta à crescente militância e oposição exemplificadas pela Campanha do Desafio.

Em 1961, a Lei de Emenda às Leis Gerais previa até 12 dias de detenção sem julgamento em situações não emergenciais. Isso foi ampliado para 90 dias de detenção em 1963, em resposta a uma onda de atividades armadas do ANC e do PAC. Mais tarde, uma emenda passou a permitir 180 dias de detenção sem julgamento. 

Por fim, a terrível Lei de Terrorismo de 1967 permitiu a detenção indefinida com fins de interrogatório. 

Os detidos podiam receber visitas de um magistrado, mas não tinham acesso aos tribunais nem visitas de representantes legais. 

GEORGE BIZOS, advogado de direitos humanos, fala sobre as sinistras mudanças na Divisão de Segurança sob o comando de BJ Vorster

"O centro John Vorster era o ápice das câmaras de torturas."    

                                        — JAKI SEROKE, ex-detido 
O bloco de celas na delegacia central de polícia de Johannesburgo

Mais de 40 anos atrás, em um dia frio ao final de agosto de 1968, o primeiro-ministro Balthazar John Vorster abriu a delegacia do Centro John Vorster. Vangloriando-se de que o prédio novo em folha era a maior delegacia da África, ele proclamou a estrutura azul achatada com vista para a autoestrada no centro de Johannesburgo como um moderno posto policial de "primeira classe", já que sediava todas as principais divisões da polícia sob o mesmo teto.

Talvez tenha sido apropriado que o prédio fora batizado com o nome de Vorster. Da mesma maneira que o antigo ministro da Justiça, ele tinha supervisionado a instituição de rígidas leis de segurança criadas para acabar com a oposição ao apartheid e garantir que a Divisão de Segurança da Polícia Sul-Africana recebesse grandiosos poderes. 

O centro John Vorster logo ganhou a reputação de ser um local de brutalidades e torturas, tornado-se o principal lugar de detenções e interrogatórios no Witwatersrand durantes as décadas de 1970 e 1980.

Entre 1970 e 1990, oito pessoas, todas detidas sob os regulamentos de detenção, morreram como resultado de seu encarceramento no Centro John Vorster.

BJ VORSTER discursa na abertura do Centro John Vorster em 1968 (cortesia da SABC)
Construção do Centro John Vorster, 1968

A construção de um novo prédio para substituir o posto policial da praça Marshall, em Johannesburgo, começou no nº 1 da rua Commissioner em 1964. Projetado pela empresa Harris, Fels, Janks and Nussbaum, o prédio tinha a finalidade de atender à crescente necessidade de espaço para detenção e interrogatórios por parte da Divisão de Segurança.

Os escritórios da Divisão deveriam se localizar nos 9º e 10º andar da nova delegacia de polícia, garantindo que o acesso ao 10º andares (que logo se tornaria notório) fosse limitado graças a um elevador que só subia até o 9º piso. Os prisioneiros políticos eram levados para o último lance de escadas até chegar ao 10º andar, onde um número não determinado de detidos era torturado. 

As celas dos detidos eram em andares mais baixos e especificamente construídas para confinamento solitário. Eram pintadas de cinza escuro e tinham o chão preto. Em um canto havia um colchão de espuma, em outro, um banheiro. Uma grossa fibra de vidro cobria as janelas e as barras. No centro do teto de pé-direito alto, havia uma única lâmpada que nunca era desligada. Para as centenas de ativistas detidos nas celas, o Centro John Vorster era o inferno.

Vista do 10º andar da delegacia central de polícia de Johannesburgo

"Eu estava no andar de cima, em uma cela que tinha vidro grosso, tipo vidro à prova de balas, onde não se podia fazer nada. Desse lado também, e havia vidro por cima de todas as barras. Aquela cela era muito isolada. Às vezes, você se sentia louco. Você pensa até não poder mais... E aquele cheiro, você se torna parte do cheiro..."

                                                                                                                                           — JABU NGWENYA, detido, 1981
O busto de bronze de B.J. Vorster na entrada do edifício John Vorster, na capa da revista SAP de março de 1977

"A polícia de segurança tinha uma calma cruel típica de pessoas sem almas"

                                                — MOLEFE PHETO, ex-detido
Policiais socializando em um clube depois do trabalho no Centro John Vorster, data desconhecida
PAUL ERASMUS, ex-policial de segurança

"Lutar em uma guerra revolucionária é muito mais difícil que lutar contra criminosos comuns. Você deve lembrar que às vezes está lutando contra a crème de la crème. Os melhores cérebros disponíveis nesse ataque são seus oponentes. Você precisa estar um passo à frente dessas pessoas. 

Olhando para trás, é uma lástima que essas coisas tenham acontecido. Se meus oponentes olharem para trás, também é uma lástima que alguns policiais tenham sido mortos em explosões de bombas e em ataques a suas casas. Mas os dois lados tinham que provar seu ponto de vista, e você precisa ir atrás de resultados… Nós estávamos lá para preservar a segurança interna da República. Então, às vezes, era muito, muito difícil."

                                                                                                                       — HENNIE HEYMANS, ex-policial de segurança

A partir dos anos 1960, todos os membros da Divisão de Segurança foram enviados a cursos para receber treinamento especial em técnicas de tortura. 

A Divisão de Segurança ganhou uma reputação de extrema crueldade e falta de humanidade em seus métodos de interrogatório, especialmente no Centro John Vorster. 

Privações de sono eram a base de todos os interrogatórios, com pelotões de interrogadores trabalhando constantemente para reduzir os detidos a um estado de total dependência. 

Ex-policial de segurança PAUL ERASMUS atrás de sua mesa, no escritório, no 9º andar do Centro John Vorster, data desconhecida
Jornalista JAMES SANDERS discutindo as forças de segurança da era do apartheid

'Nós éramos, de acordo com o general Coetzee, um bando de idiotas que interpretavam tudo errado. As mãos dele estavam limpas: ele apenas dizia 'remoção permanente da sociedade...', mas não era isso que ele queria dizer. 

Eram os trouxas como nós, você sabe, os soldados de nível mais baixo, suponho, os ordinários, mas enfim, suponho que os idiotas que interpretavam isso mal. Mas a verdade é que nós tínhamos carta branca para matar e saquear em uma escala inacreditável, e você sabia que não ia ser pego, e era exatamente assim que acontecia."

                                                                           — PAUL ERASMUS, ex-policial de segurança
Detida, Dra. Elizabeth Floyd, sobre a polícia de segurança.

Ele caiu do nono andar

Ele se enforcou

Ele escorregou em um pedaço de sabão enquanto se banhava

Ele caiu do nono andar

Ele se enforcou enquanto se banhava

Ele caiu do nono andar

Ele se enforcou do nono andar

Ele escorregou no nono andar enquanto se banhava

Ele caiu de um pedaço de sabão enquanto escorregava

Ele se enforcou do nono andar

Ele se banhou do nono andar enquanto escorregava

Ele se enforcou de um pedaço de sabão enquanto se banhava

                                                                                                                                                      "'Em detenção", de Chris van Wyk

AHMED TIMOL, morto em 27 de outubro de 1971

Em 1971, já haviam ocorrido 21 mortes em detenção nas prisões da África do Sul.

Naquele dia, o Centro John Vorster aumentou essa conta quando Ahmed Timol, um professor de 30 anos de idade, morreu após cair do 10º andar do Centro John Vorster. Membro do então banido Partido Comunista Sul-Africano, ele fora preso em um bloqueio policial na estrada por portar literatura proibida. 

A polícia alegou que Timol tinha cometido suicídio, uma desculpa apoiada por um inquérito oficial, apesar de o patologista do estado, o Dr. Jonathan Gluckman, ter observado que o corpo de Timol mostrava sinais de que ele havia sido espancado antes de morrer.

A polícia de segurança costumava dizer aos detidos que "indianos não podem voar" e se referia ao Centro John Vorster como "Altos de Timol".

A família de Ahmed tinha esperança de que os policiais envolvidos em sua morte se pronunciassem nas audiência da Comissão da Verdade e Reconciliação (TRC, na sigla em inglês) para contar a verdade sobre como ele morreu. Mas eles não apareceram. 

Relatório do Departamento de Justiça sobre audiência do inquérito da morte de Timol
Depoimento de Hawa Timol sobre seu filho, AHMED TIMOL, ao Comitê de Violação dos Direitos Humanos do TRC, 30 de abril de 1996 (cortesia da SABC)
Foto de AHMED TIMOL em pôster comemorativo do ANC 
PROFESSOR KANTILAL NAIK, detido de outubro de 1971 a fevereiro de 1972
Desenho de um interrogador feito por NAIK em papel higiênico durante a detenção
NAIK sobre ser detido e torturado com o "tratamento de helicóptero"

Visualmente, nunca esqueci a cor azul do prédio, mesmo quando eu estava no exílio. Eu nunca esqueci o azul daquele prédio, a estrutura, a aparência.

...os pisos brilhantes, o piso metálico, brilhante e cinza do corredor... o barulho daqueles portões... a força e as chaves se batendo, quase sempre havia chaves se batendo e você se perguntava, que cela eles vão abrir, ou estarão vindo a minha cela? 

                                                    — MOLEFE PHETO, detido, 1975
MOLEFE PHETO, detido, 1975
Entrada ao 9º andar da delegacia central de polícia de Johannesburgo
A insurreição de Soweto, 16 de junho de 1976

Como resultado da insurreição de Soweto em junho de 1976, os poderes da polícia para deter suspeitos sem julgamento foram ampliados. 

Isso foi definido quando a Emenda de Segurança Interna foi aprovada, permitindo deter suspeitos por período ilimitado sem autorização de um juiz.

"Eles trouxeram um gerador elétrico e me disseram para tirar a roupa e eu disse que não ia ajudar eles a me torturarem. Se eles queriam me torturar, primeiro teriam que me deixar inconsciente.... No fim das contas, eles ficaram frustrados e começaram a usar cadeiras com hastes de metal para me bater. 

Claro que sempre que eles começavam a atacar, eu já estava sangrando pelo nariz, pela boca, então eu cuspia meu sangue de volta neles, só para deixá-los brabos. 

Uma tática que me dizia: quando eles estiverem brabos, não vão mais conseguir pensar racionalmente, e por mais profissionais que eles sejam como interrogadores, quando eles estiverem brabos, eles vão estourar e usar qualquer coisa, e foi assim até que me espancaram."

                                                                                                                                  — ZWELINZIMA SIZANE, detido, 1976
ZWELINZIMA SIZANE, detido, 1976
Vista panorâmica do teto da delegacia central de polícia de Johannesburgo
JOYCE DIPALE, detida, 1976

"Centro John Vorster... quatro ou cinco homens e então o capuz e então choques elétricos, tudo. Eu não sei... Raiva. Capuz e tortura, seios, tudo. Por que? Eu não entendo... Por que torturar? Enfim, é triste... E depois eu braba, não falei mais. Por que torturar? Então eu não falo. Tanta raiva. Estupro ou o que, não me importa. Sem falar."

                                                                                         — JOYCE DIPALE, detida, 1976
Desenho de Clive van den Berg, em colaboração com Joyce Dipale, retratando a tortura que ela padeceu durante a detenção

"Eu fui levado por 30 dias, no andar de cima, e fiquei de pé lá por 25 dias, dia e noite. Depois de 28 dias, eles me soltaram e me deixaram na cela. Então você pode imaginar, se eu precisar revisitar esse lugar, ele me lembra daquelas noites amarguradas que eu passei sob uma chuva de golpes da polícia".

                                                                         — TSANKIE MODIAKGOTLA, detido, 1976
TSANKIE MODIAKGOTLA, detido, 1976
Vista do corredor do 9º andar da delegacia central de polícia de Johannesburgo

"... aqueles momentos de verdadeira percepção espiritual... um dos poucos que me aconteceram na vida, foi aqui, depois que eu passei pelo primeiro interrogatório e estava sozinho naquela cela... as paredes eram verdes e eu lembro de caminhar ali dentro e estar totalmente convencido de que íamos ganhar.

Não havia dúvida, eles poderiam me matar, eles poderiam fazer qualquer coisa comigo, mas nós íamos vencer a luta. Foi uma tremenda experiência de fé que me protegeu imensamente por todo o caminho..."

                                                                                    — CEDRIC MAYSON, detido, 1976

WELLINGTON TSHAZIBANE, morto em 11 de dezembro de 1976 

Depois de ser preso por suposta cumplicidade em uma explosão no Carlton Centre em Johannesburgo, no dia 7 de dezembro de 1976, Wellington Tshazibane, graduado em engenharia pela Universidade de Oxford, foi encontrado morto, enforcado na cela 311 no Centro John Vorster. 

Um inquérito oficial, muito parecido ao inquérito anterior sobre a morte de Timol, exonerou a polícia de qualquer delito.

 Depoimento de Wellington Tshazibane à polícia de segurança no dia 10 de dezembro de 1976

ELMON MALELE, morto em 20 de janeiro de 1977

Elmon Malele, preso no dia 10 de janeiro de 1977, morreu de hemorragia cerebral no sanatório Princess em Johannesburgo. Ele havia sido levado até lá por ter supostamente perdido o equilíbrio depois de ficar de pé durante seis horas (uma técnica comum de tortura) e cair batendo a cabeça na quina de uma mesa.

Apesar de a negligência e a violência da polícia terem, com quase toda certeza, causado sua morte, a polícia foi novamente exonerada. Um inquérito determinou que a morte de Malele foi por causas naturais.

Fotografia tirada pela polícia de segurança do escritório onde Elmon Malele supostamente perdeu o equilíbrio
Foto mostra onde Mabelane mergulhou para a morte
Foto do que se alega ser a pegada de Mabelane na cadeira

MATTHEWS MABELANE, 15 de fevereiro de 1977

Pouco mais de um mês após a hemorragia cerebral de Elmon Malele, Matthews 'Mojo'  Mabelane morreu após cair do 10º andar do Centro John Vorster depois ter sido preso sob suspeita de estar viajando a Botswana, onde receberia treinamento militar.

A polícia depois alegou que ele subiu na janela, perdeu o equilíbrio e caiu sobre um carro na rua.

Mabelane foi a 39ª pessoa a morrer nas prisões da África do Sul. 

Foto do carro sobre o qual Mabelane caiu
Foto mostra a cadeira na qual Mabelane supostamente subiu para chegar ao parapeito da janela

"Meu primo-irmão Matthew Marwale Mabelane morreu nas mãos da polícia, em fevereiro de 1977, na central de polícia no Centro John Vorster. Foi dito que ele pulou do notório 10º andar do prédio e morreu instantaneamente. Uma vez que as histórias dos saltos do 10º andar nunca foram e nunca serão verdade, nós queremos saber por que os assassinos não estão se apresentando e pedindo desculpas por seus atos. Essas fraudes dos responsáveis por aquelas atrocidades são realmente revoltantes porque esses assassinos só vão começar a falar sobre isso quando forem expostos, caso contrário, eles permanecerão calados.

Eles realmente acreditam que suas vítimas vão simplesmente esquecer o sofrimento que lhes foi causado? Ou eles acham que as pessoas ainda têm medo deles e, por isso, falar de seus atos causaria problemas como os do passado? As famílias, os parentes, estão angustiados com o silêncio dos assassinos de Matthew. O tempo está acabando agora. Deixem que eles se apresentem e contem a história. Nós também queremos vê-los, ver que cara eles têm, se são seres humanos reais e têm famílias, filhos, parentes e amigos".

                                                                — Chegada do Sr. K.C. Mabelane ao Registro de Reconciliação do TRC, 10 de setembro de 1998

"No Centro John Vorster estavam sempre as mesmas pessoas. 

Como elas eram? Eram do tipo empresarial. Seu ponto de vista era simples: eles nos intimidariam, eles nos torturariam, eles nos interrogariam.

E nós contaríamos a verdade. Nós contaríamos quem estava nos incitando, quem nos dava instruções. Nós contaríamos quem nos dava orientação para fazer isso. Se nos recusássemos, seríamos espancados e ameaçados."

                                                                       — PENELOPE "BABY" TWAYA, detida, 1977
PENELOPE "BABY" TWAYA, detida, 1977

"Era um lugar perverso, um lugar onde coisas terríveis aconteciam às pessoas... era um lugar onde tortura era levada a cabo, e era o centro da polícia de segurança. Era um lugar onde não havia misericórdia e um lugar onde, basicamente, psicopatas se reuniam."

                                                                                     — BARBARA HOGAN, detida, 1981

"Escutar os pombos arrulhando na janela ainda era harmônico... tentávamos nos agarrar aos sons que ofereciam qualquer forma de vida, a fim de sobreviver."

                                                                                     — BARBARA HOGAN, detida, 1981
Concentração de pombos fora da delegacia central de polícia de Johannesburgo
BARBARA HOGAN, detida, 1981
Lista de objetos na cela de Neil Aggett no momento de sua morte [em africâner]

NEIL AGGETT, morto em 5 de fevereiro de 1982

O Dr. Neil Aggett apoiava os direitos dos trabalhadores e se tornou um dos organizadores do sindicato dos trabalhadores de alimentos e enlatados. Ele teve um papel central na organização de um boicote aos produtos Fattis and Monis para obrigar os chefes a reconhecerem os direitos dos trabalhadores de participarem de um sindicato. O governo via uma ameaça na capacidade dele para organizar trabalhadores e disse que ele era um comunista.

Após uma sequência massiva de prisões de líderes sindicais em 1981, Aggett foi encontrado enforcado em sua cela às 3h25 da manhã. Ele tinha se enforcado com uma manta tricotada por um amigo. Dessa vez, entretanto, a verdade sobre sua morte na detenção veio à tona, quando um caso judicial de grande exposição, liderado por George Bizos, mostrou como um interrogatório de 80 horas, no fim da semana anterior a sua morte, levou Aggett a um colapso emocional. Ainda assim, a polícia foi novamente liberada, já que se alegou que Agget há muito tinha tendências suicidas.

Relatório sobre Neil Aggett ao Ministério da Justiça escrito e assinado pelo inspetor de detidos no dia 25 de janeiro de 1982, menos de duas semanas antes de sua morte. 
Depoimento publicado pelo Comitê de Apoio aos Pais de Detidos (DPSC, na sigla em inglês) sobre a morte do Dr. Neil Aggett na detenção

"Pode-se dizer que era como um jogo, com as regras feitas por eles, e você tinha que fazer o possível para tentar quebrar essas regras ou dobrá-las, mas estava claro que nem nós, nem os advogados, teriam acesso. Então ouvíamos falar de outras pessoas em situação parecida e começávamos a entrar em contato uns com os outros para ver o que podíamos fazer a respeito.

Logo descobrimos que havia coisas, havia pressões que podíamos jogar em cima deles. E esse era o jogo que começávamos."

                                   — Max e Audrey Coleman, pais do ex-detido Keith Coleman e membros fundadores do DPSC 
Jabu Ngwenya, ex-detido, sobre a comunicação entre as celas durante sua detenção no Centro John Vorster
Jabu Ngwenya, ex-detido, sobre ser interrogado e torturado no Centro John Vorster

ERNEST MOABI DIPALE, morto em 8 de agosto de 1982

De uma família politicamente ativa, Ernest Dipale havia sido preso e detido ao mesmo tempo que Aggett em novembro de 1981. 

Ele havia prestado um depoimento a um magistrado no qual dava queixa de ataque e tortura com choques elétricos. Em nada resultou sua queixa. Ele eventualmente foi solto depois de três meses e meio.

Ele foi detido novamente no dia 5 de agosto de 1982 e mantido no Centro John Vorster. 

Cinco meses após a morte de Neil Aggett, Ernest Dipale foi encontrado enforcado em sua cela. Ele havia se enforcado com uma faixa rasgada do cobertor.

Dipale, que tinha apenas 21 anos no momento de sua morte, havia sido vítima de graves ataques e tortura, inclusive com choques elétricos. 

Carta do magistrado, ao ministro da Justiça, sobre Dipale

AC/2001/279: trecho sobre o rapto de Dipale na solicitação de Butana Almond Nofomela ao Comitê da Anistia do TRC

"O solicitante testemunha que recebeu instruções do capitão Jan Coetzee e do tenente Koos Vermeulen para sequestrar Moabi Dipale em sua casa em Soweto para ser interrogado. Ele seria ajudado por Joe Mamasela. Eles queriam obter informações sobre a irmã de Moabi, que figura no próximo incidente.

Eles se dirigiram a sua casa em Soweto e perguntaram se ele estava presente. Uma jovem disse que ele não estava, mas ao entrar na casa, o encontraram escondido atrás de um guarda-roupa. Mamasela o acusou de não devolver dinheiro de uma dívida. Isso serviu como desculpa para forçá-lo a acompanhá-los. 

Eles o levaram a Roodepoort, onde encontraram Jan Coetzee e Vermeulen. A partir dali, eles seguiram a Zeerust e depois a uma fazenda nas vizinhanças onde Moabi foi interrogado sobre o paradeiro de sua irmã, Joyce Dipale. Durante o interrogatório, ele foi atacado a tal ponto que perdeu a consciência. Os ataques foram feitos por Nofomela, Mamasela e Vermeulen. Grobbelaar e Coetzee não participaram dos ataques. Ele não soube dizer se conseguiram informações que depois ajudaram no ataque a Joyce Dipale em Botswana. 

Em seguida, eles retornaram a Vlakplaas, e ele não sabe dizer o que aconteceu com Moabi Dipale depois disso. Ele não sabe se o outro foi detido ou solto. O Comitê declara que os requisitos para anistia foram cumpridos, e a anistia a Nofomela está CONCEDIDA no que diz respeito a todos os crimes e delitos que ocorreram diretamente a partir do sequestro e ataque a Moabi Dipale durante ou em torno de outubro de 1981."

CATHERINE HUNTER, detida, 1983

"Eu acho que os 'guardas' agiam sob rígidas instruções, então eles eram passivos, eram frios e faziam o mínimo possível. Tudo que eles faziam era passar adiante a comida. 

Não havia troca de olhares e para eles devia ser estranho que uma mulher branca fosse uma 'terrorista' porque muitos dos guardas eram mulheres brancas africâneres, então eu provavelmente não me encaixava em seu estereótipo e perfil de um terrorista."

                                          — CATHERINE HUNTER, detida, 1983
Cela de prisão em tinta verde, desenhada por Catherine Hunter enquanto estava detida.
JAKI SEROKE, detido, 1987

"A única coisa que faz você sobreviver é que nossa moral era elevada. Estávamos lutando por liberdade, democracia e era uma boa causa, então você dizia a si mesmo: aconteça o que acontecer comigo, pelo menos foi uma boa causa. Acho que isso foi a graça da salvação, isso acima de todo o resto."

                                                                                                                                              — JAKI SEROKE, detido, 1987

STANZA BOPAPE, morto em 5 de junho de 1988

Depois de ser submetido a repetidos choques elétricos, o ativista Stanza Bopape morreu "inesperadamente" de um ataque cardíaco. Com a preocupação de que mais uma morte em detenção causaria má impressão da polícia, alegou-se que Bopape havia escapado da custódia.

Entretanto, durante as audiências da Comissão de Verdade e Reconciliação em 1997, a polícia finalmente admitiu que Bopape havia morrido na detenção e que seu corpo fora jogado no rio Nkomati na fronteira com Moçambique.

O corpo de Stanza Bopape nunca foi encontrado.

30 de janeiro de 1990, CLAYTON SITHOLE morre em detenção

Apenas dois dias antes de Nelson Mandela ser libertado da prisão, Clayton Sithole, com 20 anos de idade, foi encontrado enforcado em sua cela. 

Antes de seu suicídio, Sithole tinha supostamente fornecido provas condenatórias de condutas criminosas de Winnie Mandela e sua filha Zinzi. Sithole era, na verdade, pai de um dos netos de Nelson Mandela.

Depois da libertação de Nelson Mandela em 1990, mudanças nas leis de segurança se difundiram por todo o país.

A detenção sem julgamento foi removida do código civil. Em 1991, a Divisão de Segurança foi essencialmente desmembrada, fundindo-se com a Divisão de Investigação Criminal em uma unidade conhecida como "Investigação e Combate ao Crime" e, em 1995, o Serviço de Polícia da África do Sul foi inaugurado.

Foram registradas oficialmente 75 mortes em detenção no relatório da Comissão de Verdade e Reconciliação. Apesar das claras evidências de que a polícia estava torturando os detidos, nem um policial sequer for responsabilizado pela morte de uma pessoa em detenção.

"As pessoas que estavam envolvidas naquelas coisas àquela altura, que hoje são marginalizadas com a culpa e a responsabilidade e a visibilidade pública, elas começam a buscar o apoio de seus ex-detidos porque os ex-detidos são as únicas pessoas que realmente entendem do que se trata.

É algo muito interessante, quando o criminoso busca em sua vítima o reconhecimento do que aconteceu. Eu acho que os detidos tinham mais noção do que as pessoas de fora sobre o que estava ocorrendo. Era uma batalha, e esse era o fio da navalha…'

              — DRA. ELIZABETH FLOYD, detida de 1981 a 1992 e namorada de Neil Aggett
Renomeação do Centro John Vorster, 1997. (Cortesia da SABC)

Em 1997, o busto de bronze de B.J. Vorster, foi removido do saguão do notório Centro John Vorster.

Ele foi renomeado como Delegacia Central de Polícia de Johannesburgo e agora funciona para combater o crime na cidade.

Apesar dessas mudanças, o interior lúgubre e o cheiro úmido continuam os mesmos. Os fantasmas de seus antigos ocupantes estão longe de desaparecer.

...isso é a memória da revolução e se ela sumir, não há sentido em contar a ninguém como era o lugar ... porque essas coisas são mostras do que fizeram para nos ferir, porque a maioria das pessoas foi ferida por esse sistema, e se você destrói coisas como essas, você perde uma grande parte da história...

                                                                                                                               — MOLEFE PHETO, detido, 1975
Entrada da Delegacia Central de Polícia de Johannesburgo, 2007
Créditos: história

Curator — Catherine Kennedy (SAHA)
Archivist — Debora Matthews (SAHA)
Photographs — Craig Matthew (Doxa Productions)
Archival video footage — South African Broadcasting Corporation (SABC)
Background — This exhibit is based on the interactive DVD, 'Between life and death: stories from John Vorster Square', developed by Doxa Productions on behalf of SAHA in 2007, as part of the SAHA / Sunday Times Heritage Project, funded by the Atlantic Philanthropies. Please see DVD for full research and image credits. For more information about the SAHA / Sunday Times Heritage Project, please visit sthp.saha.org.za 

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.
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