A ESPÉCIE MAIS PERIGOSA DO PLANETA

Museu do Amanhã

A vida envolve a Terra com sua diversidade e exuberância. Vai dos polos gelados ao calor das florestas tropicais, preenchendo terra, água e ar com milhões de espécies de animais, plantas, fungos e microrganismos. Mas, a biodiversidade global está em risco devido à ação humana predatória. No Antropoceno, nós nos tornamos a espécie mais perigosa do planeta. A Mata Atlântica é um exemplo disso.

PATRIMÔNIO DOS TRÓPICOS
A Mata Atlântica é um bioma de floresta tropical. A incidência de luz, a temperatura, a disponibilidade de água, o regime de chuvas e a composição do solo formam densos ecossistemas nessas florestas, onde se concentra boa parte da biodiversidade do planeta, incluindo metade das espécies da fauna e da flora existentes. Presente no Brasil, Paraguai e Argentina, a Mata Atlântica tem cerca de 163 mil km², um pouco mais de 12% da sua extensão original. Fragmentada e degradada pela ação humana, ela continua sendo um tesouro precioso de vida formado por diferentes tipos de ecossistemas. Na Mata Atlântica também estão bacias hidrográficas, rios e aquíferos.

A Mata Atlântica é formada por florestas ombrófilas, que têm chuvas o ano todo, e florestas estacionais, com uma estação chuvosa e outra seca. Quando ocorrem em grandes altitudes com baixas temperaturas, são estacionais deciduais, quando fazem a transição de áreas úmidas para secas são semideciduais.

Os campos de altitude da Mata Atlântica estão nos picos das montanhas da Serra do Mar, que vai do Rio de Janeiro ao norte de Santa Catarina, e da Serra da Mantiqueira, que também está no estado do Rio, além de São Paulo e Minas Gerais. Sua vegetação contém gramíneas e outras ervas, além de arbustos e pequenas árvores.

Os manguezais ocorrem nos solos do litoral, instáveis pela deposição constante de areias marinhas e fluviais, inclusive sendo muito influenciado pela salinidade. Devido à sua grande produção biológica, esses ecossistemas são economicamente importantes para comunidades tradicionais, como os caiçaras, que pescam muitas espécies de peixes e crustáceos que se reproduzem nesses locais.

A restinga é um ecossistema da Mata Atlântica que ocorre na região litorânea, sendo o mais ameaçado. Mais de 90% de sua vegetação original já foi alterada pela ação humana, mesmo que já tenha sido constatado um grande número de espécies que só existem neste ecossistema. No Rio de Janeiro, por exemplo, até 204 espécies de plantas vasculares são endêmicas da restinga.

LAR DE MILHARES DE ESPÉCIES
Milhares de espécies vivem na Mata Atlântica, além de nós. Entre as já conhecidas estão mais de 20 mil espécies de plantas, sendo que 8 mil são endêmicas, ou seja, só vivem neste bioma; 298 espécies de mamíferos, 200 de répteis, 370 de anfíbios, 350 de peixes, 992 de aves, além de insetos e outros animais invertebrados. Sua flora também é exuberante, com estimativas de cerca de 16 mil espécies. A Mata Atlântica cobre menos de 1% da superfície terrestre do planeta, mas abriga mais de 5% das espécies de vertebrados e cerca de 5% da flora mundial. Mas, muitas espécies que vivem nela estão em risco: das 633 espécies de animais ameaçadas de extinção no Brasil, 383 vivem neste na Mata Atlântica.

O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é uma espécie de primata que só ocorre na Mata Atlântica brasileira, no estado do Rio de Janeiro. O desmatamento, a fragmentação do habitat e o tráfico de animais silvestres quase o levaram à extinção. Hoje, entre os principais riscos que esses micos correm estão o comércio ilegal, o avanço da agricultura e as modificações no ambiente.

A onça-pintada (Panthera onca) é um mamífero carnívoro da família Felidae encontrada nas Américas, sendo o terceiro maior felino do mundo, após o tigre e o leão, e o maior do continente americano. No Brasil, a onça habita a Mata Atlântica, a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado e a Caatinga. Entre os principais perigos enfrentados pela onça estão o comércio ilegal, a expansão da agricultura e a modificação dos ecossistemas.

O quati (Nasua nasua), também chamado quati-de-bando ou de quati-de-cauda-anelada, é um mamífero que habita predominantemente a parte meridional da América Central, a América do Sul, incluindo a Mata Atlântica. Entre os principais perigos enfrentados pela espécie estão a expansão da agricultura e o uso em pesquisas biológicas.

O pau-brasil (Caesalpinia echinata), também conhecido como arabutã, ibirapiranga, ibirapitá, ibirapitanga, orabutã, é uma árvore leguminosa endêmica da Mata Atlântica. Explorada desde o século XV para o comércio internacional, o pau-brasil se tornou um símbolo do desmatamento no país e da extração predatória dos recursos da floresta tropical.

Grande parte da população brasileira vive na Mata Atlântica, ainda que seja no território desmatado para construção de cidades. Mas as florestas também abrigam uma grande diversidade cultural formada ao longo de séculos. É o caso dos povos indígenas, caiçaras e quilombolas. Mas, com o desmatamento, muitos desses povos também foram expulsos dos seus territórios originais, assim como o mico-leão-dourado, a onça ou o quati.

ÚNICOS E FRÁGEIS
As altas taxas de extinção de espécies indicam que a biodiversidade global corre perigo. A organização Conservação Internacional mantém uma lista de regiões do planeta que concentram a maior parte da biodiversidade global, mas que, no entanto, estão sendo ameaçadas pela pressão humana - os chamados hotspots de biodiversidade. Ao todo, são 35 regiões, incluindo a Mata Atlântica, espalhadas pela América, Caribe, Europa, África, Ásia e Oceania, a maior parte na região dos trópicos. Os hotspots reúnem cerca de 60% do patrimônio biológico global em apenas 2,3% da superfície do planeta. Mais da metade das espécies de plantas e quase a metade das espécies de aves, mamíferos, répteis e anfíbios vivem apenas nestes locais. Para ser um hotspot a região deve ter 30% ou menos de sua vegetação original, e, no entanto, abrigar ao menos 1.500 espécies de plantas que só vivem nesses ambientes. No Brasil, o Cerrado também faz parte dessa lista de locais insubstituíveis e em perigo.
UMA AMEAÇA EM COMUM
Se no passado as grandes extinções ocorreram por causa de eventos naturais, nos últimos séculos a redução da biodiversidade é provocada pela ação humana. Diferente do meteoro que colidiu com a Terra e iniciando a extinção dos dinossauros, nosso impacto é cotidiano: degradamos habitats, poluímos, esgotamos recursos naturais, mudamos a temperatura do planeta. A redução da biodiversidade global começou a se acentuar com as grandes navegações e a expansão comercial, no século XV, quando a caça indiscriminada, o desmatamento e a introdução de plantas e animais invasores causaram o desaparecimento de muitas espécies. Desde então, a biodiversidade continuou sendo pressionada, fazendo com que a taxa de extinção de espécies provocada por nós, humanos, se tornasse mil vezes maior do que aquela que provocada pela própria natureza nos dias atuais.
PRIMEIROS ATAQUES A MATA ATLÂNTICA
No século XV, os europeus conheceram a América e suas veredas de florestas tropicais a partir das grandes navegações. Mas, a Mata Atlântica já era ocupada por humanos há mais de 10 mil anos. Originalmente, a Mata Atlântica abrangia uma área equivalente a 1.315.460 km2 - extensão maior do que muitos países, por exemplo, França e Espanha – se espalhando do norte ao sul do país, predominantemente pelo litoral, embora também avançasse para o interior do continente. Mas foi com a chegada dos europeus deu início a transformação da paisagem com a exploração da mata para fins econômicos e para construção dos primeiros povoamentos semelhantes às cidades europeias. Primeiro foi a extração de pau-brasil, cuja essência corante extraída da madeira era utilizada para tingimento de tecidos e na produção de tintas que atendiam ao comércio europeu. Em seguida, outros ciclos econômicos, como o da cana-de-açúcar, café e ouro, continuaram com o desmatamento por séculos a fio degradando o habitat de milhares de espécies.
DERRUBAR PARA CONSTRUIR
No século XX, a Mata Atlântica teve as maiores taxas de desmatamento, acompanhando o aumento da urbanização, da industrialização e da própria população, o que levou ao aumento da exploração dos recursos naturais. As demandas por energia também aumentaram e, com ela, o desmatamento dos remanescentes da floresta continuaram nos meados do século XX com a construção de hidrelétricas, que demandaram o corte de árvores no entorno da usina e a inundação de vastas extensões de floresta. Na virada do milênio, os ataques a Mata Atlântica continuaram ainda pela expansão das fronteiras do agronegócio, que ocupou grandes extensões de terra para a mineração, a pecuária, a agricultura, incluindo o cultivo de monoculturas para exportação.
A MATA POR UM TRIZ
Os dados sobre o desmatamento da Mata Atlântica nos últimos trinta anos foram divulgados pela fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O estudo aponta um desmatamento de 184 km² sobre o bioma em 2014 e 2015, incluindo um desmatamento de 1,69 km2 decorrentes do rompimento da barragem de rejeitos de mineração do Fundão, na cidade de Mariana, em Minas Gerais, que provocou um grande desastre ambiental no rio Doce. Entre 2010 e 2015, a taxa anual variou entre 140 km2 e 240 km2. Antes era pior. Entre 1985 e 1995, esta taxa esteve acima de 1.000 km2. De 1995 a 2005, caiu de 891 km2 para 349 km2. E em 2010 esteve acima de 151 km2. O resultado, não só destas décadas, mas de pouco mais de quinhentos anos de desmatamento é que a Mata Atlântica no Brasil, que originalmente ocupava boa parte do território, hoje é fragmentada e reduzida às escarpas da Serra do Mar.
MORAMOS NA MATA
A vegetação original foi substituída por cidades, campos de cultivo e fábricas. Espalhada por 17, dos 26 estados do país, o que muitas vezes não se percebe é que boa parte dos brasileiros mora em meio a Mata Atlântica, ou no que sobrou dela. Mais exatamente, dos mais de 200 milhões de brasileiros, são 145 milhões, distribuídos em 3.429 municípios, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Entre todos esses municípios estão as duas maiores cidades brasileiras. São Paulo tem mais de 11 milhões de habitantes e uma área de total de mais de 1.500 km2. Destes, um pouco mais de 267 km2 são de Mata Atlântica, o que representa cerca de 17% do município. Já o Rio de Janeiro tem mais de 6 milhões de habitantes e uma área de mais de 1.100 km2, dos quais 184 km2 são de Mata Atlântica, algo em torno de 15,51% do município. Onde hoje são prédios altos e avenidas congestionadas, no passado era floresta.
VIDA QUE GERA MAIS VIDA
A Mata Atlântica oferece recursos indispensáveis a vida dos brasileiros. Entre eles estão o auxílio na regulação do clima, dos mananciais, da fertilidade do solo, além da purificação do ar. A floresta contribui também para a proteção do solo, de rios e nascentes, favorecendo o abastecimento de água nas cidades. Inclusive, a estimativa é que 100 milhões de brasileiros sejam beneficiados com os recursos hídricos da Mata Atlântica. Além disso, ela ainda é importante para a economia - quando não predatória - incluindo a pesca, o extrativismo, a geração de energia e o turismo.
CADA PEDAÇO DE MATA CONTA
A cobertura de áreas protegidas na Mata Atlântica avançou nos últimos anos. Hoje há mais de 700 unidades de conservação distribuídas por 16 dos 17 estados brasileiros, sendo que alguns se tornaram grandes parques nacionais. A soma dessas unidades com terras indígenas e áreas de interstício podem criar verdadeiros corredores ecológicos, capazes de proteger a natureza, reduzindo ou prevenindo a fragmentação das florestas existentes por meio da conexão desse mosaico de Mata Atlântica que existe hoje. Além dos desafios a proteção e a conservação da biodiversidade, ainda é necessário encontrar uma solução sustentável de uso dos recursos naturais da Mata Atlântica e de recuperação dos seus ecossistemas. Esses são desafios que todos nós devemos participar, para o bem da diversidade da vida do planeta.

Os parques nacionais conservam a Mata Atlântica, possibilitando a preservação dos ecossistemas e o seu uso sustentável, como, por exemplo, para o ecoturismo. Ao todo são 24 parques nacionais de Mata Atlântica. Um dos mais famosos é o Parque Nacional do Iguaçu, no estado do Paraná, que tem um dos mais espetaculares conjuntos de cataratas da Terra, as Cataratas do Iguaçu. Outros parques famosos da Mata Atlântica são o de Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, que foi o primeiro parque nacional brasileiro, e o da Tijuca, no Rio de Janeiro, que é o parque mais visitado do Brasil.

Créditos: história

Presidente do Conselho de Administração do IDG: Fred Arruda
Diretor Presidente: Ricardo Piquet
Curador Geral: Luiz Alberto Oliveira
Diretor de Conteúdo: Alfredo Tolmasquim
Diretor de Operações & Finanças: Henrique Oliveira
Diretor de Desenvolvimento de Públicos: Alexandre Fernandes
Diretor de Planejamento & Gestão: Vinícius Capillé
Diretora Captação de Recursos: Renata Salles
Gerente de Exposições e Observatório do Amanhã: Leonardo Menezes
Pesquisa e Redação: Davi Bonela
Edição de textos: Emanuel Alencar
Fotos: Cristian Dimittri e imagens sob creative commons

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