O escritor Carlos Monsiváis dedicou um texto a Frida Kahlo no centenário do nascimento da artista, em 2007, apresentado aqui pelo Museo del Estanquillo.

F de Frida
Inútil opor-se à canonização laica já que, em última análise, é a única maneira de abordar uma obra sem esquecer a pessoa que a criou. Aqui, as ideias de "mitificar" e "desmitificar" são critérios um tanto estranhos à mistura da estética e do vital. Frida Kahlo é um ícone, uma lenda, um mito e uma poderosa realidade artística. Ela é a Santa Joana de uma pequena sociedade cheia de personagens extremos; a virgem dos abortos; a Eva mantida no paraíso infernal da mesa cirúrgica, a amante que pinta ou tatua na testa o rosto de seu amado inconcebível. Frida representa uma era da arte nacional mexicana e a transcende. Ela é o símbolo que "se basta por si só"; a Frida pintada por Frida, produzida por Frida para preencher o redor com Fridas.

Aqui, vida e obra são uma coisa só. As obras de Frida são uma autobiografia detalhada na qual ela derrama desespero e angústia estritamente reais de uma forma devocional totalmente própria: um testemunho, uma fantasia naturalista (pegar ou largar), alegórica e simples ao ponto do transbordamento barroco. E,do modo dela, a agonia da obra da artista serve como critério estético: a alquimia do sofrimento também gera beleza.

Um F que não se vai
Quando apresentado às muitas fotos e reproduções de Frida Kahlo, mesmo um espectador medianamente informado sabe o que esperar: elas são as expressões complementares de uma criadora imensa, marcada por dor e turbulência; as representações de uma grande protagonista de um lugar próprio na história, décadas atrás. Quer se manifeste ou não, qualquer pessoa que olhe para as fotos, pinturas a óleo ou desenhos da artista certamente percebe as conexões entre Frida e as observações individuais dela, entre Frida e sua metamorfose industrial.

Será que já vimos demais dessa grande artista; esse símbolo de dissidência moral e radicalismo político que pinta os frutos da terra e da fisiologia e derrama sonhos e sofrimentos nos autorretratos, as ousadias do casal cósmico e cenas em que os elementos funerários fazem parte do caos cotidiano? Claro que sim, e, no entanto, aparentemente não, porque as "ressurreições" de Frida derrubam qualquer sensação de repetição. Independentemente do que se diga, as imagens de Frida podem ser encontradas em todos os lugares no dilúvio de biografias, capas de livros e revistas, calendários, bonecas, fantoches, peças, filmes, programas de televisão, camisetas, cartões-postais, pinturas que incluem referências a obras da artista, análises pós-modernas, declarações de adoração de Madonna ("Frida é a maior inspiração da minha vida"), impressionantes preços de venda de itens em leilões... a lista é enorme. Frida é adotada por feministas em todo o mundo, mexicanos-americanos, visitantes e turistas de locais icônicos e fãs de personalidades singulares nesta era de reprodução em massa. Ela também é um lembrete excepcional da forma como a arte é transformada em algo mundano.

O F em sofrimento: "Você, como uma janela açoitada por uma tempestade…"
O verso de Pellicer resume admiravelmente a experiência de Frida, vivendo de cirurgia em cirurgia e de martírio em martírio, superando fragilidades e recaindo nelas, transtornada pela doença: a outra visão dramática do mundo dela. Como Frida, racional e irracionalmente, vê suas idas ao hospital e às mesas cirúrgicas por meio dos sentidos e sentimentos? Ela cultiva um outro grupo vital de amigos entre os médicos que a aconselham, cuidam dela, a sujeitam a exames invasivos, prescrevem e mudam sua medicação, especulam e sugerem. Indefesa e angustiada, mas ainda assim corajosa, Frida pintou a si mesma com o médico ao seu lado. Sua pintura de 1945, "Sem esperança", revela o quanto a própria provação significou para ela.

Embora Frida tenha vivido uma existência extrema, em guerra com sua fisicalidade tão amada, seus amigos médicos lhe ofereceram um terceiro espaço criativo e didático: a diferença diária entre vida e morte. Por horas e horas, entre a agravação dos problemas circulatórios, cirurgia no pé direito e coluna vertebral, amputações e enxertos, Frida experimentou o delírio mais mortificante, muitas vezes incapaz de dizer se estava acordada ou em um pesadelo. A pintura que retrata Frida ao lado do retrato do amigo Dr. Farill condensa essa devastadora experiência. A paleta que ela usa é o próprio coração, e os pincéis se assemelham a bisturis sangrentos: símbolos óbvios que são transformados pela veracidade que transmitem. O médico, olhando da serenidade da pintura, é o protetor. O relacionamento amigável entre eles não mitiga a dor, mas a torna compreensível em algum nível.

F de Frida e Diego: o pequeno cervo e o sapo
Frida e Diego. Diego e Frida. Além dos processos judiciais, decepções, reconciliação e profissões mútuas de devoção, Kahlo e Rivera viveram uma grande incompatibilidade harmoniosa, rivalizada no século XX apenas por María Félix e Agustín Lara. Aqui estão Frida e Diego, a gentileza e a montanha, a ternura torturada e um monumento a si mesmos. Nas muitas versões dessas fotografias, o casal assume um papel quase fundamental. Eles são como o Adão e Eva do nacionalismo revolucionário, a arte radical, a vida vivida ao máximo ou a necessidade de casais icônicos, e esse absurdo não está longe da realidade.

Aos 42 anos e com fama aparentemente ilimitada, o Diego controverso, rotundo e onipresente foi uma inspiração importante no "Renascimento mexicano". Ele atraiu jornalistas e turistas, bem como a fobia (admiradora) da burguesia, que associou o comunismo com práticas deploráveis e resultados reprováveis. Rivera retornou triunfante da Europa, pintou murais no edifício da Escola Nacional Preparatória, declarou-se bolchevique (pior do que um camponês revolucionário) e recuperou a grandeza agressiva da revolução pela arte da pintura. Diego transbordava histórias e política; era controverso e muitas vezes era notícia com seus murais, pinturas de cavalete, mentiras, relacionamentos com celebridades e escândalos em torno do trabalho, da vida e do amor pelo escândalo.

A notoriedade de Diego não foi resultado da procura pela publicidade, mas algo mais simples e, mesmo assim, mais complexo: a certeza de que ele era o protagonista, porque era isso o que faltava para ele. A natureza despreocupada do artista chamava a atenção sobre ele aonde quer que fosse e também se refletia no exterior. Ele aceitou ter uma multidão ao seu redor porque a discrição e o sigilo eram impossíveis para ele. Mesmo sem a extrema falta de privacidade de Diego, Frida era, por sua vez, um símbolo notório da capital relativamente pequena daquele país supostamente novo. As características da artista eram singulares: uma mulher inválida que criava um burburinho de agitação ao redor de si; uma pintora cujas obras seduziam sem a interferência da abordagem estética; uma mulher radicalizada por sensações e intuição; uma nacionalista que plantou sentimentos patrióticos firmemente em uma utopia; uma mulher de aparência comum e hábitos extremamente heterodoxos.

O F de mexicanidade
"Árvore da esperança, mantenha-se firme". Frida vestia-se e cobria-se com brincos em forma de templos, labirintos ou jardins suspensos em miniatura, lindos xales e anéis de inspiração pré-hispânica que pareciam ter vindo de um museu de ourives. Adorava especialmente vestidos de tehuana, e por um bom motivo. Por um longo tempo, e corroborado pelos testemunhos de numerosos viajantes, o Istmo de Tehuantepec representou um mito lendário: o do Paraíso Perdido e um reino de inocência, frugalidade e exuberância. No vestido de tehuana, ela era uma mulher forte da Bíblia e uma matriarca, sem hipocrisia e transformando a sexualidade em algo normal, em um mundo que nem sequer conseguia falar sobre isso.

Por meio da vestimenta, Frida se fez uma verdadeira proclamação com anáguas das "cores dos golfinhos", ponchos huipil tradicionais adornados com fio dourado e tranças decoradas em tributo à arquitetura fantástica com fitas coloridas e brincos.
Com uma abordagem simples e estudada para a exuberância das roupas, Frida queria tornar visível a essência nacional destruída pela modernidade, devolvendo o significado cotidiano a uma lealdade geracional que as cidades não mais permitiam.
Ela acumulou tradições em todo o corpo, mas a tradição que é sustentada como um desafio é interrompida e, sem o contexto que a tornou possível e necessária, começa tudo de novo.

F de fotografia
"Se você olhar de perto, Frida Kahlo se parecia com as fotos". Nos anos que se seguiram à sua morte, Frida recebeu o tipo de reconhecimento que geralmente precede o esquecimento. As pinturas dela não foram vendidas por muito, pouco foi publicado a respeito do trabalho da artista e muitas vezes ela foi julgada por aqueles que destacavam a ingenuidade da sua obra e sua extraordinária personalidade. Foi assim que, de repente, na década de 1980, a grande admiração começou. Tudo veio de uma vez: os detalhes da vida amorosa, as exposições (mais frequentes no exterior do que no México), o filme de Paul Leduc com Ofelia Medina, o filme com Salma Hayek, o fluxo de visitantes à Casa Azul em Coyoacán, os livros de Raquel Tibol, Marta Zamora, Hayden Herrera e Rauda Jamís e as obras completas reunidas por Helga Prignitz-Pada, Salomon Grimberg e Andrea Kettenman. Chegou-se rapidamente a um acordo: Frida era muito mais do que uma figura única e artista inesperada que pintou obsessivamente autorretratos na falta de outro assunto. Frida era um verdadeiro retrato da época e, ainda assim, seu trabalho transcende os retratos da era.

Nessa enxurrada de admiração, uma coisa ficou clara: o símbolo de Frida era deslumbrantemente moderno e relevante porque não se restringia às pinturas (embora muitas delas tenham sido reproduzidas) ou à fé no socialismo, à condição feminina ou ao amor de uma figura venerada. Ele incluía tudo isso.
No auge da Fridamania, Frida era um símbolo de si mesma: um rosto no qual você acredita que viu uma aparição questionando suas próprias origens milagrosas; a junção de pincéis com o amor à vida na mesa cirúrgica. Frida se refere a Frida, e essa criação circular a torna única. Ela é a estátua de si mesma, sua própria filha; a propagação de traços únicos em uma era de reprodução em massa.

F de Fridamania
Fridamania é uma tendência, mas uma tendência que Frida Kahlo (e as respectivas obra, ideias e vida) transcende. Os artistas que usam Frida Kahlo como inspiração podem ou não adaptá-la a uma perspectiva pós-moderna ou tratá-la como um recurso intertextual. Mas, ao usá-la, eles estão louvando o destemor com que a artista aproveitou a representação da dor e a resistência a ela a partir do misticismo, bem como a audaz apropriação que Frida fez da adoração irônica do misticismo na tradição popular. Fridamania é um culto e um negócio cujo providencialismo continua a provar o óbvio: os santos desta época não virão mais das virgens, defendidas à custa de um salto no escuro, ou atos celestes que curam da mesma forma doentes e saudáveis. Eles virão predominantemente de vidas com uma mistura orgânica de arte, resistência à opressão, autodestruição ocasional, entrega desinteressada aos outros, originalidade e radicalismo existencial. Amante santa, bissexual, delirante e promíscua, Frida Kahlo abre caminho entre exclamações, avaliações e tendências e permanece ilesa, assim como estava no início, dividida entre a dor e a necessidade de transcender a tristeza no turbilhão de sacrifícios de amor e pintura.

A obra e o comportamento de Frida, que causaram enorme comoção na sociedade da época (um círculo que não era dos mais amplos e os via como pecaminosos), acompanharam o uso artístico da personalidade dela. Diego pintou Frida, que já era épica por si só, nos murais dele. Em "Sonho de uma tarde de domingo na Alameda Central", Frida já faz parte da história mexicana. E os autorretratos de Frida comprovam a longevidade dela. O raciocínio de Frida poderia ter sido o seguinte: "Eu me pinto, portanto, eu existo. Eu me pinto, para que o tempo me respeite além do meu próprio sofrimento. Eu me pinto, e as pinturas se tornam meu espelho e a extensão e metamorfose da minha imagem."

O F em um texto acabado
Frida em murais, Frida nas pinturas, Frida em histórias. Essas são as sementes do tipo de explosão mitológica que só pode ocorrer quando vários elementos convergem: o status de "mulher única" adotado pelo feminismo; a derrota histórica do stalinismo e do maoismo (os dois grandes erros de Frida) e o resgate de símbolos e repetições que preservam uma era de extraordinária originalidade, inalterada. Não importa a combinação, Frida permanece. Seria a tragédia o fato de que, depois de tanto tempo sobrevivendo a si mesma, ela tornou-se o oposto: o espírito de continuidade na vida e na arte e um único personagem que abriga uma multidão de outros?
Créditos: história

Obras realizadas por Teodoro Torres y Susana Navarro, Premio Nacional de Ciencias y Artes 2007

Texto: Carlos Monsiváis

Créditos: todas as mídias
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