20 Anos do Grupo de Estudos de Curadoria

RICARDO RESENDE

O que é gravura e o que é escultura? O que é matriz e o que é impressão? Uma matriz não poderia também ser considerada uma escultura? Essas questões já foram largamente discutidas em mostras internacionais recentes.

No caso desta exposição, a idéia surgiu em função do próprio acervo do MAM-SP. Nele, há númeras matrizes que podem ser percebidas como peças escultóricas. O Museu possui uma coleção de aproximadamente duzentas matrizes doadas pelo Núcleo de Gravura de São Paulo e pelo ateliê Impressão Atual, além de uma outra, em formação, resultado do Clube da Gravura do MAM, que funciona desde 1986.

A primeira coleção é composta por obras de artistas como Lívio Abramo, Anna Letycia Quadros e outros não tão conhecidos como gravadores, como Flávio de Carvalho, lg Samson Flexor e Tarsila do Amaral. Algumas dessas matrizes chamaram-me a atenção por deixarem muitas vezes transparecer a força do gesto do artista desprendido sobre a matéria bruta, pedaço de madeira ou metal. O resultado são sulcos, rasgos, riscos que evidenciam a rigidez do material e denotam o esforço físico exigido para a execução da obra. Destituídas de sua função original enquanto matrizes, essas peças ganham autonomia e são expostas, nesta mostra, como esculturas.

Já a outra coleção - a do Clube da Gravura - vem sendo formada por artistas contemporêneos comprometidos com a experimentação, que encontraram nessa técnica uma nova possibilidade de alargamento e difusão de seus trabalhos. A partir da versatilidade da gravura, eles inventam uma multiplicidade de usos: livros de artistas, modelagem ou múltiplos, ready-made, fotogravura etc.

Nas mais recentes "gravuras” do Clube, percebe-se uma nítida tendência a tridimensionalidade, que subverte a idéia tradicional da gravura enquanto imagem impressa. Como exemplos dessa ruptura com a gravura tradicional, temos os trabalhos de Elias Muradi, Iran do Espírito Santo, Claudio Mubarac, Marco Buti e Marco Paulo Rolla. Esse universo abre-se, então, para a questão dos múltiplos, categoria de obra de arte A que ocupa um certo lugar entre a escultura e a gravura. Aqui, somos remetidos a Marcel Duchamp e ao conceito de ready-made, produtos industrializados ou produzidos em série a partir de um mesmo molde.

Nessa linha, encontram-se as obras de Nazareth Pacheco, Lina Kim e Regina Sposatti, artistas que, ao juntar materiais industrializados ou produzi-los em série, os transformam em instalação - no caso de Pacheco - e em esculturas no caso de Kim e Sposatti.

As matrizes de Rosana Monnerat também constituem uma instalação, mesmo que a artista não as reconheça como tal. Nada mais são que matrizes, já dispensadas e acumuladas em uma caixa, deixando entrever, na organização casual das peças, a intimidade do seu processo criativo.

Aprofundando mais a questão, temos a importante participação da artista gravadora Laurita Salles, que vem pesquisando essa linguagem incansavelmente. Atualmente, a artista está envolvida com sua dissertação de mestrado, trabalhando em pequenas empresas de gravação industrial, fornecedoras de peças de plástico texturizados que são utilizados na indústria automobilística e de equipamentos eletrônicos. A gravura confunde-se com a matriz, transformando-se numa escultura cilíndrica de cobre gravado, embora a artista afirme tratar-se de uma gravura.

Por fim, Rosângela Dorazio, por meio de duas peças, talvez resuma o enfoque da exposição. Sua escultura nos leva aos primórdios da impressão - termo mais genérico para a gravura -, aos ”desenhos" rupestres gravados nas cavernas, ou mesmo ao padre Anchieta riscando, abrindo sulcos na areia da praia para ensinar religião no Brasil colônia. Em uma outra obra, formada por três peças com o formato de matrizes de metal corroídas que nunca chegaram a ser matrizes de fato, isto é, fonte de reprodução de imagens gravadas -, Rosângela Dorazio simplesmente transforma as ”matrizes” em escultura. Mais um desafio no amplo espectro de possibilidades que essa modalidade é capaz de oferecer.

Créditos: história

MAM-SP Sala Paulo Figueiredo
28 de abril a 10 de maio de 1998

OBRAS EXPOSTAS

Cláudio Mubarac
(Rio Claro, SP, 1959)
Pequena suíte sobre E O., 1996
Ponta seca e bu ril sobre chumbo, 17,5 x 52,7 em
Doação do artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM-SP
Pequena suíte sobre E. O., 1996
Ponta seca, buril e água-tinta sobre chumbo, 17,5 x 52,7 cm
Doação do artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM-SP

Elias Muradi (Mogi Mirim, SP, 1963)
Genuflexóno, 1998
Litografia e liga de metal cromado, 192 x 72x 90cm
Doação do artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM-SP

Iran do Espírito Santo
(Macaca, SP, 1963)
Still, 1987/97
Serigrafia sobre madeira, 15 x 21,4x 5,3 cm
Doação do artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM•SP

Laurita Salles
(São Paulo, SP, 1952)
Sem título, 1998
Latão gravado, 6,5 x 50 x 6,5 cm
Aquisição MAM-SP

Lina Kim
(São Paulo, SP, 1965)
Jogo, 1995
Chumbo, 43 x 40 x 40 cm
Doação do artista

Marcela Hara
(São Paulo, SP, 1973)
Visual refletion murders, 1996
Fotogravura, vidro e ferro, 15 x 24 cm (cada doze peças)
Coleção artista

Marco Buti
(Em poli, Itália, 1953)
Sem tftulo, 1997
Serigrafla sobre ferro, 40 x 43 cm
Doação do artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM-SP

Marco Paulo Rolla
(São Domingos do Prata, MG, 1967)
Confortávels, 1998
Serigrafia cm cores e plástico moldado em poliestireno (vaccum forrn), 65 x 65 x 2 cm
Doação do artista por intermédio do Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM-SP

Regina Sposatti
(São Paulo, SP, 1975)
Bloco-ploc, 1997
Empilhamento de chicletes não mascados, 30 x 40 cm
Coleção artista

Rosana Monnerat
(Rio de Janeiro, RJ, 1967)
Sem título, s. d.
Caixa de metal com matrizes de cobre, dimensões variáveis
Coleção artista

Rosângela Dorazio
(Aragua ri, MG, 1963)
Pleno, 1997
Caixa de madeira e gesso, 100 x 111 x37cm
Doação artista
Sem título, 1997
Chapa de cobre corroído, 42x90x13cm
Doação artista

Créditos: todas as mídias
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