O Paço, a praça e o morro

Instituto Moreira Salles

Composta por 200 imagens de grandes mestres da fotografia brasileira e de fotógrafos anônimos e amadores que registraram o centro do Rio de Janeiro, a exposição O Paço, a praça e o morro reúne trabalhos que construíram a representação fotográfica da cidade durante o Segundo Reinado e as primeiras décadas da República. Realizar esta exposição no próprio Paço Imperial permite que se lance um olhar privilegiado sobre este referencial único na cidade. Os registros fotográficos aqui reunidos são uma oportunidade de se confrontar in loco a evolução histórica de uma importante região da cidade, constituída por este edifício e seu entorno − a praça ou largo do Paço, hoje praça xv de Novembro, e o morro do Castelo, marco fundador do Rio de Janeiro, removido há quase um século da paisagem carioca. Núcleo da vida econômica, social e política do Rio nos seus primeiros séculos de ocupação, o Paço Imperial, a praça xv e o morro do Castelo moldaram o crescimento da cidade a partir de sua configuração geográfica e urbana até a virada para o século xx. Nesse momento, o Centro sofreu grandes intervenções associadas às reformas realizadas pelo prefeito Pereira Passos. Os dois principais marcos dessa transformação foram a abertura da Avenida Central e o início do “bota-abaixo”, processo de expansão, valoração, modernização e gentrificação urbana que levaria ao total desmonte do morro do Castelo no final da década de 1920. A exposição apresenta imagens registradas no período anterior a essas mudanças e durante a evolução das reformas urbanas do início do século xx, documentadas por fotógrafos como Marc Ferrez, Georges Leuzinger, Augusto Malta e Guilherme Santos, entre outros. Ferrez e Malta construíram com seus trabalhos o principal legado da fotografia para a memória do Rio de Janeiro nesse período. Por meio destas imagens podemos acompanhar o processo de transformação da cidade desde a chegada da daguerreotipia em 1840, pouco antes da posse, no ano seguinte, de d. Pedro ii como imperador, aos 15 anos, até o final da década de 1920, momento de decisivas mudanças econômicas, sociais e políticas que culminariam na revolução de 1930 e lançariam o país, e especialmente sua capital, na modernidade e na contemporaneidade. As profundas e constantes alterações em sua área central nos últimos 120 anos são fundamentais para se compreender o Rio de Janeiro dos dias de hoje. No ano em que a cidade recebe um dos mais importantes eventos mundiais, a Olimpíada de 2016, revisitar a antiga cidade em formação por meio do olhar de grandes nomes da fotografia brasileira é também um convite à imersão na paisagem e na vida desta região que novamente passa por um processo de revitalização e transformação. O Instituto Moreira Salles agradece ao Paço Imperial a oportunidade de mostrar seu acervo fotográfico referente à história da cidade do Rio de Janeiro neste espaço tão importante. Esta mostra é um desdobramento da exposição Rio: primeiras poses, realizada pelo ims ao longo de 2015 em seu centro cultural na Gávea, agora com um olhar dirigido especificamente ao território onde a cidade nasceu e a partir do qual se desenvolveu em direção à sua configuração atual de grande metrópole, reconhecida internacionalmente como sítio urbano privilegiado pela conjunção única de paisagem natural e cultural.

O Paço e a Praça
Na articulação entre a Rua da Misericórdia e a Rua Direita ficava o terreno que deu origem à Praça XV. A dimensão do antigo Largo do Carmo era bem maior que a de hoje: a largura correspondia à distancia entre a Igreja de São José e o Arco do Teles. Sua profundidade se restringia à frente do Paço Imperial. Com os aterros sobre o espelho d’água da Baía de Guanabara, o cais avançou até a linha da frente do Chafariz de Mestre Valentim. A partir do século XVI, as principais ordens religiosas construíram na região igrejas e colégios, fazendo a ligação do Morro do Castelo, onde estavam os jesuítas, com o Mosteiro de São Bento. A arquitetura civil constituía-se de casas geminadas térreas ou sobrados erguidos em terrenos estreitos. No século XVIII surgem edificações não-religiosas marcantes, que até hoje ocupam a Praça XV: o Paço Real e o conjunto do Arco do Teles, onde havia lojas de pequenos mercadores. Ao lado do Paço, ficava a Cadeia Velha, de onde saiu para ser enforcado o inconfidente Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em 1792. Quando o Morro do Castelo perde importância política e geográfica, a Praça XV se transforma no centro da cidade e do país. Sobretudo com a transferência da sede do Vice-Reinado de Salvador para o Rio, em 1763, consolidando o porto carioca como rota da produção colonial. A mando do governador Gomes Freire, uma grande reforma transformou os prédios que abrigavam a Casa da Moeda e o armazém da Fazenda Real na residência dos governadores e vice-reis. Surgiu o Paço, em 1743. Na administração do vice-rei Dom Luís de Vasconcelos e Souza (1779-1790), mais obras de avanço sobre o mar foram realizadas. O antigo chafariz deu lugar ao projetado por Mestre Valentim, à beira do novo cais. A chegada da família real e da corte portuguesa, em 1808, selou o destino da praça como sede do poder. No Paço, agora Real, instalou-se Dom João e família e, nos arredores, os súditos mais importantes. Também foi residência dos imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II. O prédio ganhou três passadiços: ligando o palácio à cadeia, onde ficavam os serviçais; ao Convento do Carmo; e, em 1856, o Convento à Capela Real. Às vésperas da Proclamação da Independência, Dom Pedro, de uma das janelas do Paço, em janeiro de 1822, protagonizou o Dia do Fico. Também ali, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. O antigo Largo do Carmo recebeu dos vereadores o nome de Pedro II, em 1870. Com a proclamação da República, em 1889, o logradouro virou Praça XV de Novembro, para marcar a data do início do novo regime. No período republicano, o Paço abrigou a sede dos Correios e Telégrafos, até ser ocupado pelo centro cultural Paço Imperial, onde se realiza esta exposição.
O Morro do Castelo
Fundada a cidade em 1565, no sopé do Morro Cara de Cão (atual Urca), o núcleo inicial do Rio de Janeiro transferiu-se, dois anos depois, para o alto do Morro do Castelo. Depois da posse do território, com a expulsão dos franceses e dos tupinambás, seus aliados, o comandante Mem de Sá, governador-geral do Brasil, escolheu o ponto estratégico, de onde era possível avistar a entrada da barra e quase toda a extensão da Baía de Guanabara. Primeiramente, foi chamado de Morro do Descanso. No topo, o governador mandou construir prédios públicos de pedra e cal: o armazém da Fazenda Real, a sede da Câmara de Vereadores, a casa do governador, a igreja da Sé dedicada a São Sebastião, a cadeia. As tropas portuguesas tiveram a presença da Companhia de Jesus, nas figuras dos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, que ali levantaram uma casa de moradia e o primeiro colégio da cidade. Logo passaria a abrigar outra igreja, sob a proteção de santo Inácio de Loyola. Sinuoso no formato, com altura de 63 metros, o morro ocupava uma área 184.800 metros quadrados. Para sua defesa foi construída uma muralha, além da Fortaleza de São Januário. Nessa época o morro passou a ser chamado de São Januário. O nome Castelo, pelo qual ficou mais conhecido, também é uma referência à fortificação. Tinha três ladeiras: a da Misericórdia, da qual ainda resta um pedaço, junto à igreja de N.S. de Bonsucesso; a do Poço do Porteiro (que teve os nomes de Ladeira da Sé Velha e Ladeira do Colégio, depois da construção do Seminário de São José), onde hoje ficam os fundos do Museu Nacional de Belas Artes; e a do Castelo, que começava onde atualmente localiza-se o edifício-garagem. Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, o colégio foi transformado em hospital militar. Nas bases de nova igreja não construída, instalado o Observatório Nacional. Havia um posto de sinais para a entrada de embarcações no porto, mais tarde substituído por um telégrafo. A partir do século XVII, a colina histórica perdeu importância política e geográfica. O novo centro passou a ser as imediações da Praça XV, onde se instalou um crescente comércio marítimo, e, em 1743, foi inaugurada a nova Casa dos Governadores, futuro Paço Imperial. Com a desculpa de melhor ventilar e expandir a cidade, livrando-a de doenças, o Morro do Castelo teve um fim cruel. Durante a construção da Avenida Rio Branco, iniciada em 1904, dele foi derrubada uma parte. Em 1920, o arrasamento total teve início. Em novembro de 1922 desapareceram a igreja e o colégio que formavam o complexo jesuítico. Quatro mil pessoas ficaram desalojadas. Em seu lugar, surgiu a Esplanada do Castelo, onde foi realizada a moderna Exposição do Centenário da Independência, com os destroços do morro ainda à vista. Em final dos anos 1920, todos os trechos remanescentes foram integralmente removidos e, a partir de então, a Esplanada passa a receber diversos prédios públicos, como o Ministério da Saúde e Educação, marco da arquitetura moderna no Brasil, e os edifícios do Ministério da Fazenda e do Trabalho, tornando-se assim a moderna esplanada dos ministérios da então capital da república.
"Escolhi um sítio que parecia mais conveniente, para edificar nele a Cidade de São Sebastião, o qual sítio era de um grande mato espesso cheio de muitas árvores grossas em que se levou assaz de trabalho em as cortar e a limpar o dito sítio e edificar uma cidade grande, cercada de muro por cima, com muitos baluartes e fortes cheios de artilharia. E fiz a igreja dos padres de Jesus, onde agora residem, telhada e bem concertada e a sé de três naves, também telhada e bem concertada, fiz a casa da câmara sobradada, telhada e grande, a cadeia, as casas dos armazéns e para a fazenda de sua alteza sobradadas e telhadas e com varandas, dei ordem e favor com que fizessem muitas outras casas, telhadas e sobradadas..." Mem de Sá, Instrumentos dos Serviços de Mem de Sá, 1570. "Monte do Descanso, posteriormente conhecido por várias denominações, entre outras, da Sé, do Alto de São Sebastião, Baluarte da Sé, São Januário, Sé, Conselho, Colégio e Sé Velha e finalmente do Castelo." Noronha Santos, Memórias para servir à História do Reino do Brasil, 1942
"Os Morros do Castelo e de Santo Antônio, no coração da cidade, são dois arraiais de aflição e de miséria. No Rio de Janeiro, os que descem na escala da vida vão morar para o alto, instalando-se na livre assomada das montanhas, pelos chãos elevados e distantes, de difícil acesso. Entre os dois montes, é o Castelo, vizinho ao mar, o de maior relevo e de aspecto melhor." Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do Meu Tempo, 1938 "Sobe a gente a esse Monte do Castelo por três caminhos diferentes: a Ladeira da Misericórdia, que nasce bem junto ao casarão da Santa Casa, a do Carmo, de que se servem os que vêm do Centro da cidade, pela rua do mesmo nome, e, ainda, a do Seminário, trepando pelos lados do Convento da Ajuda, e da qual os que a dominam podem divisar as chácaras da Floresta e do Vintém." Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do Meu Tempo, 1938
"A Ladeira da Misericórdia subia em íngreme declive, com suas casas miseráveis, carcomidas pelo tempo, as suas calçadas em degraus por sobre as quais se tropeçava e se caía. Mais acima, ao tempo da primeira etapa, uma pequena praça com a sua igreja e a fachada austera do Hospital São Zacarias, permitia que os romeiros descansassem do esforço inicial. Quase porém não se podia andar pela largo e sobre o capim que descia do morro, tão numerosos eram os detritos desprezivelmente jogados ali pelos moradores das vizinhanças." Théo Filho, Ídolos de barro, 1924 "O que muito impressiona a quem galga os caminhos dessas íngremes e ásperas encostas é a série de paredões, maciços, fortes muralhas de sustentação, baluartes antigos, alguns de dois ou três séculos e sobre o quais o casario assenta; solares que a indigência dos moradores do lugar transformou em reles casas de alugar cômodos, palácios retalhados em cubículos, muitos deles com compartimentos mostrando divisões de aniagem ou tabique forrados a papel, sem ar, sem luz, onde se reúnem, para dormir, promiscuamente, inúmeras famílias;" Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do Meu Tempo, 1938
"Era a primeira vez que as duas iam ao Morro do Castelo. Começaram de subir pelo lado da Rua do Carmo. Muita gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo." Machado de Assis, Esaú e Jacó, 1904 "Natividade e Perpétua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas o Morro do Castelo, por mais que ouvissem falar dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era- lhes tão estranho e remoto como o clube. O íngreme, o desigual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés às duas pobres donas. (...) A mesma lentidão do andar, comparada à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: Você quer ver que elas vão à cabocla? E ambos pararam à distância, tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana." Machado de Assis, Esaú e Jacó, 1904
"São particularmente janeleiros os moradores do Castelo. A maioria vive nas portas e janelas abertas, a exibir-se aos olhos de quem passa pela rua, os homens areando os dentes, fazendo a barba ou aparando os calos, as mulheres cosendo, lavando a louça das refeições, dando de comer, nas gaiolas, ao coleiro-do- brejo, ao canário, à graúna... Não há casa ou casebre que não tenha, dependurado ao parapeito da janela, além de uma gaiola, um homem ou mulher a mostrar-se, espiando, indagando da vida de todo mundo, sabendo de tudo quanto se passa fora de portas, no lugar. Quando não sabem, indagam, inventam, falseiam, caluniam." Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do Meu Tempo, 1938
"Há anos chegou aqui um viajante, que se relacionou comigo. Uma noite falamos da cidade e sua história; ele mostrou o desejo de conhecer alguma velha construção. Citei-lhe várias; entre elas a igreja do Castelo e seus altares. Ajustamos que no dia seguinte iria buscá-lo para subir o Morro do Castelo. Era uma bela manhã, não sei se de inverno ou primavera. Subimos. Eu, para dispor-lhe o espírito, ia-lhe pintando o tempo que por aquela mesma ladeira passavam os padres jesuítas, a cidade pequena, os costumes toscos, a devoção grande e sincera. Chegamos ao alto, a igreja estava aberta e entramos. Sei que não ruínas de Atenas; mas cada um mostra o que possui. O viajante entrou, deu uma volta, saiu e foi postar-se junto à muralha, fitando o mar, o céu e as montanhas, e, ao cabo de cinco minutos: “Que natureza que vocês têm!”" Machado de Assis, revista A semana, 20/08/1893 "Creio neles. Em vida fui amigo de dinheiro, mas havia de trazer mistério. As grandes riquezas deixadas no Castelo pelos jesuítas foram uma das minhas crenças da meninice e da mocidade; morri com ela, e ainda hoje a tenho. Perdi saúde, ilusões, amigos e até dinheiro; mas a crença nos tesouros do Castelo não a perdi." Machado de Assis, revista A semana, 12/02/1893
"Ir aos barbadinhos é ser benzida pelos frades do Morro do Castelo. É o melhor remédio para espantar o enguiço." Théo Filho, Ídolos de barro, 1924
"Queixa alguém de que a fortuna o abandona, que o ilumina a estrela má de alguma desventura ou que uma sina maléfica o persegue? – Missa das 6 nos barbados, às sextas-feiras." Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do Meu Tempo, 1938
"(...) gente que sai da casa pela madrugada, para exercer empregos em lugares distantes, a lata do almoço embrulhada em papel jornal; homens de carão pálido e chupado, o cabelo por cortar, a barba por fazer denunciando moléstia ou penúria extrema; mulheres, das que são o “tombo da casa”, as “burras do trabalho”, de ar desalinhado e pobre, as saias de cima, em rodilha, na cintura, úmidas da água dos tanques onde trabalham o dia inteiro; crianças de ar enfermiço, amarelas e secas, o corpo coberto de feridas, embora barulhentas e endiabradas, enxameando as casas, os quintais, subindo pelos muros, pelos condutores da iluminação pública, sujas, espalhafatosas, terríveis, discutindo em calão e a pedrada, provocando os transeuntes com torpíssimas descomponendas ou aos berros, aos murros, aos atracões..." Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do Meu Tempo, 1938
"... no Morro do Castelo nasceu a cidade, ergueu-se a primeira igreja, funcionou o primeiro colégio, enterrou-se Estácio, o fundador (...). Além dessa função genetriz, de si bastante para sagrar a colina, o Morro do Castelo,justamente pelo abandono em que o deixaram e pela vizinhança com a Avenida Central, é a pérola maior do maravilhoso colar de pérolas carioca. ... Agora um estribilho soa insistente: precisamos arrasar o Morro do Castelo!" Monteiro Lobato, Urupês, 1920 "O Morro sente-se condenado( ... )Percebe que virou negócio, que o verdadeiro tesouro oculto em suas entranhas não é a imagem de ouro maciço de Santo Inácio e sim o (..)arrasamento, E desconfia que seu fim está próximo. Os homens de hoje são negocistas sem alma. Querem dinheiro. Para obtê-lo venderão tudo, venderiam até a alma se a tivessem. Como pode ele, pois, resistir à maré, se suas credenciais – velhice, beleza, pitoresco, historicidade – não são valores de cotação na bolsa?" Monteiro Lobato, Não arrasem o morro do Castelo, 1920
"Para a abertura da Avenida Central demoliram em 1904 o casarão do Seminário de São José e os prédios números 12 a 26 e 1 a 15, tendo sido excluídos imóveis erguidos no lance superior da ladeira e 6, no alto do morro. Posteriormente, sendo pequeno o espaço para a construção do edifício da Biblioteca Nacional, foram desapropriados aqueles 19 prédios." Noronha Santos, Memórias para servir à História do Reino do Brasil, 1942 "Não há casas, entretanto queremos arrasar o Morro do Castelo, tirando a habitação de milhares de pessoas. Como lógica administrativa, não há coisa mais perfeita! O mundo passa por tão profunda crise, e de tão variados aspectos, que só um cego não vê o que há nesses projetos de loucura, desafiando a miséria geral. " Lima Barreto, revista Careta, 28/08/1920 "Às sete horas menos quinze minutos começaram a aparecer os operários, em grupos de dois ou três, morosos e pesados, espantando a preguiça que traziam das povoações suburbanas margeadas pela estrada de ferro. Parando nas calçadas da biblioteca, do Museu de Belas Artes e de outros edifícios da Avenida Rio Branco, despiam as roupas limpas, vestindo sujas, que desembrulhavam de papéis encardidos." Théo Filho, Ídolos de barro, 1924
"Eram em sua maioria portugueses e nacionais, estes últimos em número mais elevado, quase todos de cor preta ou de cor bronzeada." Théo Filho, Ídolos de barro, 1924 "Ao apito de uma escavadeira, o rebanho humano espalhou-se pela base do morro, levando enxadas, picaretas e pás; e enquanto alguns homens trepavam pelos caminhos a pique, outros iniciavam o afrouxamento das terras ou o alargamento dos cachimbos." Théo Filho, Ídolos de barro, 1924 "A hipótese, pois, de existiram no Morro do Castelo, sob as fundações do vasto e velho convento dos jesuítas, objetos de alto valor artístico, em ouro e em prata, além de moedas sem conta e uma grande biblioteca, tomou vulto em breve, provocando o faro arqueológico de ruinarias e a auri sacra fames de alguns capitalistas, que chegaram mesmo a se organizar em companhia, com o fim de explorar a empoeirada e úmida colchida dos jesuítas. Isso foi pelos tempos do Encilhamento." Lima Barreto, jornal O correio da Manhã, 28/04/1904
"Estes fatos já estavam quase totalmente esquecidos, quando ontem novamente se voltou a atenção pública para o desgracioso morro condenado a ruir em breve aos golpes da picareta demolidora dos construtores da Avenida. Anteontem, ao cair da tarde, era grande a azáfama naquele trecho das obras. A turma de trabalhadores, em golpes isócronos brandiam os alviões contra o terreno multissecular, e a cada golpe, um bloco de terra negra se deslocava, indo rolar, desfazendo-se, pelo talude natural do terreno revolvido. (...) O trabalho foi suspenso a fim de que se dessem as providências convenientes em tão estranho caso; uma sentinela foi colocada à porta do subterrâneo que guardava uma grande fortuna ou uma enorme e secular pilhéria." Lima Barreto, jornal O correio da Manhã, 28/04/1904 "Com a desculpa de melhor ventilar e expandir a cidade, livrando-a de doenças, o Morro do Castelo teve um fim cruel. Durante a construção da Avenida Rio Branco, iniciada em 1904, dele foi derrubada uma parte. Em 1920, na administração do prefeito Carlos Sampaio, o arrasamento total teve início, com a utilização de máquinas hidráulicas na encosta que ficava atrás da então Avenida Central. Os restos do fundador Estácio de Sá foram transferidos para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca. Em novembro de 1922 desapareceram a igreja e o colégio que formavam o complexo jesuítico. Quatro mil pessoas ficaram desalojadas." Texto curatorial
Em seu lugar, começa a surgir a Esplanada do Castelo, onde foi realizada a moderna Exposição do Centenário da Independência, com os destroços do morro ainda à vista Em 1928 concluiu-se a remoção integral do restante remanescente do antigo Morro do Castelo, abrindo-se por completo a esplanada onde seriam construídos diversos marcos da arquitetura moderna no Brasil, como o prédio do Ministério da Educação e Saúde e a sede da Associação Brasileira de Imprensa, ao lado de todos os edifícios que abrigariam os ministérios do governo federal projetados e construídos nas décadas de 1940 e 1950.   A remoção de outros morros após a derrubada do morro do Castelo na década de 1920, como o Morro de Santo Antônio e o Morro o Senado, ambos na área central da cidade, e a realização de novos aterros junto à orla com o material removido, como o Aterro do Flamengo na década de 1950, continuariam a manter a cidade em constante transformação ao longo de todo o século XX. A perda, entretanto, do Morro do Castelo como marco inaugural da cidade é ainda hoje uma cicatriz aberta na história do Rio de Janeiro.    Texto curatorial
O Paço, a Praça e o Morro
Créditos: história

Curador
Sergio Burgi

Assistente de curadoria
Mariana Newlands and Rachel Rezende

Créditos: todas as mídias
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