O simbolismo no traje majestático usado pelo Imperador Pedro II

Museu Imperial

Falar sobre o traje usado por d. Pedro II em sua coroação, antes de mais nada, é falar sobre como a indumentária é o atributo de quem a veste. Esse atributo se apresenta de diversas maneiras − no tecido, em sua cor, em sua forma. Esses elementos em conjunto serviam e ainda servem para diferenciar o status do usuário na sociedade. Por isso, dentre os objetos da coleção do Museu Imperial que pertenceram a d. Pedro II, o traje e suas insígnias são os que despertam maior curiosidade e fascínio entre os visitantes. Mais que peças de design de moda, as peças que o compõem são símbolos de poder e de afirmação do país recém-independente que buscava lugar e respeito entre os grandes e tradicionais reinos existentes na Europa do século XIX.

O Imperador-menino
Nascido no Rio de Janeiro, foi o filho mais novo do Imperador d. Pedro I do Brasil e da Imperatriz Dona Maria Leopoldina de Áustria e, portanto, membro do ramo brasileiro da Casa de Bragança. Se torna imperador com apenas cinco anos de idade, quando seu pai, d. Pedro I, abdica ao trono brasileiro e parte para Europa para retomar o trono de Portugal que havia sido usurpado seu irmão, D. Miguel. O Império é governado por três regências até que Pedro II, tem sua maioridade decretada aos 14 anos de idade e assume o trono em 18 de julho de 1841.

Carta de Abdicação de d. pedro I em favor de d. Pedro II

O traje majestático de d. Pedro II não fugiu a nenhuma regra simbólica presente no século XIX. Rodrigues, em trabalho para o Anuário do Museu Imperial, fala em inspiração nos trajes que um cavaleiro renascentista usaria em uma solenidade da corte.

Para Freesz, o traje escolhido por d. Pedro II está mais inspirado nos trajes usados no século XVII, particularmente no estilo adotado por Carlos II da Inglaterra...

Outra ligação que Freesz aponta é a semelhança no padrão dos bordados de sua veste − folhas e frutos de carvalho −, como os presentes no manto majestático de seu avô materno − Francisco I, da Áustria...

...demonstrando que o legado austríaco presente na família continuaria no recém-criado Império, no Brasil.

O traje
No que concerne ao material de fabrico das peças que compõem o traje majestático de d. Pedro II, este não fugiu à regra da nobreza: veludo, seda, fios de ouro no traje e ouro e pedras preciosas nas insígnias régias. Tecidos nobres para vestir, metais nobres para mostrar a riqueza das terras governadas pelo imperador-menino, um grande contraste com a personalidade do monarca conhecido por sua simplicidade cotidiana.

Traje usado por d. Pedro II em sua coroação, em 18 de julho de 1841 e, posteriormente, nas solenidades de abertura e encerramento das sessões do Parlamento Brasileiro. De acordo com publicações da época, era chamado de Veste de Cavaleiro. O traje foi idealizado numa concepção romântica do que seria o traje de um cavaleiro do Renascimento quando participava de uma cerimônia solene. A meia-calça, por exemplo, é observada em trajes masculinos que datam do período medieval; já a véstia e o chapéu foram soluções convencionais para atender às tradições existentes nas cortes europeias. As peças são de inspiração das usadas na corte francesa para as solenidades reais, como a representada por François Hyacinthe Rigaud (1659 -1743) no “Retrato de Luís XVI”. O traje de d. Pedro II, que tem um toque de romantismo, é de grande distinção e elegância e causa admiração pela qualidade dos tecidos e perfeição do bordado, pelo valor da pedraria e pela riqueza das insígnias.

Veste
Materiais: Cetim branco com bordados a ouro

Veste com comprimento na altura dos joelhos bordada a ouro com motivos de ramos de carvalho que contornam a abertura e a linha inferior em evasé. Costuras das mangas também com o mesmo tipo de bordado.

Faixa
Materiais: Cetim branco com bordados a ouro

Faixa bordada a ouro formando lírios e campânulas em cada uma das quatro pregas, dispostos no sentido horizontal, ao longo da peça.

A faixa que dá a volta à cintura da veste é arrematada, no lado direito, por laço do qual pendem duas pontas com franjas de canutilhos dourados.

Manípulos
Materiais: Cetim com bordados a ouro

Manípulos em forma de laços bordados com motivos de ramos de carvalho e pequenas estrelas. No centro da peça, uma rosácea franzida bordada e cosida ao manípulo.

O manípulo é uma espécie de estola que faz parte dos paramentos litúrgicos, principalmente da Igreja Católica. Geralmente é usado sobre o braço esquerdo do sacerdote.

Sapatos
Materiais: Cetim com bordados a ouro e couro

Sapatos bordados com motivos de palmas estilizadas, ramagens de carvalho e gavinhas.

As cores
Outro ponto forte na simbologia do traje majestático são as cores em que as peças foram confeccionadas. Destacamos o fortalecimento das cores heráldicas brasileiras, saindo definitivamente o vermelho adotado pelo Reino Unido de Portugal − Brasil e Algarves e entrando o verde das florestas brasileiras, o amarelo representando o ouro, riqueza natural do reino e o branco, símbolo da pureza do monarca, sempre presente em menor ou maior escala nas vestes reais, lembrando que o monarca que o porta tem "permissão divina" para usá-lo.

Luvas
Materiais: Seda e fio de ouro

Luvas com as armas do Império do Brasil bordadas a ouro.

Na murça, além do tom amarelo-fogo, um elemento a mais: penas de papo-de-tucano, ave típica do Brasil, marcando não só a riqueza natural do país como também o exotismo no uso de plumas de aves na confecção de indumentária.

Murça
Materiais: Penas de papo de tucano de bico preto (ramphastos vitellinus ariel Vigors), cetim de seda bege e verde escuro

Gola em forma de pelerine com abertura até o meio do peito para ser vestida pela cabeça. Confeccionada com o emprego da técnica de placas, onde cada papo é costurado um ao lado do outro, em carreiras horizontais sobrepostas sucessivamente até a margem inferior, formando gomos verticais, em suporte de tecido. Forro em seda na cor bege e reforço de seda verde-escura. Decote debruado de cadarço, cujas pontas servem para atar a peça ao pescoço.

O branco, novamente presente no chapéu de cavaleiro que d. Pedro II usava ao entrar na Capela Imperial para a Cerimônia de Coroação.

Chapéu
Materiais: Veludo branco bordado a ouro

Chapéu em veludo branco com bordados a ouro. Aba frontal levantada, copa redonda com rosácea formada por bolotas e folhas de carvalho intercaladas dentro de um círculo formado por ramos e folhas de carvalho na parte superior central; faixa que envolve a junção entre a copa e a borda da aba com bordados a ouro formando ramos de carvalho.

No manto, o verde das florestas brasileiras, iluminadas pelas estrelas bordadas em ouro, e pela esfera armilar cortada pela cruz da Ordem de Cristo, símbolo europeu que representa o poder universal do rei e, por sua forma, também a perfeição e sabedoria.

Manto
Materiais: Veludo Verde, lhama dourada e bordados executados em ouro, canutilhos (fosco, brilahnte e frisado), lantejoulas, palhetas, cordão e fios de ouro diversos

Composto de quatro larguras de veludo costuradas no sentido do comprimento, possui na parte superior, junto ao pescoço, 22 pregas dispostas simetricamente em relação à costura central. Esta parte é arrematada por debrum de veludo que esconde a costura de união com o forro, que é costurado ao veludo por meio de pontos invisíveis. Todo o contorno do manto é bordado com motivos de ramos e bolotas de carvalho e estrelas com a sigla PII. Na bainha, bordado a grega de três, na qual existem retângulos que se alternam um com uma estrela e outro com uma lua crescente, ambos em lantejoulas. O campo central do manto é semeado de elementos bordados formando os seguintes motivos: esfera armilar, dragão dos Braganças e estrela de cinco pontas; todos a ouro

Outro elemento importante adotado por d. Pedro I, quando da proclamação da independência do Brasil, é a serpe, comumente confundida com um dragão, que está presente não só nos ricos bordados do manto.

...mas também pousado de forma imponente no topo do cetro em ouro observando todos com seus olhos brilhantes.

O cetro era visto como a extensão do braço do monarca, de sua administração e da aplicação da justiça terrena. O cetro de d. Pedro II foi herança paterna. D. Pedro I mandou fabricá-lo para a própria coroação.

Cetro
Materiais: Ouro cinzelado e brilhantes

Haste oca e lisa formada por seis segmentos articulados; na parte superior, guirlanda de folhas e frutos de carvalho. Acima, capitel em forma de campana invertida ornada com folhas estilizadas; ábaco retangular de ângulos seccionados também emoldurados com folhas estilizadas sobre o qual estão assentadas serpe de asas espalmadas e cauda revirada para cima com boca aberta, de onde pende língua farpada e móvel. Olhos feitos de brilhantes que foram afixados na época da coroação de d. Pedro II; parte inferior com ornado em forma de folhagem, cingido por listel e terminado em forma de calota.

As insígnias
Como complemento do traje majestático temos as ordens honoríficas. Essas ordens são galardões concedidos em reconhecimento a serviços relevantes prestados a uma nação e atribuídos pelo Chefe de Estado, sendo este próprio detentor do grau mais alto da ordem concedida.

D. Pedro II adotava no traje, entre outras ordens honoríficas, a Ordem Imperial do Cruzeiro...

Ordem Imperial do Cruzeiro
Materiais: Ouro e esmalte

Insígnia pendente de rosácea de banda em tecido na cor azul-celeste, no formato de estrela de cinco pontas bifurcadas de branco filetadas e maçanetadas de ouro; encimada por coroa imperial também em ouro. Conjunto assentado em coroa de folhas de tabaco e café em esmalte verde filetado em ouro no centro do conjunto disco. No anverso do disco, campo de azul-celeste com cruz latina formada por 19 estrelas em branco. Orla em azul-ferrete, com legenda em ouro polido: BENEMMERENTIUM PRAEMIUM. Reverso com campo em ouro com a efígie de d. Pedro I à esquerda. Orla em azul-ferrete com legendas em ouro: PETRUS I BRASILIAE IMPERATOR.

A Ordem D. Pedro I Fundador do Império...

... e a Ordem da Rosa, criada por d. Pedro I para celebrar seu casamento com d. Amélia de Beuharnais, madrasta de d. Pedro II.

Ordem da Rosa
Materiais: Ouro cinzelado e esmalte

Cadeia de ouro constituída de 15 rosas folhadas em sua cor e de igual número de escudetes do mesmo metal, com as iniciais PA (entrelaçadas), dispostos alternadamente. Do colar pende a insígnia correspondente ao grau de grã-cruz efetivo no formato de estrela de seis pontas brancas filetadas e maçanetadas de ouro, encimada por coroa imperial também em ouro. A estrela é assentada em guirlanda formada por 18 pequenas rosas em esmalte em sua cor e no centro do disco. No anverso do disco, campo em ouro com as inicias PA entrelaçadas; em torno desta, orla azul-ferrete com a legenda em ouro: AMOR E FIDELIDADE. No reverso, campo em ouro cinzelado, com a data 2/08/1829, disposto em forma de cruz (trata-se da data do casamento); em torno, orla azul-ferrete com legenda em ouro: PEDRO E AMELIA.

A coroa
Por último e não menos importante, temos a coroa. Símbolo máximo do poder real. Não se pode pensar em um rei sem coroa. Seja ela simples como as antigas coroas de folhas de louro usadas no Império Romano, seja ela rica como a coroa de Carlos Magno, a coroa é a insígnia da dignidade régia. É ela que atribui o caráter sagrado e sobrenatural do poder de um rei.

A coroa de d. Pedro II foi confeccionada especialmente para o jovem monarca. A peça tinha que ser nova assim como o reinado que se iniciava...

...mas, embora nova, fizeram parte de sua confecção, as pedras e pérolas da coroa de seu pai, mantendo assim o aspecto da hereditariedade das jóias da coroa.

Coroa
Materiais: Ouro, prata, brilhantes, pérolas, veludo e cetim

Coroa em ouro amarelo e verde cinzelado. Cinta larga em forma ovalada, tendo, no bordo inferior, dois frisos em forma de folhas de louro. Entre os frisos, fio de pérolas cultivadas. Na parte superior, festão se 16 pontas e, abaixo deste, outro friso idêntico ao da base. Abaixo de cada ponta do festão, um solitário montado em prata. Na mesma direção das pontas da cinta, chuveiros formados por brilhantes, sendo que, no eixo principal da coroa, o chuveiro é formado por pedra maior de formato retangular circundado por pedras menores. Cada chuveiro é circundado pelo mesmo friso de folhas de louro que circundam a cinta. Nas pontas dos festões, dispostos alternadamente, triófilos em ouro verde arrematados por laço e, em cada uma, roseta formada por brilhantes de diferentes tamanhos. De cada uma dessas composições, sobe haste com as seguintes características: ouro polido em forma de gomos e, nas extremidades, friso de folhas de louro; no centro de cada haste, fio de brilhantes montados em prata. Na parte superior da coroa, globo de ouro polido; é cintada por guarnição cinzelada e recortada, cravejada por brilhantes, da qual se eleva semicírculo montado de forma idêntica. Como suporte da esfera, florão de ouro cinzelado. No topo do círculo, cruz de Cristo cravejada de brilhantes. Forro original de veludo verde-escuro com acolchoado de cetim branco.

Créditos: história

Director: Maurício Vicente Ferreira Júnior.
Administrative Coordinator: Isabela Neves de Souza Carreiro
Technical Coordinator: Fernando Ferreira Barbosa
Curation: Maurício Vicente Ferreira Júnior e Muna Raquel Durans.

Apoio:

Museology: Ana Luisa Alonso Camargo, Aline Maller Ribeiro, Evaldo Portela e Maria Helena de A. Esteves da Costa
Library: Claudia Maria Souza da Costa, Márcio Cardoso Miquelino Silva
Photography and Picture Editing: George Milek e Luis Fernando de Oliveira Azevedo.
Proofreading: Rosana Carvalho.

Créditos: todas as mídias
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