Roberto, um certo Rodrigues

Museu Nacional de Belas Artes

A minha primeira admiradora" de Roberto Rodrigues: Ilustração para a Revista Para Todos [edição 577], 04 de janeiro de 1930, p.10, Roberto Rodrigues, 1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Roberto, um certo Rodrigues
Esta exposição apresenta parte de um raríssimo conjunto de desenhos realizados em nanquim e guache do artista Roberto Rodrigues produzidos na década de 1920 para a imprensa carioca, quando o Rio de Janeiro, então Capital Federal, reunia a elite da intelectualidade brasileira.  Através de suas ilustrações,  um universo de angústia, desespero e morte é percorrido por Roberto, jovem e talentoso artista, falecido prematuramente aos 23 anos, três dias após ser baleado na redação do jornal carioca Crítica, pertencente à sua família, após a publicação de uma matéria que discutia o verdadeiro motivo para o desquite da jornalista e escritora Sylvia Seraphim Thibau com o médico João Thibau Junior. Sylvia, revoltada com a publicação da matéria, que insinuava o adultério como o motivo do desquite, vai à redação do jornal em busca de Mario Rodrigues. Em sua ausência, é recebida por Roberto, que leva um tiro próximo ao estômago e não resiste ao ferimento. 
Academia masculina, Roberto Rodrigues, 1925, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes

Em 1909, Roberto Rodrigues, com apenas 13 anos, publica seus primeiros desenhos numa revista infantil e, aos 17, entra para a Escola nacional de Belas Artes (Enba), impressionando professores e colegas com seu traço moderno. Sua crítica ácida, declarada de viva voz ou por escrito aos professores e ao modelo de gestão estabelecido pela Enba, sobretudo aos Salões Oficiais da instituição, não o impediu de ser premiado duas vezes com menções honrosas. Grande amigo de Candido Portinari, dividiu com ele o ateliê e, muitas vezes, o convívio familiar.

Esboço de retrato masculino - O louco, Roberto Rodrigues, 1925, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Cena de suicídio: Ilustração para o Jornal Crítica [edição 140], 28 de abril de 1929, p.8, Roberto Rodrigues, 1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes

Desenhista e ilustrador, sua produção apresenta o traço firme, preto e branco, típico dos projetos gráficos de época, influenciados pela art déco e pela art nouveau, mas, sobretudo, semelhanças com a do ilustrador inglês do século XIX Aubrey Beardsley na representação de um universo trágico, erótico, feminino e muitas vezes subversivo, a morte perpassa diversos temas em seus desenhos.

Cena de briga: Ilustração para o Jornal Crítica, Roberto Rodrigues, 1923/1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Ilustração para o Jornal Crítica [edição 99], 15 de março de 1929, p.8, Roberto Rodrigues, 1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Ilustração para o Jornal Crítica [edição 327], 04 de dezembro de 1929, p.8, Roberto Rodrigues, 1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Figura masculina agonizante: Ilustração para o Jornal Crítica [edição 195], 02 de julho de 1929, Roberto Rodrigues, 1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
"Um caso de polícia", da série "Senhorita 1950", Ilustração para a Revista Para Todos, 1927, Roberto Rodrigues, 1927, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Senhorita sempre-a-mesma no amor-de-todo-anno.: Ilustração para a Revista Para Todos, Roberto Rodrigues, 1923/1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes

Seus desenhos, enquanto documentos de existência, vasculham os tipos humanos oriundos dessa cidade que se modernizava, entretanto se mostram arraigados de uma moralidade típica dos países latino-americanos, cuja inserção da mulher e cuja discussão em relação à igualdade de gêneros resvalam na marginalização da mulher “emancipada”. A mulher é tratada como objeto de desejo. Os corpos femininos são retratados em primeiro plano, expostos ao desejo, à volúpia e à sensualidade.

Senhorita sempre-a-mesma no amor-de-todo-anno.: Ilustração para a Revista Para Todos, Roberto Rodrigues, 1923/1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes

A confluência dos desenhos e ilustrações apresentados por Roberto Rodrigues permeia a vida como grande temática, trazendo como seus opostos a morte e a fantasia.

"O tocador de cítara" de Teodomiro Tostes: Ilustração para a Revista Para Todos [edição 496],16 de junho de 1928, p. 23, Roberto Rodrigues, 1928, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
"Jogo do Pião" de Olimpio Correa: Ilustração para a Revista Para Todos [edição 501], 21 de julho de 1928, p.26, Roberto Rodrigues, 1928, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
"Elle não toma cocaina mas dá o pó as pequenas": Ilustração para a Revista Para Todos [edição 525], 05 de janeiro de 1929, p.23, Roberto Rodrigues, 1928, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
"A moça que peccou": Ilustração para a Revista Para Todos [edição 529], 02 de fevereiro de 1929, p.26, Roberto Rodrigues, 1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
"Tarde - A marcha fúnebre" de Renato Viana: Ilustração para o Jornal A Manhã [edição 631], 1 de janeiro d 1928, p. 10, Roberto Rodrigues, 1928, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Ilustração para o Jornal Crítica [edição 168], 31 de maio de 1929, p.8, Roberto Rodrigues, 1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes

— Trago-lhe este peru! O seu marido
manda buscar a casaca e a batuta de prata.
Tem que tocar hoje num grande banquete
e não tem tempo de vir a casa.
O peru estava grande, vistoso. A mulher
soltou-o no galinheiro e entregou ao portador
a casaca, as botinas de entrada baixa, a
gravata de seda e a batuta.

À noite, chegou o maestro para o jantar.
A sua esposa esbugalha o olhar. (...)
— E o banquete querido?
— Que banquete mulher?


Extraído do texto “Os príncipes da
‘scroquerie’ e do conto do vigário”

Ilustração para o texto “Os príncipes da ‘scroquerie’ e do contodo vigário”, Jornal Crítica

Ilustração para a capa da Revista Para Todos, edição 485, 31 de março de 1928, Roberto Rodrigues, 1928, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Ilustração da série "Senhorita 1950", para a Revista Para Todos, 1927, Roberto Rodrigues, 1927, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
"Chão da Avenida" de Sebastião Fernandes: Ilustração para a Revista Para Todos [edição 507], 01 de setembro de 1928, p.26, Roberto Rodrigues, 1928, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes

De braço dado aqui tudo se confunde:
Independentes favelenses e Intendentes escravizados!...
Peixeiros da Cidade nova
Quitandeiros do Canal do Mangue
Manicures do Catete
Filhas de família do Largo da Lapa
Coronéis aposentados com falência nas fileiras
Gigolôs cocainômanos
Matutos de Goyas e Niterói.

Sebastião Fernandes

Casal à mesa: Ilustração, Roberto Rodrigues, 1923/1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
"Palavras a um passante" de Gilka Machado: Ilustração para o Jornal A Manhã [edição 879 (?)], 21 de outubro de 1928, p.5, Roberto Rodrigues, 1928, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes

Tu passastes a sorrir para minha agonia.

Escancarei ao teu sorriso o olhar,

Como quem de uma casa erma e sombria

Abre janelas para o sol entrar.

De onde viera, aonde iria

Esse alguém que passando, me sorria,

De um modo familiar?

Gilka Machado

Figura feminina pulando a janela: Ilustração, Roberto Rodrigues, 1923/1929, Da coleção de: Museu Nacional de Belas Artes
Créditos: história

Roberto, um certo Rodrigues
Museu Nacional de Belas Artes

De 13 de Janeiro a 29 de maio de 2016

Curadoria
Cláudia Rocha
Daniela Matera

Créditos: todas as mídias
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