Visões de uma infância brasileira

Projeto Portinari

Portinari retratou a infância em diversas obras. Entenda.

Meninos Soltando Pipas, Candido Portinari, 1947, Da coleção de: Projeto Portinari
A paisagem onde a gente brincou a primeira vez e a gente com quem conversou a primeira vez não sai mais da gente, e eu quando voltar vou ver se consigo fazer a minha terra.
Portinari
Retirantes, Candido Portinari, 1958, Da coleção de: Projeto Portinari

Quando se pensa em Portinari, logo acodem à mente aquelas imagens emblemáticas dos Retirantes, das Pietás, doloridas, das mães com filhos mortos ao colo, como representadas no painel Guerra, na sede da ONU em Nova York. A temática social, o protesto obstinado contra a violência e as injustiças.

Retirantes, Candido Portinari, 1960, Da coleção de: Projeto Portinari

Como disse Drummond, "A obra de Portinari é um cântico autoral sobre as misérias do mundo, e particularmente de seu país. É testemunho e resgate..."

Meninos no Balanço, Candido Portinari, 1960, Da coleção de: Projeto Portinari

Mas há um outro Portinari, todo em rosas e azuis, de singela e delicada poesia. É o Portinari que pinta a infância, o Portinari lírico, todo ternura.

Seca, Candido Portinari, 1939, Da coleção de: Projeto Portinari

De fato, poderíamos até olhar a obra de Portinari como um majestoso contraponto entre o drama e a poesia, entre o trágico e o lírico, entre a fúria e a ternura. Durante toda a sua vida, o pintor está às voltas com essa dicotomia, que vai evoluindo no tempo, do regional para o universal.

Paz, Candido Portinari, 1952, Da coleção de: Projeto Portinari

Se, no início, suas crianças são meninos e meninas de Brodowski, ao final são crianças universais, como no belíssimo coral de crianças que se encontra no painel Paz, para a sede da ONU, em Nova York.

Guerra, Candido Portinari, 1952, Da coleção de: Projeto Portinari

Se, no início, suas Pietás são retirantes nordestinas, no mural Guerra são mães universais.

Meninos Brincando, Candido Portinari, 1955, Da coleção de: Projeto Portinari

"Se queres ser universal, começa por pintar a sua aldeia." Tostoi

Portinari cumpriu literalmente este percurso, de Brodowski à ONU.

Menino com Pião, Candido Portinari, 1947, Da coleção de: Projeto Portinari

É esse Portinari lírico, o pintor que traz a infância gravada indelevelmente em seu coração, que apresentamos, ainda que de forma singela.

Lembrança da Minha Infância, Candido Portinari, 1957, Da coleção de: Projeto Portinari

Em 1957, Portinari começa a escrever "Retalhos da minha vida de infância".
As passagens a seguir são trechos destes manuscritos do pintor.

Jogo de Futebol em Brodowski, Candido Portinari, 1933, Da coleção de: Projeto Portinari

“Começavamos a abrir os olhos para a vida e uma vida de sonhos, cansaços, grandes medos. Durante o dia, contavam-se histórias de lobisomem, mula-sem-cabeça, saci-pererê e almas de outro mundo. À noite, quando estávamos deitados, qualquer barulho nos apavorava.”

Futebol, Candido Portinari, 1935, Da coleção de: Projeto Portinari

“Veio como vigário o Padre Josué, muito bom e amigo da criançad; logo organizou uma escola eficiente em local apropriado; em seguida transformou a praça em campo de esporte com gangorra, balanço, barra, argola, e um jogo que gostávamos muito. Chamava-se esse jogo beti.”

Crianças Brincando, Candido Portinari, 1940, Da coleção de: Projeto Portinari

“Nossa vida era intensa. À noite, deitávamos na grama ao redor da igreja e de barriga para cima ficávamos vendo as estrelas e sonhando; um perguntava ao outro o que desejava ser – as respostas eram ambiciosas: um desejava ser rei, outro general, aquele dono de circo, etc.”

Menino com Carneiro, Candido Portinari, 1954, Da coleção de: Projeto Portinari

"Depois de termos apanhado algumas espigas, o vigia soltou os cachorros – foi uma debandada de salve-se quem puder; eu deitei-me no meio de umas touceiras de barba-de-bode, ali fiquei até sentir o medo do silêncio; corri e senti-me perdido, não sabia onde estava, sem ideia de direção até que me lembrei: o sol desce na fazenda de Santa Rosa; rumei em direção ao sol, que estava quase no final do seu trabalho – andei, andei até que surgiu à minha frente o cemitério; levei um susto mas ao mesmo tempo aliviado por saber onde estava e, com mais um impulso, estaria em casa. Grande alegria quando cheguei."

Brodowski, Candido Portinari, 1958, Da coleção de: Projeto Portinari

"As manhãs eram belas quando o sol surgia e seus raios através dos troncos das árvores do campo iluminavam tudo, as cores se avivavam dando magnífica impressão."

Meninos Pulando Carniça, Candido Portinari, 1957, Da coleção de: Projeto Portinari

“Nossos brinquedos eram variados conforme o mês, e também havia os para o dia e os para a noite. Para o dia eram: gude, pião, arco, avião, papagaio, diabolô, bilboquê, ioiô, botão, balão, malha e futebol. Para a noite: pique, barra-manteiga, pulando carniça, etc.”

Sonho, Candido Portinari, 1938, Da coleção de: Projeto Portinari

"Gostava muito de ir na garupa de cavaleiros. Gostava de deitar-me na grama e olhar as estrelas, era um grande prazer. Havia também as histórias da Dona Iria, senhora portuguesa, mãe de muitos filhos e muito boa pessoa; à noite, sentados no chão ao seu redor, ficávamos atentos, ouvindo as história: Roberto do Diabo, Roldão, Carlos Magno, reis, príncipes e princesas. Que lindas eram as suas histórias e que bom era esse tempo."

Meninos Brincando, Candido Portinari, 1958, Da coleção de: Projeto Portinari

"Eram belas as manhãs frias na época da apanha do café, e delicioso o canto dos carros de boi transportando as sacas da colheita. Quantas vezes adormecíamos sobre as sacas. A luz do sol parecia mais forte. Era somente para nós. Ia pela estrada afora o carro vagaroso, cantando. Dormíamos cheios de felicidades. Sonhávamos sempre, dormindo ou não. Nossa imaginação esvoaçava pelo firmamento. Fantasias forjadas, olhando as nuvens brancas, mais brancas do que a neve. Tudo se movia ao nosso redor como um passe de mágica. Belas eram as flores silvestres. Conhecíamos bem os pássaros, as formigas, as seriemas, as saracuras e os tatus. Quando víamos no chão um orifício, sabíamos a que bicho pertencia. Conhecíamos também a maioria das árvores e arbustos, sabíamos suas serventias para as doenças; as chuvas, o arco-íris, as nuvens, as estrelas, a lua, o vento e o sol eram-nos familiares. O contacto com os elementos moldava nossa imaginação e enchia nosso coração de ternura e esperança."

Menina com Tranças e Laços, Candido Portinari, 1955-12, Da coleção de: Projeto Portinari

"Namoro de criança é poesia que transborda."

Menina com Tranças, Candido Portinari, 1956, Da coleção de: Projeto Portinari
Menino de Brodowski, Candido Portinari, 1946, Da coleção de: Projeto Portinari

"Na aula, o professor mandava que desenhasse não importava o quê e fizesse a descrição. Desenhei um leão e o desenho foi comentado pelos professores e pelos alunos. Não me deixaram mais em paz, tive que desenhar a capa das provas a serem expostas no fim do ano. (...)

Depois fiquei à espera de que aparecesse um príncipe que me levasse onde seria pintor... Fiz alguns retratos a crayon, tirados de pequenas fotos."

Circo, Candido Portinari, 1958, Da coleção de: Projeto Portinari

"Por esse tempo vinha o circo de cavalinho com o palhaço Tôni, equilibristas e acrobatas e os "araras". Aqui também nos sonhos nos transportávemos para outras regiões. Todos nós apaixonados pela trapezista. O palhaço fazia o reclame montado ao contrário em um animal velho e moroso, pintado e vestido como nas funções; percorria o povoado com a criançada acompanhando e respondendo ao anúncio que fazia: "O palhaço o que é?" Resposta: "Ladrão de muié". (...) Fazia um giro em todo o povoado e na volta fazia uma cruz na testa dos meninos. Essa marca lhes dava o direito de entrada."

Retalhos da minha vida de infância
Candido Portinari

Créditos: história

Direção Geral: João Candido Portinari
Curadoria e Pesquisa: Maria Duarte
Textos: Projeto Portinari
Copyright Projeto Portinari

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