20 Anos do Grupo de Estudos de Curadoria

REJANE CINTRÃO
Hoje em dia é praticamente impossível discutir uma exposição sem mencionar a curadoria, a montagem, a iluminação ou até mesmo o edifício em que se encontram as obras.

A prática da curadoria e do design da exposição estão cada vez mais especializados e, muitas vezes, a obra do artista acaba fazendo parte de duas outras obras: a proposta pelo curador e a apresentada pelo designer.

No passado, entretanto, a coisa não era bem assim, já que o próprio artista era muitas vezes curador, montador e vendedor de suas obras. Cabiam a ele os critérios para a montagem da exposição. Exposições não institucionais, como a histórica mostra de Courbet que ele próprio realizou no espaço a que chamou Pavillion du Réalisme, em 1855 ou ainda, no âmbito nacional, a controvertida Exposição de arte moderna organizada por Anita Malfatti, em 1917, e apresentada num salão na rua Líbero Badaró, em São Paulo, são exemplos dessa prática do artista.

Foram artistas também que, a partir dos anos de 1920, começaram a inovar a maneira de distribuir as obras no espaço, até então padronizada pelo Louvre, ou seja, com as obras ocupando toda a parede, separadas apenas pelas molduras. Assim, grandes nomes da arte moderna internacional como Kurt Schwitters, El Lissitzky e Marcel Duchamp contribuíram de maneira definitiva para uma nova maneira de apresentar a produção de arte moderna.

A mudança do centro cultural mundial de Paris para Nova York, bem como o surgimento do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em 1929, além de várias galerias, a exemplo da Art of this Century de Peggy Guggenheim foram, acredito, fatores decisivos para algumas mudanças nos conceitos curatoriais e museológicos adotados até então.

No Brasil, também no final da década de 1920, algumas propostas novas na montagem de exposições - como a Exposição de arte alemã, organizada por Theodor Heuberger e ocorrida no Rio de Janeiro e em São Paulo em 19283 e o Salão de Maio de 1931, organizado pelo arquiteto Lucio Costa e apresentada no Rio de Janeiro - trouxeram novas possibilidades para apresentação de obras nas exposições, mostrando pinturas e desenhos localizados lado a lado, seguindo uma linha horizontal, rompendo com a antiga forma acumulativa de apresentar as obras bidimensionais.

Quando surgiram o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e os Museus de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e do Rio de Janeiro (MAM-RJ), no final da década de 1940, várias exposições já eram apresentadas, como as citadas acima, adotando muitas vezes a utilização de painéis, provavelmente devido ao fato de a nova forma de expor demandar uma metragem linear maior.

O problema é que o painel foi adotado deita! maneira que os arquitetos passaram a realizar projetos para museus cujas salas de exposição simplesmente aboliram a utilização das paredes.

O MAM-SP vem apresentando, desde sua fundação, exposições dentro desse padrão museográfico, ou seja, utilizando painéis como suporte principal para a apresentação de obras bidimensionais. Esse procedimento teve seu momento radical quando a arquiteta Lina Bo Bardi realizou o projeto de reforma do prédio do Museu, em 1986, criando uma parede de vidro e outra em várias tonalidades de azul, tornando impossível a utilização das paredes como suporte expositivo. Somente em 1995, com a nova reforma no prédio do Museu e a construção da Sala Paulo Figueiredo, foi possível novamente utilizar as paredes da sala de exposição para apresentação de pinturas e desenhos.

A proposta deste projeto é, justamente, eliminar o painel da sala de exposição e apresentar na sala de um museu de hoje, concebida e construída segundo os padrões considerados ideais para O objeto de arte, uma exposição montada nos moldes do início do século, rompendo com & horizontalidade com a qual o olhar contemporâneo acostumou-se ao percorrer as salas de museus e galerias de arte.

Esta exposição foi concebida a partir da seleção de obras do acervo do MAM-SP realizadas desde os anos 1920 até a atualidade, em que a figura feminina é o tema principal. As obras, em sua maioria bidimensionais, com exceção de uma escultura e de um objeto, foram dispostas ocupando apenas uma parede, quase em totalidade. Grande parte dessas obras, entretanto, foi concebida após várias mudanças nos padrões adotados para a apresentação de obras contemporâneas e a eleição do “cubo branco” como espaço ideal para a arte e do painel para obras bidimensionais.

Apropriando-se dessas obras e dispondo-as próximas umas das "outras, esta curadoria sugere uma outra obra, propondo ao espectador uma nova leitura, ou seja, aquela adotada no início do século XX. Não existe uma ordem definida, nem cronológica, nem temática.

O espectador pode sentar-se no banco situado em frente à parede e observar com calma as obras, sem precisar percorrer vários painéis com obras ”cartesianamente” dispostas na horizontal. Cabe ao espectador estabelecer possíveis relações entre as obras ou percebê-las individualmente.

Talvez seja uma proposta difícil para o olhar contemporâneo, mas é aí que se encontra o desafio proposto por esta curadoria, ou seja, trazer para o espectador da virada do século XX para o XXI uma montagem nos moldes do século XIX, que, para o espectador daquela época, era perfeitamente normal.

Créditos: história

A ARTE DE EXPOR ARTE
Curadoria de REJANE CINTRÃO
17 de abril a 19 de março de 1998

OBRAS EXPOSTAS

Alex Flemming
(São Paulo, SP, 1954)
Amélia, 1979
Água-tinta, 18 x 15,5 cm
Doação Paulo Figueiredo

Alex Vallauri
(Asmara, Etiópia, 1949 - São Paulo, SP, 1987)
Acrobats, 1982
Serigrafia em cores, 67,5 x 68,2 cm
Doação Suzanna Sassoun

Alfredo Ceschiatti
(Belo Horizonte, MG, 1918 - Rio de Janeiro, RJ, 1989)
As irmãs, 1966
Bronze sobre base de mármore, 114 x 67 x 22 cm
Doação Alexandre Ceschiatti

Alfredo Volpi
(Lucca, Itália, 1896 - São Paulo, SP, 1988)
Mulata, 1927
Óleo sobre tela colada sobre madeira, 59,6 x 50 cm
Doação Carlo Tamagni

Dora Longo Bahia
(São Paulo, SP, 1961)
Senta, 1994
Óleo sobre tela, 203 x 288 cm
Doação Milú Villela

Dudi Maia Rosa
(São Paulo, SP, 1946)
Fim do primeiro tempo, 1973
Óleo sobre tela,
110x 120cm
Doação artista

Flávio de Carvalho
(Barra Mansa, RJ, 1899 - Valinhos, SP, 1973)
Mulheres, 1966
Nanquim sobre papel, 68,1 x 48, 1 cm
Doação do artista
Mulheres, 1968
Nanquim sobre papel, 69,8 x 49,8 cm
Doação artista

Geraldo de Barros
(Xavantes, SP, 1923 - São Paulo, SP, 1998)
Sabonete Francis, 1977
Acrílica sobre papel colado sobre aglomerado, 183 x 287,5 cm
Doação artista

Iberê Camargo
(Restinga Seca, RS, 1914 - porto Alegre, RS, 1994)
Nu, 1940
Óleo sobre tela, 60 x 73 cm
Doação Atlântica S. A. Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários

lole de Freitas
(Belo Horizonte, MG, 1945)
Spectro, 1972
Fotografia colorida, 100 x 142,8 cm
Doação artista

João Càmara
(João Pessoa, P8, 1944)
Torção de uma inglesa, 1975
Óleo sobre tela, 89,5 x 60,9 cm
Doação ltaboral Comércio e Exportação Ltda.

José Antônio da Silva
(Sales de Oliveira, SP, 1909 - São Paulo, SP, 1996)
Nu no chuveiro, 1955
Óleo sobre tela, 61 x 46 cm
Espólio Maria da Glória Lameirão de Camargo Pacheco e Arthur
Octavio de Camargo Pacheco

José Pancetti
(Campinas, SP, 1904 - Rio de Janeiro, RJ, 1958)
Leitura, 1944
Óleo sobre tela, 41,7 x 3 1,4 cm
Doação Chiota magni

Luiz Paulo Baravelli
(São Paulo, SP, 1942)
No museu (n° 4), 1979
Óleo sobre tela, 150,5 x 90 cm
Doação artista

Nazareth Pacheco
(São Paulo, SP, 1961)
Sem título, 1994
Bronze e chumbo, 96 x 60 x 43 cm
Doação Jaime Roviralta

Paulo Rossi Osir
(São Paulo, 5P, 1890 - 1959)
Nu, mulata, 1 930
Óleo sobre tela, 67,8 x 90,8 cm
Doação Alice Rossi

Rochelle Costi
(Caxias do Sul, RS, 1961)
50 horas: auto-retrato roubado, 1992/93
Fotografia cm core s e texto cm metacrilato, 122 x 550 cm
Doação do artista

Rubens Gerchman
(Rio de Janeiro, RJ, 1942- São Paulo, 5P 2008)
Mulher na mesa, 1987
Acrílica sobre tela, 120 x 120 cm
Doação Sul América Seguros

Vittorio Gobbis
(Motta di Livenza, Itália, 1894 - São Paulo, SP, 1968)
Nu recostado, 1931
Óleo sobre tela, 59,4 x 69,8 cm
Doação amigos do artista

Créditos: todas as mídias
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