A obra de Tomie Ohtake

Instituto Tomie Ohtake

A vasta obra de Tomie Ohtake é atravessada por uma constante e assídua procura de síntese. Seja ela conquistada pela economia de formas simples agenciadas em composições depuradas e concisas, seja pelo equilíbrio entre o emprego livre de formas abstratas, o impulso gestual e o meticuloso cuidado na disposição desses elementos. O fato é que a obra da artista se desenvolve no limiar entre intenção e ação, racionalidade e sensorialidade, em uma pintura de matriz ocidental impregnada de aspectos que remetem à tradição japonesa.   Em seu modo sintético de falar e em sua personalidade silenciosa, Tomie Ohtake sempre fez questão de destacar a necessidade de não intitular suas obras: nomeá-las seria restringir suas possíveis interpretações. A artista desvencilhou-se da figuração explícita dos primeiros estudos e imergiu na exploração de abstrações feitas sem régua e sem compasso – formas livres não figurativas que não deixam de evocar superfícies aquáticas, luzes, estrelas, imagens do cosmo, a depender do imaginário do observador.   Para tanto, utilizou-se de recursos e diversas técnicas que fossem capazes de suscitar as mais variadas leituras. Transitou por entre esses modos de fazer de maneira inventiva: pintou de olhos vendados; transpôs para gravuras padrões e texturas retirados de imagens encontradas em revistas; apurou seu gesto de tal maneira que suas telas, produções gráficas e esculturas possuem a mesma delicadeza e fluidez nas formas; soube aproveitar as potencialidades de cada suporte, utilizando paletas cromáticas ousadas e viçosas em cada um deles.
EM CASA, NO ATELIÊ
O ambiente da casa para Tomie Ohtake desempenhou papel de grande importância em sua vida e obra. A artista, que iniciou sua produção na década de 1950, prestes a completar 40 anos, vivia com seus dois filhos em uma pequena casa no bairro da Mooca, em São Paulo. Ali, em um espaço acanhado, realizou seus primeiros trabalhos, passou da figuração para abstração, e realizou alguns dos mais importantes conjuntos de obras de sua carreira, mesmo com algumas limitações, como a necessidade de ter que ir para o lado de fora para poder ver da janela o que estava pintando com algum recuo. Na década de 1970, depois da mudança para uma nova residência, a artista ganhou maior liberdade para produzir. O espaço deixou de ser uma restrição e maiores formatos e diferentes técnicas puderam ser explorados conforme seus impulsos criativos.   Idealizada por seu filho Ruy Ohtake, a casa foi projetada para se configurar como um grande ambiente contínuo em que os compactos cômodos desenhados como células pudessem ser distribuídos livremente. Suas estruturas de sustentação, apoiadas às paredes laterais, deixam o vão central livre, como um largo corredor em que, a partir da porta de entrada, é possível visualizar toda a extensão construída. Contudo, após algumas reformas, outros espaços foram anexados, incluindo um novo ateliê que permitiu novas experimentações e também contemplou obras anteriores e documentos, guardados em uma reserva técnica.   Foi nesse amplo ambiente que Tomie Ohtake, além de desenvolver seu trabalho e estar com sua família, recebeu amigos, artistas, críticos, curadores e jornalistas, criando uma distinta rede de relacionamentos e colaborações. Sua figura e sua casa fazem parte das memórias de muitas gerações da arte brasileira, como sinônimo de generosidade, rigor e perseverança.
PRIMEIROS ANOS
A partir de 1952, Tomie Ohtake ingressou em aulas de pintura. Despretensiosas a princípio, aprendeu o ofício e suas técnicas com o professor Keisuke Sugano, que a incentivou na produção pictórica, inicialmente figurativa. Paisagens, aquilo que via por sua janela, objetos de sua casa e retratos aparecem nesse primeiro momento da produção da artista. Contudo, é possível perceber que seus emaranhados de troncos e galhos, os conjuntos de casas, entre outras figuras, vão progressivamente tornando-se menos reconhecíveis, diluindo-se até formarem composições cada vez mais geometrizadas.
PINTURAS CEGAS
Para além das formas e cores, a questão dos sentidos também esteve na pauta da obra de Tomie Ohtake. Entre 1959 e 1962, a artista realizou uma série de pinturas com os olhos vendados, conjunto que acabou conhecido como “Pinturas Cegas”, título conferido pelo curador Paulo Herkenhoff.  A partir de tal procedimento, a artista apresentou uma discussão acerca da arte e cegueira estabelecendo um diálogo com o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty por meio da percepção do mundo pela passagem para os sentidos, que é exatamente o que faz ao privar-se da visão durante o processo de pintura.   Contudo, ainda que lidem com o acaso em sua realização, as mesmas não são totalmente feitas as cegas: havia, por parte da artista, uma escolha prévia das cores e uma memorização do caminho a ser traçado. Predominam nestes trabalhos cores como o branco, o preto, cinza e o marrom.
PROCESSO CONSTRUTIVO
Desde a metade da década de 1960, Tomie Ohtake retirou de revistas brasileiras e japonesas referências que utilizou para elaborar colagens. Estas, por sua vez, funcionavam quase como um protótipo para pinturas e gravuras. Tal recurso foi empregado na definição de campos de cor próximos a formas geométricas, tornadas imprecisas pelo efeito dos rasgos feitos a mão no papel, ou seja, pelas texturas, ranhuras e rebarbas decorrentes da manualidade desse método. Mesmo as marcas e manchas mais sutis presentes nas colagens muitas vezes foram transpostas com fidelidade em suas pinturas e gravuras.   Já nas décadas de 1970 e 1980, evidencia-se em seus estudos uma definição muito maior no contorno das formas. Isso decorre do uso da tesoura para fazer os recortes de papéis. Estudos e, consequentemente, obras, tornaram-se mais regulares. Ainda assim, a tesoura não tem a precisão do compasso e da régua – instrumentos que Tomie Ohtake utilizou –, por isso, manteve aberta a possibilidade de ocorrerem desvios gestuais sobre a retidão das formas geométricas.   Com o passar dos anos tais projetos vão ficando mais escassos, perceptível também pelas composições mais fluídas, de pinceladas mais orgânicas e mais maleáveis quanto à estrutura. Contudo, são recorrentes estudos para exposições e um tipo de catalogação que a própria artista rascunhava, com informações sobre empréstimos, vendas ou que estavam sendo exibidas.  
FORMAS GEOMÉTRICAS
'Ao contrário do racionalismo da geometria ocidental, Ohtake experimenta incessantemente a imprecisão' Paulo Herkenhoff
TOMIE CÓSMICA
Tomie Ohtake foi uma artista que explorou a geometria. Sem filiar-se a nenhum movimento que a perpassou – como é o caso do concretismo e do neoconcretismo, por exemplo – a artista instaurou sua própria linguagem e modos de fazer pautados na abstração, aplicação de cores, elaboração de texturas e gestualidade expressiva. Nos anos 2000, nota-se na produção da artista a recorrência da forma circular. As formas orgânicas, iluminadas e curvilíneas remetem suscitam interpretações relacionadas ao cosmos:  bolas incandescentes que por sua vez se assemelham a galáxias, buracos negros, eclipses, planetas ou aparecem aos pares, sugerindo ondas, irradiações. Porém, ao mesmo tempo em que suas pinturas possibilitam uma leitura telescópica, também é possível acreditar que a imagem construída venha da lente de um microscópio. O círculo, ainda, pode ser lido por aspectos do zen japonês,  podendo demonstrar sua potência rítmica, sua ideia de ciclo e inspirar certo silêncio, como uma grande curva solitária em um fundo monocromático.
LITOGRAVURAS
Desde o começo dos anos 1960, Tomie Ohtake fez estudos a partir de papel recortados que encontrava em revistas . Na gravura, começou sua experiência com serigrafia, processo de impressão que permitiu à artista transpor a fluidez do seu gesto para a representação gráfica.    No começo de 1970, Tomie Ohtake entrou no mundo da litogravura. Tal parte de sua produção destaca-se pelo uso de cores tão vibrantes e também pelas combinações inusitadas que a artista criou que diferenciam-se daquelas de sua produção pictórica. A litogravura de Tomie aproveita-se de todo o repertório gráfico disponível nessa técnica. Suas possibilidades de reprodução e o trabalho em conjunto com um técnico especializado, levaram-na a  – criar soluções compositivas, como a preparação cromática e a sobreposição de formas.
100 - 101
Em seus últimos dois anos de vida, Tomie Ohtake teve uma produção vigorosa e de grande escala. Construiu trabalhos que resultam da redução dramática de sua paleta, criando monocromos luminosos e radiantes em branco, vermelho, amarelo, azul e vede, principalmente. Suas formas se delineiam por relevos, espessas camadas de tinta acumulada a ponto de fazer do plano da tela uma topografia repleta de acidentes e descontinuidades. A linha deixa de existir, fazendo com que os limites entre figura e fundo sejam criados a partir das mudanças de direção e força aplicadas em seus gestos.
OBRAS PÚBLICAS
A partir da década de 1980, Tomie Ohtake trouxe aos espaços públicos e áreas de convivência formas, que remetem aos elementos pictóricos de sua produção plástica. Em locais de convívio de diversas cidades, tais formas são convertidas em quilos ou toneladas de ferro, concreto, aço, pastilhas de vidro ou o que for necessário; são volumes que podem alcançar escala monumental, sem nunca aparentar o peso que de fato têm.   Uma de suas primeiras obras públicas, hoje não mais existente, porém geradora de diversos debates, foi a estrela flutuante que concebeu para o Rio de Janeiro, em 1985. Construiu uma peça metálica, a qual o brilho do sol destacava sobre a água, no mesmo espaço e com a mesma infraestrutura utilizada para fazer manutenção em navios. Já em uma de suas obras de grande reconhecimento público, realizada em comemoração aos 80 anos da imigração japonesa no Brasil, em 1988, representou as gerações de japoneses que aqui estavam (issei, nissei, sansei, yonsei) por quatro arcos - ou curvas/ondas - da Avenida 23 de Maio. Vinte anos mais tarde, voltou a celebrar a imigração, dessa vez em seu centenário, com a obra circular disposta em uma das vias de acesso ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.   Em 1997, concebeu a sua primeira obra tridimensional feita para integrar um edifício. Situada no complexo do Laboratório Aché – cujo projeto arquitetônico é de autoria de Ruy Ohtake, seu filho – a obra, apoiada por um único ponto, funciona como uma fita de Moebius, forma geométrica em que não é possível distinguir os lados de dentro e fora, assemelhando-se ao símbolo do infinito por seu movimento sempre contínuo. Anteriormente, Tomie Ohtake já havia colaborado com arquitetura na realização de painéis, murais e pinturas que se relacionam com os espaços projetados.   O procedimento de trabalho da artista, quando se propunha a atuar na escala arquitetônica, iniciava com a criação de esboços, colagens e maquetes rápidas, muitas vezes feitas à mão sem maiores comprometimentos com a sua resistência. Em seguida, seus modelos imaginativos eram tornados possíveis pela colaboração com técnicos e engenheiros, que empregavam sofisticados métodos para traduzir a suas formas delicadas em esculturas monumentais.  
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