fevereiro de 2018

Carnaval: O corpo livre

Instituto Moreira Salles

Imagens do acervo Instituto Moreira Salles

The Streets
Carnival is the suspension of daily life. During the four days it lasts, everything is possible. The public exhibition turns participants into temporary actors, allowing them to get into a cathartic theater. In the streets, one can experience a different persona or even pretend to represent a real deep, repressed self. Nothing matters. That´s Carnival.

Todas as fotografias desta exposição foram produzidas no Rio de Janeiro.

A Casa
Na dinâmica do Carnaval, as noções de "casa" e "rua" têm fronteiras muito tênues, como o sociólogo Roberto DaMatta aponta nos seus estudos sobre o tema. Neste sentido, ao longo da história do carnaval brasileiro, o espaço ocupado por casa e rua varia e se sobrepõe. As três seções destacadas aqui, portanto, marcam dimensões do mesmo ritual. Já nas suas origens, na virada do século XIX para o século XX, o batuque do quintal, um "proto-samba", se espalhou aos poucos pelas ruas dos bairros, as casas se abriram e os vizinhos se juntaram à dança.

São dez horas o samba está quente,
Deixe a morena contente,
Deixe a menina sambar em paz

Da canção "Deixe a menina"
de Chico Buarque de Hollanda


Os pequenos grupos de brincantes aumentaram e se tornaram cordões e ranchos, inicialmente quase que exclusivamente formados por negros e mestiços, em sua maioria trabalhadores braçais, dentre os quais talentosos músicos. Embora desde sempre atraindo pessoas de todas as classes sociais, o temor pelo "descontrole" dos cordões encontrou apaziguamento com o surgimento das sociedades carnavalescas, dos bailes de gala temáticos e da evolução dos variados tipos de organização festiva para as grandes escolas de samba.

Entretanto, a principal motivação para a suspensão da realidade diária, a transgressão, explode naturalmente. O desbunde nunca deixou de invadir casas de festa, fossem terreiros ou salões da elite.

É o que ajuda a entender o ressurgimento dos blocos, encarnação contemporânea dos cordões. Após o escalada comercial do desfile oficial a partir da década de 1970 e da diminuição da frequência aos bailes de clube, os blocos, que nunca chegaram a desaparecer, voltam com toda força ao Rio no fim dos anos 1990. As ruas da cidade são invadidas por multidões de pessoas fantasiadas, na maior parte jovens, que num espaço de menos de cinco anos transformaram os blocos na maior concentração de pessoas em espaço público dentre as festas do país. Um pouco mais lentamente, ocorre uma "reafricanização" afirmativa entre esses grupos, um movimento que em Salvador, outro gigantesco carnaval regional, ocorre desde o fim dos anos 1940.

A Escola
"A Casa" também poderia ser representada pela escola de samba, lar e família daqueles que cresceram com a música produzida em suas quadras, dançando ali desde crianças, fortalecidos pelos códigos e hierarquia da comunidade. Mas o que seria a arte da escolas sem o desfile, a disputa pública e a incorporação de forasteiros, que, por contraste, a distingue? A escola de samba é casa, mas a casa do sambista se espraia por toda a cidade.

Para os foliões de qualquer status social, a magia do teatro carnavalesco é tornar cada brincante individualmente livre e ao mesmo tempo em comunhão com a alegria coletiva. Mas para aqueles oprimidos na sua vida cotidiana por todos os tipos de ausência de direitos, a encenação encontra no figurino, a fantasia, um tipo muito particular de liberação, uma auto-afirmação que quer alcançar o sublime.

Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quiloa, Rebolo

Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados em carros de boi
Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer

Zumbi é senhor das guerras
Zumbi é senhor das demandas
Quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda

Pois aqui onde estão os homens
Dum lado, cana-de-açúcar
Do outro lado, um imenso cafezal
Ao centro, senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhidos por mãos negras

Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras

"África Brasil (Zumbi)" de Jorge Benjor

(...) o carnaval estava confinado no tempo, não no espaço. (...) a praça da cidade e suas ruas adjacentes eram o epicentro do carnaval, encarnando e simbolizando a ideia carnavalesca de ser universal e pertencer a todos"

Mikhail Bakhtin, em "Carnaval e Carnavalesco"

Festa e rito, tão intensamente profano que arrasta uma horda de fiéis, o Carnaval no Brasil carrega significados que vão muito além do feriado e da comemoração. Casa e rua. Festa sem dono, nela emergem a potência da criatividade e a vocação para integração de uma cultura formada por agudas diferenças. Se "o Brasil não é para principiantes", como disse Tom Jobim, viver os dias de Carnaval pode ser uma boa maneira de começar a entendê-lo.

Créditos: história

Carnaval - O corpo livre
Imagens da coleção do Instituto Moreira Salles

Edição: Rachel Rezende

O Arquivo Fotográfico do IMS

Com um acervo de cerca de 2.000.000 de imagens, o Instituto Moreira Salles possui a mais importante coleção de fotografias do século XIX no Brasil e a melhor compilação da fotografia brasileira das primeiras sete décadas do século XX. A reserva técnica fotográfica está localizada no IMS Rio de Janeiro, abrigada no maior edifício dedicado à preservação, restauração, salvaguarda e divulgação de arquivos fotográficos no Brasil.

Bibliografia

Cunha, Maria Clementina Pereira: NÃO TÁ SOPA: SAMBAS E SAMBISTAS NO RIO DE JANEIRO, DE 1890 A 1930. Campinas: Editora da Unicamp, 2015.

Naves, Santuza Cambraia. O VIOLÃO AZUL. MODERNISMO E MÚSICA POPULAR. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998.

Lopes, Nei. ENCICLOPÉDIA BRASILEIRA DA DIÁSPORA AFRICANA. São Paulo: Selo Negro, 2004.

DaMatta, Roberto: CARNAVAIS, MALANDROS E HERÓIS: PARA UMA SOCIOLOGIA DO DILEMA BRASILEIRO. Rio de Janeiro: Racco, 1997.

Bakhtin, Mikhail: "A CULTURA POPULAR NA IDADE MÉDIA E NO RENASCIMENTO: O CONTEXTO DE FRANÇOIS RABELAIS". São Paulo: Hucitec, 1999.

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.
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