"Não há muro em branco que eu não possa pintar"

A descolonização da cidade através de uma intervenção urbana transgressora

Do Museu Virtual da Lusofonia

Artista Dalai a grafitar muro (21th Century), de Lucas Reis/Margarida AndresenMuseu Virtual da Lusofonia

Dalai (Rio de Janeiro - 1997) é um artista brasileiro que mora em Portugal. Explorando a cidade do Porto e outros locais próximos, o artista propõe um diálogo entre a pichação e a cidade, discutindo a descolonização do espaço urbano através da arte.

Dalai procura discutir, no seu trabalho, a ressignificação de uma cidade onde se cruza o peso do passado histórico (como verificamos pelos nomes das ruas, dados a partir de figuras e momentos históricos relacionados com um passado colonial e imperial) e o atual fenómeno da gentrificação.

Rua de Raul Dória (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

O propósito de Dalai é precisamente a descolonização dos espaços através da representação de um rosto que funciona como uma tag, ou seja, uma
assinatura. Este rosto está espalhado por várias ruas e pontos turísticos do Porto, sendo alguns deles facilmente reconhecíveis por quem conhece a cidade.

Rua da Infanta Dona Maria (Esquina com Rua do Barão Forrester) (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Localizada na freguesia da Cedofeita, junto à Baixa e à Rotunda da Boavista, a intervenção está próxima à Escola Secundária Carolina Michaelis e à Estação de Metro de mesmo nome.

Rua Infanta Dona Maria (esquina com a rua Barão Forrester).

Rua do Pilar (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua do Pilar

A Rua do Pilar fica na freguesia de Santa Marinha em Vila Nova de Gaia, próximo ao Jardim do Morro. A partir do local da intervenção é possível avistar o Rio Douro, que divide as cidades do Porto e Vila Nova de Gaia.

Através da plataforma Google Maps, também é possível localizar os pontos onde estes rostos foram pintados. Muitos destes já não existem, porque são pintadas a cinzento todas as intervenções consideradas como vandalismo. Quando as suas obras são apagadas, Dalai pinta-as novamente. Para o artista, a cidade é do povo, e sua obra demarca o território e constitui um registro de “Eu estava aqui” ou “Estou vivo”, absolutamente conveniente para um artista negro brasileiro residente em Portugal (Dalai em entrevista ao autor, 2020).

Rua do Mirante (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua do Mirante

A Rua do Mirante deve seu nome a um mirante que existia no local.

Rua de Raul Dória (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua de Raul Dória

Esta intervenção está próxima à Rua Gonçalo Cristovão, ao Silo Auto e à Baixa do Porto. Trata-se de uma rua predominantemente residencial cuja região foi fortemente atingida pela gentrificação.

Intervenção do artista na Rua de Raul Dória

Sanatório de Valongo (21th Century), de Margarida AndresenMuseu Virtual da Lusofonia

Sanatório de Valongo

Originalmente denominado Sanatório de Montalto ou Sanatório de Monte Alto. Localizado na Rua Tenente Sá Nogueira em Valongo, foi um estabelecimento de saúde para tuberculosos, desativado desde 1972 e abandonado.

Localizado na Rua Tenente Sá Nogueira, em Valongo.

Rua de Cedofeita (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua de Cedofeita

O nome da rua é uma referência à Igreja de São Martinho de Cedofeita, construída no século VI e localizada nas proximidades. A intervenção foi feita na Rua de Cedofeita, quase na esquina com a Rua da Boavista.

Nesta imagem pode-se ver a rua de Cedofeita, na esquina com a Rua da Boavista.

Rua do Mirante (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua do Mirante

O mirante que dá nome à rua era propriedade dos Irmãos Braga, e, por esse motivo, era chamado “mirante dos Bragas”. Deste mirante, era possível ter uma vista para o mar.

Rua da Infanta Dona Maria (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua Infanta Dona Maria

A Infanta Dona Maria que dá nome à rua onde está localizada esta obra foi uma nobre portuguesa que viveu no século XVI, considerada "amante das artes".

Rua Infanta Dona Maria

Rua de Cabo Simão (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua Cabo Simão

Localizada próxima à Ponte D. Luis, que liga as cidades do Porto e Vila Nova de Gaia.

Rua Cabo Simão

Rua 9 de Julho (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua 9 de Julho

Antigamente chamada Rua da Liberdade. O nome atual remonta à Guerra Civil Portuguesa, pois foi por esta rua que, em 9 de Julho de 1832, o chamado “Exército Libertador”, chefiado por D. Pedro I (D. Pedro IV, em Portugal), chegou à cidade do Porto. A Guerra Civil Portuguesa foi travada em Portugal entre os liberais constitucionalistas e os absolutistas, divididos a propósito da sucessão real entre 1832 e 1834.

Escadas do Codeçal (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Escadas do Codeçal

Obra localizada na freguesia da Sé da cidade do Porto, na zona que se convencionou chamar “Porto Antigo”. A sua condição histórica é bastante explorada pelo turismo.

Escadas do Codeçal

Rua do Barão de Forrester (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua Barão de Forrester

O Barão de Forrester que dá nome à rua foi um empresário inglês radicado em Portugal.

Fontainhas (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Fontainhas

A zona das Fontainhas, no Porto, é bastante conhecida pelos festejos na noite de São João. A zona tem muitos comércios locais e moradores que aí habitam há muitos anos, apesar da exploração turística intensa de que tem sido alvo nos últimos anos.

Rua do Cabo Simão (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

Rua do Cabo Simão

Obra localizada próximo da Ponte Infante Dom Henrique, uma das figuras impulsionadoras da designada expansão colonial portuguesa.

Não há muro em branco que eu não possa pintar (21th Century), de Sofia QuintasMuseu Virtual da Lusofonia

"Não há muro em branco que eu não possa pintar"

Neste vídeo, o artista Dalai fala sobre seu trabalho e a relação com a cidade.

Créditos: história

Curadoria: Lucas Reis
Vídeo: Margarida Andresen e Lucas Reis
Artista: Dalai
Fotografia: Cortesia do artista

Referências

- Almeida, G.B. (2013). Política, subjetividade e arte urbana: o graffiti na cidade. Tese de Mestrado em Psicologia. Centro de Filosofia e Ciências Humanas – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 140 pp.

- Braga, F.E.L. (2019). Estética Spray – O Grafite no Campo da Arte Contemporânea. Mestrado em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo, São Paulo. 284 pp.

- Filho, A.L.A.S. (2018). Pichação e grafite: Qual a diferença? Acedido em 22 de Junho de 2021 em https://medium.com/@albertosilva_15448/picha%C3%A7%C3%A3o-e-grafite-qual-a-diferen%C3%A7a-5c1797ebbd17

- Giovanni, J.R. (2015). Artes de abrir espaço. Apontamentos para a análise de práticas em trânsito entre arte e ativismo. Cadernos de Arte e Antropologia. 4: 13-27.

- Gonçalves, R. e Monteiro, M. (2020). Roteiro da arte urbana no Porto. Acedido em 22 de Junho de 2021 em https://www.timeout.pt/porto/pt/arte/roteiro-da-arte-urbana-no-porto
Intervenção Urbana (2021). O que é intervenção urbana? Acedido em 22 de Junho de 2021, em: https://www.intervencaourbana.org/

- Lazaretti, B. (2014). Quais os códigos usados na pichação? Os grupos de letras são abreviações e funcionam como logotipos. Acedido em 22 de Junho de 2021 em https://super.abril.com.br/mundo-estranho/quais-os-codigos-usados-na-pichacao/

- Malhadeiro, J. (2015). Arte ou destruição? Longe vão os tempos em que o graffiti era o “patinho feio” da arte. Era considerado um ato de vandalismo, muitas vezes punido por lei, que retirava o prestígio e a beleza às cidades. Acedido em 22 de Junho de 2021 em: https://www.publico.pt/2015/09/24/p3/cronica/arte-ou-destruicao-1824284

- Melendi, M.A. (2005, 30 de Agosto). Cidades Sitiadas: Efêmeras e críticas, intervenções urbanas, ganham status de arte e destaque em canteiros, muros, postes e calçadas de vários países. Folha de São Paulo, pp. 20-21.

- Mesquita, A.L. (2008). Insurgências poéticas: arte ativista e ação coletiva (1990-2000). Tese de Mestrado em História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo, São Paulo. 428 pp.

- Moreira, C.F. (2018). A cidade está coberta de rabiscos que ninguém está a conseguir apagar

- A câmara prevê gastar mais de um milhão de euros na limpeza de tags, mas uma disputa nos tribunais, que envolve a adjudicação das empresas que fazem esse serviço, tem deixado a cidade coberta de rabiscos. No ano passado, a PSP emitiu 107 contra-ordenações sobre grafitos. Acedido em 22 de Junho de 2021 em: https://www.publico.pt/2018/09/06/local/noticia/graffitis-1843167

- Nascimento, M.L. (2019). Grafite: Arte Urbana ou Vandalismo? Acedido em 22 de Junho de 2021 em: https://mural.unisul.br/grafite-arte-urbana-ou-vandalismo/

- Kendall, S. (2021). As mais impressionantes obras de arte urbana no Porto. Acedido em 22 de Junho de 2021 em: https://portosecreto.co/arte-urbana-no-porto/

- Raposo, P. (2015). “Artivismo”: articulando dissidências, criando insurgências. Cadernos de Arte e Antropologia. 4: 3-12.

- Teixeira, V.F.L. (2015). Arte urbana: o caso do Porto. Tese de Mestrado em Mediação Cultural e Literária. Instituto de Letras e Ciências Humanas – Universidade do Minho, Braga. 175 pp.

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.
Ver mais
Tema relacionado
Maravilhas Portuguesas
De comboio ou coche, descubra as maravilhas e joias escondidas de Portugal
Ver tema
Google Apps