Lourdes Castro

A COMPLEXIDADE DE UMA CAIXA por Delfim Sardo

Culturgest - Fundação Caixa Geral de Depósitos

Sem título (1965), de Lourdes CastroCulturgest - Fundação Caixa Geral de Depósitos

Lourdes Castro

Sem título, 1965
Plexiglass pintado no verso com acrílico sobre folha de prata
60 x 81 cm
Inventário 347255
© Laura Castro Caldas / Paulo Cintra

Entre 1962 e 1963, Lourdes Castro fez um conjunto de caixas repletas de objectos unidos por famílias, cobertos por uma camada de tinta de alumínio que lhes conferia um aspecto paradoxalmente precioso e slick. A palavra poderia ser pop, porque a presença destas caixas é muito próxima do ambiente de assemblage de algumas obras de Richard Hamilton, um dos criadores do movimento em Inglaterra.

 Em Paris, onde Lourdes Castro vivia com René Bertholo e onde ambos participavam da pequena comunidade (com João Vieira, Christo, Jan Voss, Costa Pinheiro e José Escada) que publicava a revista KWY, a espuma do tempo trazia os ventos do nouveau réalisme. Este movimento, de que faziam parte Yves Klein, Pierre Restany, Raymond Hains e, mais tarde, Christo (entre muitos mais), partia do princípio de que a realidade era apropriável para o interior do mundo da arte – tudo se poderia converter em imagem artística, desde os cartazes meio arrancados das paredes até aos desperdícios do quotidiano.

É neste ambiente de democracia criativa, num momento em que a arte arrisca a perda da sua aura de excepcionalidade para abraçar o quotidiano, que Lourdes Castro constrói as suas caixas. A sua refinada sensibilidade, no entanto, iria apropriar estas influências de uma forma sofisticada, dando-lhes uma volta de sentido a partir da sua sacralização: a partir de um processo comummente usado em relação a relíquias ou memorália religiosa (o banho de ouro ou de prata), a artista decide banhar os objectos e as caixas em tinta de alumínio que lhes confere uma qualidade única e preciosa. No entanto, essa qualidade única e aurática é conseguida através de um processo que lhes retira a presença manual, o próprio do artístico, para fornecer uma aparência impessoal e industrial. É este paradoxo que as torna tão interessantes, porque despoleta um realismo pop na medida em que o fascínio pelo quotidiano adquire um glamour impessoalizado, como acontece com a maior parte das obras dos artistas que fizeram a pop art.

A estas características (paradoxais e estranhamente coexistentes) junta-se uma terceira: o tipo de objectos recolhidos em cada uma destas caixas de parede – sim, são quadros tridimensionais, o que também lhes confere uma específica originalidade –, podem ser reunidas sobre a categoria do “doméstico”, pertencendo a diferentes momentos, ou formas, da vida doméstica aqui colocada como que em arrumação provisória, em trânsito. São, portanto, o trabalho de uma artista deslocada, emigrada, em pensamento sobre a sua condição – e também sobre a sua condição feminina.

Caixa de alumínio (lagostins) (1962), de Lourdes CastroCulturgest - Fundação Caixa Geral de Depósitos

Na simplicidade de juntar umas coisas com outras, Lourdes Castro consegue produzir uma enorme complexidade.

E colocar-nos, sem discursos morais, perante ela.

Na simplicidade de juntar umas coisas com outras, Lourdes Castro consegue produzir uma enorme complexidade.

E colocar-nos, sem discursos morais, perante ela.

Caixa de alumínio (lagostins), Lourdes Castro, 1962, Da coleção de: Culturgest - Fundação Caixa Geral de Depósitos
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Caixa de alumínio (óculos), Lourdes Castro, 1962, Da coleção de: Culturgest - Fundação Caixa Geral de Depósitos
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LOURDES CASTRO, Caixa de alumínio (lagostins) / Caixa de alumínio (óculos), 1962, assemblage de objetos diversos, tinta de alumínio, 34 x 24 x 21,5 cm / 34 x 24 x 26,5 cm, inventário 348001 / 348002, © DMF, Lisboa

Biografia
Lourdes Castro nasceu no Funchal, em 1930. Participa desde 1955 em inúmeras exposições em Portugal e no estrangeiro. Depois de uma passagem por Munique, e de um período a viver em Paris onde fundou o grupo KWY e esteve com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, inicia em 1973 uma colaboração com Manuel Zimbro, dedicando-se ao teatro de sombras. Participa nas edições de 1959 e 1980 da Bienal de São Paulo e de novo em 1998, representando Portugal com um trabalho conjunto com Francisco Tropa. Em 1992, a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, organiza a sua primeira grande retrospectiva, intitulada Além da sombra. Em 2003, a exposição Sombras à volta de um centro, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, revelou uma série de desenhos, juntamente com uma selecção dos seus livros de artista e cartazes de exposições. 

Bibliografia 
Castro, Lourdes, Grand herbier d’ombres, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002. 
Lourdes Castro, sombras à volta de um centro (cat.), Lisboa, Assírio & Alvim, 2003. 

Créditos: história

Texto
© Delfim Sardo, 2009
Biografia / Bibliografia
© Mariana Viterbo Brandão, 2009

Produção da história (Coleção Caixa Geral de Depósitos)
Lúcia Marques (coordenação)
Hugo Dinis (assistente de produção)

Créditos: todas as mídias
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