Degelo em Lisboa

A crítica fragmenta os limites do consenso geral. Esse consenso quase intolerável, adormecido, de senso comum, envolve os que nele participam num sono em tom eterno. E nada trará mais contraste que a matéria de que são feitos os efectivamente vivos.
Não sei com que memórias se constroem os países. Cada país deve ter o seu epochê. Estarei preparado para responder a estas questões, ou talvez não, quando o Sol se puser em sonhos mansos. Um homem caminhava pensativo por uma cidade de grandes líderes. Uma cidade, como todas as outras que são grandes e poderosas, com uma corpulenta montanha, berço daquela terra. Os homens deste sítio viviam coordenados por pontos. De outra forma, podemos dizer que estes homens não tinham tempo. O ponto, em extensão não é nada, tudo isto num instante. No próximo instante, em extensão, o ponto é tudo. Analisamos o ponto de uma forma desinteressada e determinista. O tempo não convive com pontos, porque os pontos não têm metafísica de extensão, num instante. Mas no próximo instante, o ponto é o reumatismo contornado pela ave que canta com as asas. Se não tem extensão o ponto, tem pelo menos influência no emprego de pontuação na natureza. O ponto é um objeto idealizado sob duas perspetivas distintas: ou tem infinitos pontos de fuga ou não tem nenhum, pois um crítico de arte dá sempre extensão ao ponto, uma extensão que ninguém vê, mas que certamente todos sabem que existe. O sopé da montanha estava assente sobre parábolas incalculáveis, em que a raiz quadrada se aplicava a triângulos. Um triângulo, três linhas, descontextualizadas, mas contextualizadas pelos seus pontos de união, o ponto. Início e fim de tudo. E não há maior extensão que traçar o tempo. Traçar o tempo envolve linhas. E hoje eu sei que o ponto está orientado para o centro da terra. O centro da Terra, sólido, constituído por ferro e níquel, é o refúgio de muitas geometrias, sobre as quais lagartos e homens se debruçam em glórias e graças. Mas já que falamos de pontos, falar de cidades é inconveniente. Mas o ponto não tem extensão e pouco há a fazer senão observar. Como ponto que sou pinto o início do tempo; como ponto que sou, acabarei este pensamento em breve. E o ponto da primeira frase estará mesmo aqui, repara na sua extensão.
A realidade é chata, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife. — Allan Stewart Konigsberg
Credits: All media
This user gallery has been created by an independent third party and may not always represent the views of the institutions, listed below, who have supplied the content.
Translate with Google
Home
Explore
Nearby
Profile