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Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil

Instituto Gilberto Gil

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Brasil

  • Título: Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil
  • Transcrição:
    capas de discos e centenas de ensaios. Vania se dirige a um quarto no final do corredor, buscando pastas organizadas por seu filho, o também fotógrafo Juliano Toledo. Encontramos reliquias. Aquele acervo de imagens faria de Vania Toledo, num país decente, uma fotógrafa multimilionária. Ao mesmo tempo notava que, acima de tudo, habita nela a centelha do artista, a depuração de alguém com olhar raro e a delicadeza que mestres pintores teriam ao clicar pes- soas. Hoje essas características nunca combinam com contas mul- timilionárias. Então pegamos pilhas de pastas e voltamos à sala. Lá, o telefone gritava o tempo todo. Ela, apressurada, repetia o mantra: "Alo?, Alo!, Alo...". Os dois cockers-spaniels latiam, Juliano voltava da academia, o celular tocava, a mesa de luz levitava, as lupas trabalhavam sozinhas e as almofadas bailavam. Consegui- amos trocar palavras aqui, gargalhadas acolá. E assim, cromo a cromo, a história se formava, a sucessão das horas perdia o peso e emergiam fatos do passado. As fotos de Elis Regina (1945-1982), por exemplo, a fizeram lembrar da sessão para a entrevista que Vania fez com ela na revista Interview, final dos anos 70. "Elis disse que eu era a única fotógrafa que a deixava felize relaxada." As fotos revelam um lado raro da intérprete: visual colorido, mini vestido de cetim, luvas e sor- riso matreiro. Ela recorda também que o norte-americano David Drew Zingg (1923-1999), o fotógrafo mais malandramente extravagante que adotou o Brasil como sua nova pá- tria, costumava dizer: "Vania, você trouxe a alegria de volta à fotografia". Elogio melhor que esse, só um beijo de Brad Pitt na boca. Essa mulher à minha frente é nascida em Paracatu, cidade do noroeste de Minas Gerais, fundada no século 18 por bandei- rantes paulistas. A prefeitura local agora a divulga de uma maneira que também tem a ver com VT: "Paracatu, terra de contrastes que mistura rusticidade e simplicidade com cultura e sofisticacão, aguar- da sua visita". Hehehe. É a cara dela: misturar o rústico (pães de queijo, broas e cafés), ser hospitaleira e manter os refinamentos da fotografia, sá? Mas onde estávamos mesmo? Lembrei: na trajetória de Vania. Pois bem. Ela se mudou para São Paulo nos anos 60, durante a efervescência do tropicalismo, das passeatas e dos mo- vimentos pop. Formou-se em Ciências Sociais, como convinha aos engajados do período. E, como não é trouxa, foi logo freqüentando os festivais da TV Record. Nas primeiras filas. Em um desses vide- os, no meio da gritaria da platéia que torcia por Caetano Veloso em Alegria, Alegria, vê-se o rosto de Vania - a mais animada da torcida, Hoje, os camarins de Caetano ou de qualquer artista bacana são abertos à simples menção do seu nome. Depois da fase de garota descolex, em que participou até de filmes underground com o pseudônimo Wania Rose, (seu nome de solteira é Vania Rosa Cordeiro), lá se foi ela trabalhar na Editora Abril, passando depois a ser chefiada pelo jornalista Samuel Wainer (1912-1980). Finalmente estrearia como fotógrafa na revista Pop. VEROOBIAL PHAVILLE voltada ao público jovem dos anos 70. E casa-se com o cirurgião plástico Luiz Sérgio Toledo, de quem se separou duas décadas atrás. A primeira capa de MPB assinada por Vania Toledo acon- teceu em 1978, no disco Refestança, registro ao vivo do show de Rita Lee e Gilberto Gil. "Fiz a foto da capa segurando com as costas uma estrutura de madeira que estava quase caindo no pal- co. Denise Barroso estava do lado, às gargalhadas." Desde então, nunca mais largou a câmera. Nem para ir a esquina. Qualquer um pode chacoalhar a bolsa de Vania e encontrará pelo menos uma mini câmera que permita fazer instantâneos com os amigos que encontra pela rua, pela noi- te, pelas festas. Boa lembrança essa: como escrever sobre Vania Toledo sem situá-la em alguma festa, festim, coquetel, beberete, reunião social, missa de ação de graças, lançamento de livro, es- tréia de shows ou situações de divertimento? Impossível. Ela sai, é fotografada para colunas de celebrities, as colunas publicam as fotos dela em tal festa e ela, em si, sempre vem com essa: "Saiu? Ah, não li os jomais de hoje". Hehehehe. A sua última proeza foi ter sido elei- ta pelo colunista César Giobbi, do Estadão, entre as mais elegantes de São Paulo. Ela, em si, dirá que desconhece o fato. Nós, os desele- gantes amigos, entregamos tudo. A primeira capa de MPB assinada por Vania Toledo aconteceu em 1978, no disco Refestança, registro ao vivo do show de Rita Lee e Gilberto Gil. "Fiz a foto da capa segurando com as costas uma estrutura de madeira que estava quase caindo no palco. Denise Barroso estava do lado, às gargalhadas." Durante a seleção das ima- gens que componiam esta matéria, descartamos incontáveis opções de cromos devido à impossibilida- de de publicar tudo. A seleção final premiou o creme da MPB de três décadas, em momentos memora- veis de uma penca de gente bam- ba. Demos por encerrada a missão. Daí em diante o telefone come- çou a tocar feito louco. E Vania voltou ao mantra: "Alo? Alo! Alo...". Muitas narrativas mirabolantes comigo e VT ainda poderiam ser escritas aqui. Já a convidei para viagens absurdas e ciladas sociais inenarráveis. Ela topava tudo. Lembramos algumas situa- ções, tipo weekend no Paraguai, entrega de prêmios em Vitória, black-tie em Cuiabá, banheirão em clube black na Rua Augusta, pizzaria vagabunda em Los Angeles, tempestade no Morro da Urca e noitadas com Waly Salomão. Então Vania reflete: "Nós somos sobreviventes de uma era. Não morremos porque os deuses não quiseram". Hehehehe. Concordo inteiramente. Com as fotos dentro de um envelope, dirijo-me à porta para ir embora e deixá-la trabalhar em paz. Dou outra olhada de ódio ful- minante para a bandeira de Hélio Oiticica, dois beijos na bochecha de VT e pego o elevador. Na descida volto a ouvir o mantra dela: "Alo! Alo? Alo...". Na rua, percebo que todos andam acelerados. Começava novamente a chuviscar, mas dessa vez com pingos do tamanho de um pires. A borrasca caiu em dois minutos, obrigan- do-me a ficar sob a marquise da padaria mais próxima. Já pensou se a chuva molhasse os cromos? Significaria desaparecer da vida dela para sempre. Então, ali na padoca, senti vontade de escrever assim, direto e simples como uma chuva de verão. E viva Vania.
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