ex-ministro
Brasileiros - Ele defende esse ponto de vista numa répli-
ca a um comentário de Caetano, publicado no jornal O
Estado de S.Paulo, de que “...tudo é tropicalista: o cor-
po de Che Guevara e uma barata voando para trás de
uma geladeira suja". No calor da situação, deve ter, de
fato, soado ofensivo pra muita gente.
G.G. - Não acho que nenhum de nós tenha atribuído a
Guevara ou a quem quer que seja que tivesse tido envol-
vimento com a luta revolucionária essa semelhança lite-
ral com uma barata. Pelo contrário, a música "Soy loco
por ti America", por exemplo, é uma canção de louvor a
Che e de reconhecimento da grandeza e da importância
de uma vida como aquela, de uma atitude como aquela.
No mais, as opiniões de Boal eram as opiniões dele e cor-
respondiam à visão que ele tinha do que deveria ser "estar
no mundo" e, certamente, discordando daquilo que não
estaria de acordo com este "estar no mundo", segundo
Boal. Mas algumas coisas são exageradas e fora de pro-
pósito como considerar cafajestice o conjunto mais exu-
berante do gestual de Caetano.
Brasileiros - Em seus trabalhos mais inventivos você esteve,
muitas vezes, ao lado do maestro Rogério Duprat. Mui-
tos chegam a tributar aos arranjos dele uma importân-
cia superior à força das canções. Como você mensura a
participação de Duprat no movimento tropicalista?
G.G. - A presença de Duprat naqueles trabalhos foi fun-
damental para conceituação, propriamente, da coisa musi-
cal. O que é que a gente queria com aquelas composições,
como elas poderiam ser embrulhadas", "empacotadas”,
para que tivessem o apelo que queríamos, que precisa-
vam ter. Foi fundamental no contato com os músicos,
os Beat Boys, os Mutantes. Foi ele que nos apresentou a
esse pessoal todo e me aconselhou a fazer "Domingo no
Parque” com os Mutantes e não com o Quarteto Novo,
como eu 1 queria. Ele achava que com os Mutantes a gen-
te ousaria mais, integraria os elementos contemporâneos
que a própria composição almejava. Foi fundamental,
pois não era simplesmente maestro no sentido da decu-
pagem, da tradição para o campo musical, era também
um filósofo da questão jovem, tinha tido, no campo da
música erudita, intervenções importantes, arrojadas e
tão ousadas como o tropicalismo, ele já era tropicalis-
ta neste sentido. Ajudou muito, não só a estabelecer o
padrão musical do tropicalismo, como também a própria
questão conceitual, filosófica e política. Em tudo isso ele
teve uma contribuição muito forte. Não sou daqueles
que pensa que sem o Rogério resultaria na mesma coi-
sa. Ele foi fundamental. Foi tão importante quanto eu,
Caetano, Torquato, Capinam. Esta é uma das caracte-
rísticas importantes do tropicalismo: foi uma ação cole-
tiva. O todo dependeu das partes e cada parte teve uma
função muito importante. Duprat, sem dúvida alguma,
é um grande exemplo disso.
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Brasileiros
Brasileiros - Sua partida para o exílio coincide com o dia
da morte de Brian Jones, fundador dos Rolling Stones.
Meses depois, um negro seria covardemente assassina-
do diante do palco em que tocavam os mesmos Stones
e John Lennon decretaria que o sonho havia acabado.
Como foi a chegada em Londres nesses idos de 1969 e o
confronto com essa nova realidade? Havia mesmo ves-
tígios de que um ciclo se fechava? .
G.G. - Minha chegada a Londres coincide com este
momento de ápice do movimento hippie, da cultura
psicodélica, de todas aquelas grandes mutações sociais,
comportamentais. Cheguei, exatamente, no momento
de dissolução dos Beatles e da morte de Brian. Logo
em seguida, o discurso de Lennon: o sonho acabou!
Havia mesmo uma espécie de fastio, de cansaço, que
era uma coisa natural. Tudo aquilo nascia de impulsos
muito impetuosos da condição juvenil e, à medida que
as pessoas iam amadurecendo, quatro, cinco, seis anos
depois, começava a surgir um fastio natural em relação
a aquilo tudo. O cansaço e a vitimização, muitas vezes.
Pessoas que iam tombando no meio do caminho. A pró-
pria percepção da dimensão utópica daquilo tudo. A res-
posta da realidade não era propriamente na medida do
investimento que se fazia com a intenção de mudá-la;
mudava-se muita coisa, mas não era aquela respos-
ta forte. A verdade era refratária, difícil. Mesmo aqui,
todos nós experimentávamos muito disso. O tropicalismo
também havia sido golpeado, fortemente, aqui, com a
interdição final, a prisão, a expulsão do País. Tudo isso
fornecia elementos suficientes pra gente sentir estas difi-
culdades e traduzi-las como o final de um sonho. Acho
que a expressão tem muito a ver com isso: uma fadiga
daquele movimento todo, daquela hiperatividade que
a juventude teve naquele momento. Eu compartilhava
bastante desta percepção.
Brasileiros - Em seu livro Verdes Vales do Fim do Mundo
(Editora L&PM Pocket), Antônio Bivar narra a fantásti-
ca aparição de você e de um grupo de mais de 20 pes-
soas no palco do Festival da Ilha de Wight, espécie de
antecessor londrino do Woodstock. Ele conta que, depois
da apresentação, os executivos da CBS queriam con-
tratar todo o grupo. Como foi essa experiência de estar
e tocar no festival?
G.G. - A comunidade brasileira era numerosa, muito
expressiva, em Londres. Muito unida, quase todos nós
saindo do Brasil em busca de novas experiências. Muitos,
como eu e Caetano, relativamente vitimizados pela ques-
tão da ditadura. Fomos todos pra Ilha de Wight. Acam-
pamos, ocupamos uma ribanceira inteira, em cima de
uma daquelas colinas, ficamos lá com nossas barracas,
três quatro dias antes das apresentações começarem. Mui-
ta música, ácido lisérgico, mescalina, toda aquela coisa.
Cláudio Prado, cineasta e produtor cultural, andava pelo
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