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Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil

Instituto Gilberto Gil

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Brasil

  • Título: Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil
  • Transcrição:
    ce condenada a se perder, a se esfu- maçar, e a imprecisão toma conta da cena. Seja numa conversa informal, seja numa conferência, num ensaio ou num discurso, a palavra cultura sempre se presta a interpretações múl- tiplas. É como se cada um de nós tives- se o seu próprio conceito de cultura - e dele dificilmente se desprendesse. Mesmo no âmbito mais propria- mente intelectual, topamos com na- da menos do que atrocentos mo- dos de definir o que é cultura. E é evi- dente que esta proliferação concei- tual, atendendo a todos os gostos, correntes e opiniões, faz com que ca- da um de nós, ao ouvir a palavra "cul- tura", costume traduzi-la à sua pró- pria maneira e em seu próprio dicio- nário. Por isso mesmo, vou começar delimitando claramente o que nós, do Ministério da Cultura, queremos dizer quando usamos esta expressão. Tradicionalmente, a maioria das pessoas, diante da palavra cultura, pensa automaticamente no conjunto das formas canonizadas pela cultura ocidental-européia. Pensa em litera- tura, em teatro, em pintura, em con- certos musicais, em estilos de dança como o balé ou, mais modernamente, em cinema, depois que esta forma de criação foi consagrada, pelos in- telectuais, no terreno da arte. Dito MINISTÉRIO DA CULTURA de outro modo, as pessoas pensam, automaticamente, no círculo restrito das formas que habitam o campo da assim chamada "cultura superior". Agem, então, como se cultura fosse isso. O que não cabe nesse universo não merece ser definido pelo uso pu- ro e simples do vocábulo cultura. Tem de ser referido com a colocação de um anexo verbal para restringir o con- ceito - como no caso de expressões como "cultura de massas" e "cultura popular" - ou mesmo pela adoção de uma outra palavra, como "folclore". Existiria, então, acima de tudo, "a cultura". E só em seguida manifesta- ções laterais, secundárias, pitorescas ou inferiores, que deveriam ser vis- tas como departamentos, setores ou guetos da "cultura propriamente dita". Fica patente, nesta espécie de entendimento do fenômeno, a exis- tência do preconceito cultural. Para nós, do Ministério da Cultura do Go- verno Lula, de um governo essenci- almente transformador e democrá- tico, de um governo que pretende - vai – mudar o país, esta não é, de modo algum, uma visão saudável, lúcida ou justa da realidade cultural. E é por esta razão que não trabalha- mos com um conceito acadêmico, restritivo e elitista de cultura. Ado- tar um conceito restritivo de cultura
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