ce condenada a se perder, a se esfu-
maçar, e a imprecisão toma conta da
cena. Seja numa conversa informal,
seja numa conferência, num ensaio
ou num discurso, a palavra cultura
sempre se presta a interpretações múl-
tiplas. É como se cada um de nós tives-
se o seu próprio conceito de cultura -
e dele dificilmente se desprendesse.
Mesmo no âmbito mais propria-
mente intelectual, topamos com na-
da menos do que atrocentos mo-
dos de definir o que é cultura. E é evi-
dente que esta proliferação concei-
tual, atendendo a todos os gostos,
correntes e opiniões, faz com que ca-
da um de nós, ao ouvir a palavra "cul-
tura", costume traduzi-la à sua pró-
pria maneira e em seu próprio dicio-
nário. Por isso mesmo, vou começar
delimitando claramente o que nós,
do Ministério da Cultura, queremos
dizer quando usamos esta expressão.
Tradicionalmente, a maioria das
pessoas, diante da palavra cultura,
pensa automaticamente no conjunto
das formas canonizadas pela cultura
ocidental-européia. Pensa em litera-
tura, em teatro, em pintura, em con-
certos musicais, em estilos de dança
como o balé ou, mais modernamente,
em cinema, depois que esta forma
de criação foi consagrada, pelos in-
telectuais, no terreno da arte. Dito
MINISTÉRIO DA CULTURA
de outro modo, as pessoas pensam,
automaticamente, no círculo restrito
das formas que habitam o campo da
assim chamada "cultura superior".
Agem, então, como se cultura fosse
isso. O que não cabe nesse universo
não merece ser definido pelo uso pu-
ro e simples do vocábulo cultura. Tem
de ser referido com a colocação de um
anexo verbal para restringir o con-
ceito - como no caso de expressões
como "cultura de massas" e "cultura
popular" - ou mesmo pela adoção de
uma outra palavra, como "folclore".
Existiria, então, acima de tudo, "a
cultura". E só em seguida manifesta-
ções laterais, secundárias, pitorescas
ou inferiores, que deveriam ser vis-
tas como departamentos, setores ou
guetos da "cultura propriamente
dita". Fica patente, nesta espécie de
entendimento do fenômeno, a exis-
tência do preconceito cultural. Para
nós, do Ministério da Cultura do Go-
verno Lula, de um governo essenci-
almente transformador e democrá-
tico, de um governo que pretende -
vai – mudar o país, esta não é, de
modo algum, uma visão saudável,
lúcida ou justa da realidade cultural.
E é por esta razão que não trabalha-
mos com um conceito acadêmico,
restritivo e elitista de cultura. Ado-
tar um conceito restritivo de cultura
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