CLIENTE: Gilberto Gil
VEÍCULO: Folha de S. Paulo - SP
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‘O entrevistador é um ruído', diz Faro
Jornalista relembra fatos
importantes de sua carreira,
como sua relação com Chico
Buarque e Elis Regina e
problemas com a censura
Ilustrada
20/06/2007
Apresentador do ‘Ensaio' completa 80 anos amanhã e ganha especial na Cultura, com participação de Paulinho da Viola
Arquivo pessoal
respostas dele, e editei. Gostei
daquilo. E comecei a fazer tudo
trevistado falando.
esse formato, só com o en-
FARO - A idéia dos closes tam-
bém veio do McLuhan. Ele di-
zia que uma [tomada) geral de
televisão é só uma imagem. Vo
cê não vê nada. Você comprova
isso em um jogo de futebol: vo-
cê não sabe como é a cara dos
jogadores. Ai eu disse: "A solu-
ção é o close e o meio-close". Eu
lembrava também que Picasso
usava close e meio-close.
O programa "Ensaio", inicia-
do em 1969 na Tupi e hoje exi-
bido nas noites de quinta-feira
na Cultura, tornou-se um mar
co tanto da televisão quanto da
música brasileira. De Elis Regi-
na a Tim Maia, de Chico Buar
que a Racionais MC's, pratica-
mente todos os mais conheci-
dos rostos da MPB foram foca-
lizados em close pelas câmeras
do programa, em entrevistas
em que não se ouve as pergun-
tas do
respostas do entrevistadas as nha dado 45, 48 pontos. O do
FARO. Gravei programa como
Vinicius de Moraes, o Martinho
da Vila, que foi um escândalo.
Tinha acabado de fazer com o
Vinicius. Quando disse que ia
fazer programa com o Marti-
nho, os caras começaram a vi-
rar a cara. Mas o programa do
Martinho deu uma barbaridade
de audiência. O do Vinicius ti-
O entrevistador é Fernando
Faro, mas pode chamá-lo tam-
bém de jornalista (trabalhou
nos extintos "Ultima Hora" e
"A Noite"), apresentador, ra-
dialista (foi ele quem levou os
primeiros textos teatrais ao rá-
dio brasileiro, nos anos 50),
produtor de shows (fez o últi-
mo de Elis, além de um em An-
gola com Chico Buarque e Do-
rival Caymmi, em 1980), pro-
dutor de discos (de Eduardo
Gudin e Cristina Buarque)...
Amanha, Faro completa 80
anos e ganha um especial da
Cultura (leia texto ao lado). A
seguir, o apresentador fala à
Folha. Como no "Ensaio", leia
só as respostas do entrevistado.
THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL
RONALDO EVANGELISTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
FERNANDO FARO . Li uma vez,
acho que foi Marshall McLar-
han (teórico dos meios de co-
municação), que a gente tem
que ter cuidado com a informa-
ção e com o ruido da informa-
ção. O apresentador é um ruído
enorme, um barulho enorme
numa entrevista. Resolvi fazer
isso depois de uma entrevista,
em 1959, com um bandido cha-
mado Jorginho. Eu estava no
telejornal da TV Paulista quan-
do o Jorginho foi preso. Fui na
delegacia entrevistá-lo. Disse-
ram: "Você não pode entrar na
cela". Dei o microfone para o
Jorginho e fiquei do lado de fo-
ra, com o gravador. E comecei a
perguntar várias coisas. Peguei
o material, que tinha apenas as
Martinho deu uns 60. Naquele
tempo (meados dos anos 70).
colocava-se muito académico
na TV. Eu coloquei gente da
rua. Depois que deu audiência,
todo mundo se acalmou.
FARO - Fiz os festivais da Tupi.
pois fui o diretor musical da TV
de 1968 a 1972. Uma vez chegou
alguém e disse: "O general
mandou te chamar". O general
era o encarregado da censura.
Num programa, o "Móbile", eu
coloquei uma água-viva, sem
texto, sem nada, e uma mão jo-
gando sal, que dissolvia a água-
viva. Disse: "General, não tinha
texto, não tinha música". E ele:
"É, mas a gente te conhece. V
cê estava querendo dizer que a
água-viva é o povo, e o saléogo-
verno que esmaga as pessoas".
FARO - Sempre me preocupei
com o tamanho deste país. Sou
de Sergipe. Tinha coisas lá que
o país todo tinha de saber. A TV
pública deve cobrir as manifes-
tações (culturais) que aconte-
cem no país. São regiões hete
rogêneas, multiculturais, cada
uma tem coisas para mostrar
FARO. Uma vezeu cheguei pro
Briamonte, que foi o primeiro
maestro do Eduardo Gudin, pa-
ra fazer um arranjo. Disse:
"Bria, é o seguinte: você está
deitado, dormindo, aí acorda e
uma escola de samba vem pas-
sando. Ela vem descendo, passa
e vai embora". Ele me disse:
"Nunca vi ninguém fazer ar-
ranjo com uma imagem".
FARO. O Chico Buarque era
muito tímido. Ele não olhava
A partir da esq. O jornalista Fernando Faro (sentado), João do Vale, Fagnere Chico Buarque, em imagem do início dos anos 80
para a câmera. Diziam que ele
tinha olhos bonitos, então botei
a câmera no chão. O Chico não
falava. O Milton era igual
FARO . Tem duas pessoas que
eu queria levar ao programa e
não levei. Uma é a Hebe Ca-
margo. Um tempo atrás estive
com ela e disse: "E o progra-
ma?". "Não vai dar para fazer,
eu estou velha, não vou agüen
tar aqueles closes." Eu disse
que fazia do jeito que ela qui-
sesse, não precisava dos closes.
A segunda é a Rita Lee. Não le-
vei porque não falei com ela,
quero falar. No tempo em que
eu fiz o programa "Divino Ma-
ravilhoso", uma vez nós fomos
para o Rio com os Mutantes. E
ai ficamos amigos. Mas de lá pa-
racá nunca mais falei com ela.
FARO - A Elis viveu em minha
casa um tempo. Ela sempre foi
assim, estava conversando com
você e de repente ficava vesga
se não gostava de algo. Uma vez
foi um cara lá em casa me ven-
der um carro. Ela ficou olhando
e começou a ficar vesga. Aí eu
cheguei e falei pro cara: "A gen-
te conversa outra hora". Che-
guei pra Elis e perguntei o que
houve. Ela: "Po, você não viu a
aura desse cara, ele não presta".
PARA VER E OUVIR
Os melhores momentos
do Ensaio em DVD (e CDs)
Elis Regina
1973 (Trama)
>> Um dos
melhores
"Ensaio"
(quando se
chamava "MPB
Especial
relançado como capricho merecido
--Elisri, chora e canta muito
Nara Leão - 1973 (Biscoito Fino)
> Nara, com elegância e
carisma, mostra sob as câmeras
de Faro porque é uma de nossas
mais importantes cantoras
Cartola - 1974 (Trama)
>> Com participação de Leci
Brandão, o nosso maior
sambista canta e conta sua
história
A Música Brasileira por Seus
Autores e Intérpretes (Sesc)
>> Coleção em oito volumes (e
cem CDs), com o áudio e a
transcrição de uma centena de
edições do programa "Ensaio
Chico Buarque e Gilberto Gil
participam de homenagem
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Em uma entrevista ou mani-
festação artistica, muitas vezes
o erro é mais valioso que o acer-
to. A quebra do programado eo
inesperado revelam mais do
que qualquer planejamento.
Fernando Faro sabe disso, e é
assim que sempre trabalhou:
buscando a vida pelas entreli-
nhas da arte. Em seus progra-
mas, a busca é sempre pela es
pontaneidade, por aquele mo-
mento em que o ensaio vai por
água abaixo e a criatividade ser-
ve à improvisação.
No especial 'Faro 80", grava-
do anteontem para ser exibido
amanhi, aniversário do jorna-
lista e produtor, na TV Cultura,
às 20h, não faltaram momentos
espontáneos. Artistas como
Paulinho da Viola, Velha Guar-
da da Portela, Toquinho, Ro-
lando Boldrin, Vanessa da Mata
e Davi Moraes cantaram em
homenagem a Faro e lembra-
ram histórias, Chico Buarque e
Gilberto Gil mandaram videos
de congratulações. Inezita Bar-
roso e Jair Rodrigues marca
ram presença. Videos e fotos
históricas foram mostradas.
Tudo muito importante, em
um lugar como o Brasil -com
tanta história e tão pouca afei-
ção à memoria cultural-e para
uma pessoa como Faro -tão
fundamental no registro de
tantas pessoas, músicas, histó-
rias e detalhes e sempre tão
atento às novidades, com um
conhecimento que abrange
tempo e espaço muito grandes,
como definiu Chico Buarque.
Só é pena que seus principais
ensinamentos, da espontanei-
dade, naturalidade e leveza não
tenham ainda sido bem assimi-
lados por seus pares. Em tudo
que o programa ganha pelas in-
tenções, perde pela realização,
com roteiro simplista e falta de
charme de uma apresentadora
como Cuca Lazzarotto. A maior
homenagem ainda é tirar os
DVDs do "Ensaio da estante e
assisti-los, e torcer para mais
lançamentos no formato. (RE)
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