JOÃO DONATO
Donato encomendou sua biografia
ao jornalista carioca Antonio Carlos
Miguel. A idéia partiu do próprio bio-
grafado, com o desejo de contar sua
vida em detalhes. A história de ambos,
entretanto, inicia-se em 1974, quando
Miguel o "descobriu” no disco Cantar,
de Gal Costa - no qual toca piano e
compõe: "Fui atrás do LP que lançara
pouco antes, Quem É Quem, e confir-
mei o quanto sua música era especial",
afirma Miguel. Donato ligou certa
noite, em 1985, relembra o jornalista, e
disse que teria um show em São Paulo
na semana seguinte: precisava de um
texto biográfico para a divulgação. Mi-
guel disse que tudo bem, teria o maior
prazer em redigi-lo-poderiam combi-
nar um encontro no dia seguinte,
A proposta não foi aceita. "Me disse
que viajaria cedo para São Paulo e que
só sobrara aquela noite. Era perto das
22h e não tive alternativa. Donato pe-
gou um táxi, chegou em casa e, enquan-
to eu escrevia, sentou no piano e ficou
conversando comigo e minha mulher,
que esper: nosso primeiro filho.
Depois, disse que não tinha como me
pagar, mas escreveria uma música pa
ra Katie o bebê. Até hoje a música não
nasceu - Marlon tem 21 anos e também
adora Donato e sua obra. Além do ido-
lo próximo, ganhei um amigo para toda
a vida", homenageia o amigo.
Q
UANDO PARA PRA PENSAR EM
Donato, a história mais mar-
cante que vem à cabeça do
musico Marcos Valle é a dos
tempos de Quem É Quem. "O Donato
me ligou um dia, de passagem pelo Rio.
Estava em busca de um amor perdido e,
como não o achou, disse estar de malas
feitas para voltar aos Estados Unidos.
Quis saber por que não ficava mais um
pouco. Explicou nada mais ter a fazer
no Brasil, a não ser que lhe conseguisse
algo. Pedi um tempo - meu objetivo era
gravar um disco dele pela Odeon, gra-
vadora com a qual eu possuía contrato
como intérprete."
Valle foi conversar com o amigo
Milton Miranda, diretor artistico da
gravadora, e lançou a idéia. Entretan-
to, por mais que Milton gostasse de
Donato, recusou-se totalmente pelo
trabalho, sabia que o acreano daria. O
músico, porém, não desistiu. Conver
sou 1 com o amigo por horas, até vence
lo pelo cansaço: "Milton disse que, se
produzisse o disco, se tomasse conta,
liberava para gravação", conta.
O maestro Lindolf Gaya, integran-
te da diretoria, também precisava ser
convencido. Sua reação foi idêntica à de
Milton, ou seja, um "não" bem grande.
Confira videos, fotos e depoimentos
de músicos e produtores sobre João
Donato. www.rollingstone.com.br
86 ROLLING STONE BRASIL, JUNHO 2008
DE OUVIDO De pijama, em
casa, Donato, 73 anos, reproduz
no piano os ruidos musicais
de sua poltrona mágica
“Mas insisti até convencê-lo. Pronto,
gravaríamos Quem É Quem".
Imediatamente, Marcos Valle ligou
para Donato, deu-lhe as boas novas
e ordenou que desfizesse as malas:
"Marcamos o primeiro encontro do
álbum lá em casa. Nesse dia, por aca
so, o cantor Agostinho dos Santos fa-
zia uma visita. Ouvimos umas fitas do
Donato com músicas inacabadas-to-
das sem letra - e comecei a organizar
aquilo tudo"
Valle e Donato foram escolher letris
tase arranjadores para o novo disco. Ao
ouvir Donato cantarolar "umas coisas
estranhas” nas fitas, Valle teve a idéia
de anotar as frases. Depois, pediu para
o músico as repetir no estúdio. "Visava
manter o clima das fitas, e assim foi fei-
to em Quem É Quem. Fico feliz em ter
mantido o Donato no Brasil, vendo-o
trabalhar, compor e gravar."
Ficar no país, de fato, só fez bem a Do-
nato. Não esconde seu entusiasmo com
Quem É Quem na carta a João Gilberto,
de 13 de setembro de 1973: “É meu me-
lhor trabalho em discos até o momento,
tendo-se em conta o tempo que demo-
rou, o que demonstra o máximo cuida-
do com o que tudo aconteceu. E o resul-
tado é um disco que acho adorável".
No final dos anos 60, Sérgio Mendes
levou Donato ao Japão pela primeira vez,
acompanhando o grupo Bossa Rio. A'
viagem, revé Mendes, foi a semente que
frutificaria na gravação do mitológico A
Bad Donato. Bob Krasnow, diretor do se-
lo californiano Blue Thumb, foi junto na
turnê, viuo "Goldfinger" do Acreemação
e saiu de la alucinado. O resto é história.
As afinidades musicais entre Mendes
e João cruzaram o tempo. Timeless e
Encanto, os últimos blockbusters de
Mendes, têm cinco canções de Donato.
Foi o acreano quem o acolheu em Los
Angeles, ainda na década de 50: "Ele já
morava lá e encontrou o meu primeiro
apartamento", faz justiça. E complemen-
ta: "É um dos artistas mais incríveis que
conheço. Como pianista, sou grande fa
É o piano econômico do bom gosto", es
colhe as palavras.
A
NTES DE FALAR SOBRE SEU
disco mais psicodélico, o
criador anuncia a novidade
a gravação de A Bad Do-
nato 2, prevista para este ano. Ele expli-
ca como será produzida: "A metodologia
será a mesma de 38 anos atrás, mas com
tecnologias e sonoridades atuais. A ca
beça é a mesma de sempre", constata.
E a música de A Bad 2?
– "Só precisa ter suingue, balanço,
ritmo, animação, sei lá como é. Senão
fico meio sem graça", descontrai.
-"A Good Donato", arrisco.
Ivone rebate prontamente: "A God!".
E todos desabam em gargalhadas.
Lá pelos idos de 1970, Donato não
desconfiava da atemporalidade do dis-
co: "Nunca tenho idéia da importância
das coisas. Nada é pretensioso ou am-
bicioso. Faço fazendo. Tudo é tão sim-
ples", desmistifica.
-Como foi gravar A Bad Donato? -
quero detalhes.
"Entrei no estúdio e saí tocando
com os camaradas. Busquei o estilo
funk de James Brown, que me entu-
siasmava na época e ainda hoje", diz
com a peculiar simplicidade.
E a malvadeza do nome?
-"Partiu do pessoal da companhia.
Deveria ser João Donato & sua Or-
questra, mas era muito careta. Alguém
pensou em A Bad Donato e ficou" -
narra o protagonista.
Ano passado, Donato foi convidado
para fazer o show inédito - no Brasil
e no mundo - de seu disco mais expe-
rimental. Topou. Recrutou os músicos
de sua banda - Robertinho Silva (bate-
ria), Luiz Alves (contrabaixo), Jessé Sa-
doc (trompete) e Ricardo Pontes (saxe
flauta) -, chamou o reforço de Bocato
(trombone) e alistou o filho, Donatinho
(23, tal qual o pai, autodidata do piano),
para cuidar dos efeitos siderais do es-
petáculo A Bad Donato.
A experiência foi testada no projeto
Virada Cultural. “Foi sensacional", diz
Donatinho. "O público urrava quando
meu pai adentrou o palco vestindo ca-
saco com capuz, boné e óculos escuros.
Donato pai aprova e quer repetir a do-
se: "Deu vontade de tocar mais".
Só para constar: Donato tem 198 ga-
vetas abarrotadas de fitas cassete com
gravações autorais, de todas as suas
fases - ora organizadas pelo jornalista
Marcelo Froes, proprietário do selo
fluminense Discobertas. Talvez, um
dia, essa preciosidade ganhe edições.
O SOBRADO NA URCA, DIAN-
te da fiel Shiatsu Massaging
Cushing, João Donato-ho-
mem cuja musicalidade fala
no lugar das palavras-repete ao piano a
harmonia composta a partir dos ruídos
emitidos pelo assento musical. Indago
se a criação incidental tem nome. Me
diz que não
Ouso propor: "Que tal 'Samba da
Poltrona Magnética?".
Rie quase aprova: "Samba da Cadei-
ra de Massagem", refaz, satisfeito.
jornalista CRISTIANO BASTOS é co-au-
tor do livro Gauleses Irredutíveis (Edito
ra Sagra Luzzatto).
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