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Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil

Instituto Gilberto Gil

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Brasil

  • Título: Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil
  • Transcrição:
    NOS ANOS 70, ROBERTO E CAETANO ESTIVERAM PRÓXIMOS ATÉ NO VISUAL HIPPIE. PARA DESGOSTO DA MORAL VIGENTE, AMBOS EXIBIAM OS CABELOS ENCARACOLADOS E OSTENSIVAMENTE LONGOS O próprio Roberto, num depoimento de 1978 à revista Veja, afirmou: "Enquanto ninguém tinha coragem de can- tar minhas músicas, Caetano cantou". Não. Esse pionei- rismo não coube a Caetano nem a sua irmã, Maria Bethâ- nia. Na verdade, foi Sylvinha Telles a primeira estrela da nossa música a defender, cantar e gravar canções do rei da jovem guarda. Em 1966, ela registrou uma versão bos sa nova de Não Quero Ver Você Triste. E pagou um preço alto por isso: o preço da patrulha e da intolerância. Aquele era um tempo de guerra e de guerrilhas no cam po da música popular. De início, os artistas mais intelectua- lizados e afinados com o ideário nacionalista procuravam ignorar a produção do chamado iê-iê-iê. Mas depois do es- trondoso sucesso de Quero que vá Tudo pro Inferno, no fim de 1965, todos tiveram que se posicionar contra ou a favor de Roberto Carlos. Não dava mais para ficar indiferente ou em cima do muro. Maria Bethânia, por exemplo, se posicionou contra, como se vê no documentário Bethânia Bem de Perto, dirigido por Julio Bressane e Eduardo Escorel, em 1966. Elis Regina e Geraldo Vandré fizeram o mesmo. Idem Caetano Veloso - como ele próprio me confirmou. "Eu não gostava de Roberto Carlos, não tinha interesse. Nem nos Beatles eu tinha qualquer interesse. Eu achava o rock um negócio muito primário, uma coisa quadrada, antiquada e chata." Caetano ouvia basicamente João Gilberto e expoen- tes do jazz como Miles Davis, Jimmy Giuffre e Chet Baker. Só passou a se interessar pelo universo pop a partir do fim de 1966, sobretudo depois de ler Cultura de Massas no Século 20, do filósofo francês Edgar Morin, e ver os fil- mes nos quais o diretor Jean-Luc Godard redimia o cine- ma de Hollywood e até a publicidade. No começo de 1967, Maria Bethânia - àquela altura já seduzida pela música de Roberto - aconselhou o irmão a ver o programa que o cantor apresentava nas tardes de domingo na TV Record. "Eu já estava me interessando pela cultura de massas, e esse toque da Bethânia caiu num terreno fértil dentro de mim", contou Caetano, que se disse maravilhado com o que viu e ouviu, e, aí sim, passou a elogiar Roberto e a discutir com quem criticava o ídolo da jovem guarda. O resultado disso tudo apareceu no palco do 3° Festi- val de Música Popular Brasileira da Record, em outubro de 1967. Acompanhado pelas guitarras elétricas dos Beat Boys, Caetano defendeu a sua Alegria, Alegria - marco do início do tropicalismo, que equacionou e superou o di- lema MPB versus iê-iê-ie. A partir daí, o baiano e Roberto 50 www.revistabravo.com.br 08/2008 vivenciaram um longo período de harmonia, que ganhou contornos mais fortes entre 1968 e 1978, os duros anos do Al-5. Nessa época, eles estiveram próximos até no vi- sual hippie. Para desgosto da moral vigente, ambos exi- biam os cabelos encaracolados e ostensivamente longos, como se pode constatar nas capas de seus discos dos anos 70 e na fotografia que abre esta reportagem. EXÍLIO O primeiro grande encontro de Roberto e Caetano acon- teceu em Londres, em novembro de 1969. Até então, os dois haviam estado poucas vezes juntos e sempre naquela corre- ria dos programas de televisão. Foi, portanto, durante o exílio de Caetano que pela primeira vez a dupla pôde sentar, con- versar e se conhecer melhor. Caetano dividia uma casa no distrito de Chelsea com Gilberto Gil, também exilado pelo go verno militar. Roberto, que filmava o Diamante Cor-de-Rosa na cidade, telefonou perguntando se podia passar lá para fazer uma visita. "A gente ficou emocionado já de saber que ele viria", lembrou Caetano. Roberto também ficou bastante tocado com o encontro. Ao regressar para o Brasil, resolveu fazer uma canção em homenagem ao amigo: Debaixo dos Ca- racóis dos Seus Cabelos. Lançada em 1971, poucos associa- ram a música a Caetano, porque a letra não mencionava dire- tamente o artista. Nem poderia ser de outra forma, já que a censura não admitia a citação de exilados pela ditadura. Valendo-se também de linguagem cifrada, Caetano compôs em 1971, para Roberto gravar, a canção Como Dois e Dois, na qual fala de si mesmo, do Brasil e do exilio: "Tudo vai mal, tudo/ Tudo é igual quando eu canto e sou mudo/ Mas eu não minto, não minto/ Estou longe e perto...". Até hoje, Roberto gravou três composições de Caeta- no. As três exatamente no período de 1968-1978 e, não por acaso, todas tendo como tema o ato de cantar em contextos conflituosos. Além de Como Dois e Dois, ele foi o porta-voz de Muito Romântico (1977) e Força Estranha (1978). Esta úl- tima Caetano fez dias depois de cruzar com Roberto num corredor da Rede Globo. No momento do abraço, Roberto comentou que o amigo estava um garotão, como se o tempo não passasse para ele. "Você também, Roberto, está muito bem." Aí o cantor respondeu: "É, bicho, o artista nunca en- velhece". Caetano ficou com essa frase na cabeça e, a partir dela, compôs a canção, que em uma das estrofes diz: "Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista/ O tempo não pára e, no entanto, ele nunca envelhece...". FOTO CLAUDIO EDINGER
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