Música Show:
O iconoclasta sob o terno do ministro
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É fato. O artista se debate de-
baixo do terno do ministro, e
wameaça escapar. Gilberto Gil
- trouxe seu novo show Banda
Larga para São Paulo, e es-
treou na noite de quinta-feira,
smo Citibank Hall, com um pi-
mque e uma sofreguidão que pa-
recem referendar seu desejo
atual de voltar-se mais para o
slado músico do que permane-
-10er na seara política.
Gil, aos 65 anos, é o próprio
Novas canções que Gil mostra em Banda Larga são cheias de sarcasmo e ousadia formal, mas a faceta política está sempre lá
JOSÉ PATRICIO/AE
Vovô-menino: saltita no palco,
rebola, faz careta de Jimi Hen-
drix solando ao lado do filho,
Bem Gil (guitarrista de sua
banda), manda
beijinho pela in-
ternet para a filha Bela, que o
assiste
em Nova York, e faz pa-
pel explícito de pai coruja ao
lembrar da recente viagem da
outra filha, Preta, para assistir
ao show de Beyoncé, que ela
gravou no celular e lhe mos-
trou, "bonitinho, com a ima-
gem perfeita, som perfeito".
Lá pelo final do show, uma
mulher ordena dos camarotes.
"Para de falar e canta!" Prova-
velmente, uma típica represen-
tante daquilo
que o ex-governa-
dor Cláudio Lembo chama de
"elite branca" - era como se dis-
sesse: comprei a mercadoria e
quero a entrega agora! Para
aquela senhora, não se tratava
de arte, mas de consumo. Mas o
cantor não perdeu o rebolado.
"Deixa eu falar. Não são muitas
as oportunidades que a gente
tem para falar livremente", pe-
diu, como desarmador jeito zen
queo caracteriza, sob aplausos.
CLIENTE: Gilberto Gil
VEÍCULO: O Estado de S. Paulo - SP
SEÇÃO: Caderno 2
DATA: 18/08/2007
"Tenho 65 anos, a voz cansa-
da. Não precisava estar aqui.
Podia fazer como fiz em março,
quando peguei meu violãozinho
e passei três semanas tocando
nos Estados Unidos. Tocando
aquelas coisas, Super-homem, a
Canção. Mas estou aqui por vo-
cê, Bela, minha filha. Por você e
por todos os meninos aqui, do
Brasil e do mundo", disse.
O show começou às 22 horas
com Pela Internet e terminou
com o velho éxtase coletivo, to-
do mundo dançando ao som de
Could You Be Loved?, de Bob
Marley, e Toda Menina Baiana,
à meia-noite. No meio de tudo,
Gil apresentou um set de reden-
ção ao samba, com uma aula so-
bre as diferentes "famílias" do
gênero: o samba de breque, o
samba rock, o samba jazz. E so-
bre a diáspora do baião.
Entre um e outro bloco, ele
encaixa músicas inéditas, no-
vas pérolas de um cancioneiro
robusto: o Oco do Mundo, Não
Grude não e Não Tenho Medo da
Morte, essa última belíssima vi-
são crepuscular, que ele apre-
senta ao violão. Evoca a nova
canção de Paul McCartney, The
End of the End, sobre o mesmo
tema: a aproximação da morte.
Ele compara a morte, entre ou-
trasimagens, aum ex-presiden-
te que se vê obrigado a passar a
faixa para seu sucessor.
VOVÓ-MENINO-Gil
parece mais feliz que nunca com o palco e a música
Mundo, com a letra projetada
num telão ao fundo, ele mos-
tra que sua poética está cruen-
ta, sarcástica: "O oco do mun-
do além/Além do mal e do bem/
Da verdade nua e crua/Além do
saber dos sábios/Além do Deus
dos esnobes/O oco do mundo é o
bobs/No cabelo da perua."
Os versos o reapresentam
como um compositor ousado,
letrista desafiador, iconoclas-
ta. Em Não Grude não, ele diz
"Me ajude a me escafeder/
Quem se escafede não fede" e
brinca marotamente com pa-
lavras e expressões dúbias, co-
mo "Quer alho?". Em o Oco do
Brinca com a própria per-
formance no "carnaval ecléti-
co da Bahia, onde os trios elé-
tricos tocam até o Bolero de
Ravel". Aí, diz que não conse-
guiria tocar o Bolero, mas cer-
tamente pode tocar Dorival
Caymmi e Beatles. E emenda
Marina e Get Back.
Há rumores de que Gil pre-
tenda deixar o ministério e tal-
vez dedicar-se à disputa pela
prefeitura do Rio. Seus assesso-
res mais próximos crêem que,
se ele deixar o MinC, vai ser pa-
ra tirar o time de campo tam-
bém da política. Mas, em Gil, o
que é arte nunca prescinde do
político, e seu show não pode-
ria ser mais engajado.
Épolítico quando reafirma a
importância cultural de artis-
tas populares como Gorduri-
nha, Jackson do Pandeiro, Car-
tola. É político quando discur-
sa sobre as múltiplas possibili-
dades que a tecnologia traz pa-
ra o novo mundo, acenando
com "novas possibilidades de
uma certa restituição do prota-
gonismo popular". É por conta
disso que "setores conservado-
res estão reticentes", pondera.
É político ao cantar um ro-
ck'n'roll que não cantava havia
muito tempo, Sou Feliz por Um
Triz, e comentar: "Tem uma le-
tra que permanece contempo-
rânea, felizmente. Ou infeliz-
mente." Na letra, tudo se expli-
ca: "Mal escapo à fome/Malesca-
po aos tiros/Mal escapo aos ho-
mens/Mal escapo ao vírus."
A turnê Banda Larga passou
por 17 cidades da Europa e pelo
Rio. Ontem, Gil tocaria mais
uma vez no Citibank Hall..
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