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Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil

Instituto Gilberto Gil

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Brasil

  • Título: Documentos do Arquivo Pessoal de Gilberto Gil
  • Transcrição:
    Plural SOBRE O TRABALHO QUE LIBERTA LIVRO Narrativa de Primo Levi critica a grave distorção contida no lema de Auschwitz POR MUSTAFA YAZBEK E screveu romances, poemas, con- tos e ensaios. E foi químico. Pri- mo Levi nasceu em 1919 de uma família judeo-italiana que lhe per- mitiu crescer ligado aos livros. Em 1939 ingressava no curso de Química da Universidade de Turim. Conheceu es- tudantes antifascistas e, diplomado, en- trou em uma indústria farmacêutica suíça em Milão. Combateria os ocupantes ale mães do Norte da Itália, mas, capturado em 1943, foi mandado ao campo de exter- mínio de Auschwitz, na Polônia ocupada pelos nazistas. Ali esteve preso por quase um ano, até ser libertado pelos soviéticos. No fim da guerra, voltou a Turim, onde foi contratado por uma empresa de fabri- cação de verniz. Retomada sua vida de químico industrial em 1946, casou-se com Lucia Morpurgo, e tiveram dois fi- lhos, Lisa Lorenzo e Renzo. Sua carreira não foi obscura. Em conversa com o escri- tor Philip Roth, diria: "Nossa companhia, assim que abriu, especializou-se na pro- dução de esmaltes para fios, isolantes para condutores elétricos de cobre. No auge da minha carreira, eu era um dos 40 especia- listas nisso em todo o mundo". 50, chegou a ser obrigatório nas escolas italianas. Em Os Afogados e os Sobreviven- tes, reflete também sobre os campos e ex- pressa a esperança de que o horror não se repita. Sempre relata o obscuro universo presente em sua memória e que descre- veu recorrendo a versos de Coleridge: Sin- ce then, at an incertain hour/That agony re- turns (Desde então, a uma hora incerta/ re- gressa essa agonia). Nem sempre seus livros tratam dire- tamente da experiência na guerra. Um exemplo são os contos de A Tabela Perió- dica, nos quais usa carac- terísticas dos elementos químicos como metáfo ras para falar de diferen- tes tipos de pessoas. A Chave Estrela, de 1978 e agora lançado no Brasil, louva o operário e o trabalho. Há quem o classifique como roman ce; para outros, é uma coletânea de contos com Após deixar a atividade industrial já es- crevia intensamente, e publicou depois da guerra E Isto um Homem?, memórias tidas como um dos textos mais expressivos so- bre a tragédia vivida pelos judeus. A obra mostra seu horror no co tidiano em Auschwitz. As histórias são Dos 650 judeo-italianos foi um dos 20 sobrevi- ventes. É um relato de talhado da experiência minadores, mas também com as possibilidades que o acompanharam, protagonizadas por um mesmo Libertini que opera pontes e barragens em contato com os do . O livro, no fim dos anos 78 CARTACAPITAL 8 DE ABRIL DE 2009 o mesmo protagonista central, Libertini Faussone, responsável por operar equi- pamentos utilizados para construir pré- dios, pontes, torres e barragens. Faussone relata suas viagens a trabalho e diz como age, dialogando com o narra- dor. Contrapondo-se ao tema em questão, o texto corre com certa suavidade e com linguagem clara. Há todo tipo de aventu- ras de Faussone, operário de alta especiali- zação. Falador, criativo e observador, ele é um idealista que Levi definiria como "meu alter ego" para valorizar o trabalho como libertador: “O amor ao próprio trabalho (que, por infelicidade, é privilégio de pou- cos) constitui a melhor aproximação à feli- cidade na terra", deixou registrado. Durante o tempo vivido sob opressão, Levi familiarizou-se com a palavra de or dem exibida à en- trada dos campos: "O trabalho liberta" Em seu exaltado louvor ao trabalho faz a crítica da dis- torção da aborda gem nazista e enfa- tiza o que Faussone diz: "Para mim, cada trabalho que empreendo é como um primeiro amor" Levi deixou um grande número de obras escritas. A Trégua refere-se a seu retorno para casa após a liberta- ção, a longa via- gem à Itália depois de Auschwitz. Se Não Agora, Quando? trata da Resistência. Levi critica a noção corrente de passividade por parte dos ju- deus diante dos nazistas. Em 2002 foi publicado postumamente Último Natal de Guerra, coletânea de textos que ha- viam saído em vários jornais e revistas. Morreu em 11 de abril de 1987, ao cair do terceiro andar do prédio em que morou quase toda a vida, em Turim. Al- guns biógrafos atribuem o fato a um aci- dente, em consequência de remédios que tomava. Há quem diga que se ati- rou no espaço da escada interior do pré- dio. Oficialmente, ele suicidou-se, ape- sar de não ter deixado qualquer indica- ção de que isso estava em seus planos. A OBRA. A Chave Estrela, de Primo Levi. Tradução: Mauricio Santana Dias. (Companhia das Letras, 200 págs., R$ 31)
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