Marco Nanini
Uma conversa franca com um dos atores mais engraçados do Brasil sobre sua aversão ao
mundo das celebridades, lições de Dercy Gonçalves, decepção com Gilberto Gil, brigas com
Ney Latorraca e o desespero de se olhar no espelho e dar de cara com o Lineu, de A Grande Família
O"
uem associa artistas de cine-
ma e televisão a um universo
de glamour pode se surpreen-
der ao conversar com Marco Nanini.
Considerado um dos melhores atores
de sua geração, seu maior pesadelo é se
verilhado em meio a uma multidão de
"celebridades" num camarote de cerve-
jaria no Carnaval carioca. Avesso à ba-
dalação, prefere ficar em casa a com-
parecer a qualquer com flashes
e muita gente em volta. Não é de estra-
nhar, portanto, que se anime, entre
uma baforada e outra de cigarro Par-
liament, a filosofar sobre o exercício de
atuar na mesma medida em que evita a
todo custo falar sobre sua vida pessoal.
Em mais de 40 anos de profissão, es-
se pernambucano com personalidade
mineira conseguiu transitar com im-
pressionante desenvoltura no teatro,
na televisão e no cinema, construindo
uma sólida carreira dentro da história
66 Gilberto Gil começou a tachar
artistas mais conhecidos de
consagrados' e criou uma cisão
partidária na classe. E não resolveu
nada. Enquanto isso, usou o prestigio
de ministro para fazer shows
FOTOS CAMILA MARCHON
do humor brasileiro. E, aos 61 anos, se
gue atuando em todas essas frentes. Na
TV, há dez anos interpreta o funcioná-
rio público Lineu no humorístico A Gran-
de Familia, da Rede Globo. No dia 23 de
julho, estreia nas telas de cinema sua
versão para o Bem Amado, de Dias Comes
-que ele já havia interpretado no teatro
- dirigida por Guel Arraes, e até setem-
bro deve pisar no palco com a peça Ptero-
dáctilos, sob o comando de Felipe Hirsch.
Para esta entrevista, a PLAYBOY es-
teve com Nanini em duas ocasiões.
Na primeira, visivelmente acima do
peso, o ator pediu à repórter Camila
Gomes que o encontrasse no galpão
que mantém no bairro da Gamboa, na
zona portuária do Rio de Janeiro, onde
são oferecidas atividades gratuitas pa-
ra a comunidade local, como aulas de
teatro e de lutas. A conversa se esten-
deu e terminou na Casa de Hóspedes,
outro imóvel do ator no bairro do Hu-
66 Eu era discriminado porque não
fumava numa época em que todos
fumavam e isso era considerado
charmoso e chique. Aí comecei a
fumar, e agora a discriminação é ao
contrário: é porque eu fumo
maitá, inaugurado em 2008 para abri-
gar artistas em temporada na cidade.
Três meses depois, Nanini recebeu
a repórter em sua ampla e agradável
casa no bairro da Lagoa, onde vive com
cinco cachorros. Estava 16 quilos mais
magro devido a um programa de dieta
aliado a exercícios físicos recomenda-
do por seu médico. Até ali eram visí-
veis as marcas da tragédia provocada
pelas chuvas de abril na cidade: o ter-
reno íngreme ao lado da casa que abri-
gava um imenso jardim não suportou
e cedeu devido aos temporais. "Acon-
teceu em 3 segundos. Escutamos um
barulho muito forte e, quando vimos,
tudo havia despencado", lamenta.
Nascido em Recife em 1948 e filho
de pai hoteleiro, Nanini mudou-se ain-
da criança com a família para Manaus,
"naquela época uma cidade ainda mais
exótica e impressionante", segundo
ele. De lá partiu, em 1957, para Belo Ho-
66 Acordar com a cara do Lineu todos
os dias é asfixiante. Quando olho
no espelho, não quero ver a cara do
Lineu, quero ver a minha cara. Por
isso escureco o cabelo dele. Para não
ficarmos tão parecidos
MAIO 2010 PLAYBOY
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