entrevista_gilberto gil
PLAYBOY O senhor se sentiria roubado
se um jovem baixasse o disco Refa-
zenda gratuitamente na internet?
GILBERTO GIL Eu não. Já estou disponi-
bilizando diretamente, por meio de
licenças especiais, acessos parciais,
usos compartilhados da minha obra.
Sou particularmente a favor de mais
compartilhamentos
PLAYBOY Mas o senhor só comparti-
lhou até agora um de seus discos, O
Sol de Oslo. Pretende compartilhar
sua obra inteira?
GILBERTO GIL Na medida do possível, na
medida em que seja detentor da pro-
priedade dos meus fonogramas. Tenho
vontade de compartilhar bastante, não
sei se tudo, mas boa parte.
PLAYBOY Mas se o senhor não for do-
no de seus fonogramas, ninguém
mais será, ministro...
GILBERTO GIL E quase nenhum artista
brasileiro é de fato, já que a maioria
está presa a contratos. No meu caso,
os fonogramas que foram produzidos
pela gravadora ainda são de proprie-
dade da gravadora. O único que é meu
mesmo é o Sol de Oslo.
PLAYBOY Nos últimos anos o senhor
lançou homenagens a Bob Marley,
Luiz Gonzaga e discos ao vivo. Está
vivendo uma crise criativa?
GILBERTO GIL Eu vivi isso lá atrás, em
1982. Depois, dos anos 1990 pra cá,
nunca mais. O último resíduo desse
tipo de angústia criativa foi no disco
Quanta (de 1997), que levei três anos fa-
zendo, mas tinha muito a ver com o
próprio gigantismo da coisa que me
impus, falar de arte e ciência e dessa
angulação pós-acadêmica que o mun-
do quântico oferece. Até me desculpo
esses resíduos de angústia criativa por
causa disso. Foi a tarefa mais comple-
xa que me impus.
PLAYBOY Quantas músicas compôs
nesses quatro anos de governo?
GILBERTO GIL Duas, ambas com Jorge
Mautner, "Os Pais" e "Outros Viram".
A primeira é uma balada sobre a con-
68 PLAYBOY TUNHO 2007
tradição entre liberdade e repressão, e
a outra é sobre o Brasil como um pólo
especial de aglutinação de novidade,
de inventividade histórica, e o fato de
que Walt Whitman, Maiakovski, The-
odore Roosevelt citaram o país nesse
sentido, reconhecendo o seu potencial
em relação a outros povos.
PLAYBOY Quando sua filha Preta Gil
ficou nua na capa do disco dela, o
senhor se manifestou contrário.
Sua filha o constrange?
GILBERTO GIL Não gostei quando ela
ficou nua, mas não me constrange,
não. Eu convivo com o histrionismo
excessivo da Preta há muitos anos. Pre-
ta é igual, ela era assim quando tinha
cinco, seis anos, montava o palco no
66 Não gostei
quando ela ficou nua,
mas Preta sempre
foi assim. Convivo
com o histrionismo
excessivo dela
há muitos anos"
jardim da nossa casa e passava horas
cantando, representando, inventando
personagens. Ela sempre foi assim.
PLAYBOY Gostou do disco dela?
GILBERTO GIL Musicalmente gosto, gosto
da voz. No primeiro disco fiz algumas
restrições, e conversei com ela sobre
isso. Ela tinha uma espontaneidade,
mas também uma certa negligência
em relação à técnica. Por exemplo, ela
tem uma voz tendente ao contralto
muito mais que ao soprano, que a leva-
va a escolher tonalidades baixas para
determinadas músicas que, pela pró-
pria composição, exigiam tonalidades
mais altas para poder manifestar sua
qualidade como canção. Eu chamei a
atenção, fui aos shows, e no segundo
disco ela corrigiu esse problema.
PLAYBOY O senhor concorda com
Rita Lee, que disse que a volta dos
Mutantes era uma atitude de um
bando de velhinhos ganhando di-
GILBERTO GIL Ela inclusive, né? Está pa-
gando por outros consultórios, como
nós todos... Eu gostei muito. Não vi a
volta, não assisti a volta, mas gostei
do evento, da notícia.
PLAYBOY Não há o risco de expor o
Arnaldo Baptista, que ainda apre-
senta algumas seqüelas de saúde,
ao ridículo?
GILBERTO GIL Afinal de contas, o que é
isso agora, contra os portadores de de
ficiências, quaisquer que sejam? Eles
não têm direito ao gozo pleno das
suas deficiências? Não podem estar
na vivência dos limites? Quando Ar-
naldo, que tem aqui e ali disfunções
motoras ou quaisquer que sejam - e
são irrisórias no caso dele - pode to-
car, se alegrar, alegrar outras pessoas,
fazer-se veículo da musicalidade, criar
pólos lingüísticos com outras pessoas e
dialogar com elas, o que há de ridículo
nisso? Não vejo ridículo algum.
PLAYBOY No ano passado, o Carlinhos
Brown reclamou com o senhor so-
bre o "apartheid escroto" que o Car-
naval baiano teria se tornado. O se-
nhor sente segregação no Carnaval
baiano, entre cordas e abadás?
GILBERTO GIL Não é que eu sinta, é uma
segregação. Isso vem do período impe-
rial, quando o povo fazia o Carnaval na
frente dos palácios, e depois nos clu-
bes. o Carnaval sempre foi uma festa
ligada à nobreza, ao mundo católico,
uma janela permissiva dentro das in-
terdições da vida católica. Aqui é assim
também, foi feita assim, com o povo
participando e compartilhando da fes-
ta em vários níveis.
PLAYBOY O seu camarote, o Expresso
2222, é parte dessa segregação?
GILBERTO GIL Parcialmente sim, parcial-
mente não. Como é que a gente tenta
equilibrar as coisas? Fazendo com que
ele seja aberto. Ele não é pago, e nós
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