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Documents from Gilberto Gil's Private Archive

Instituto Gilberto Gil

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Brazil

  • Title: Documents from Gilberto Gil's Private Archive
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    FOTOS ARQUIVO PESSOAL Tpm. Na maioria das comunidades reli- giosas nagôs (uma das principais "nações" do candomblé), as mulheres é que lideram. De onde vem essa tradição? Mãe Stella. É preciso deixar claro que os orixás são simbolizados por forças na- turais, que são os fenômenos da nature- za, portanto não têm sexo. O candomblé não é uma religião só de negros, só de mu- lheres. Se há essa tradição nos terreiros, de a mulher estar no topo da hierarquia, ela se deve às pioneiras do candomblé no Brasil, princesas africanas que vieram para a Bahia no fim do século 18 e fundaram e comandaram suas casas religiosas. Eu, par- ticularmente, acho muito bonito, charmo- so, mulher como mãe-de-santo. A sua grande referência é Mãe Aninha, fa- mosa por ter sido uma ialorixá elegan- te, influente, que falava francês, tocava piano. O que ha de Mãe Aninha em Mãe Stella? Ela era independente financeira- mente, numa época em que as mulheres eram submissas aos homens. Tinha uma quitanda, conseguiu guardar dinheiro pa- ra comprar o terreno aqui em São Gon- çalo do Retiro, onde fundou o Opô Afon- já. Era uma mulher muito generosa tam- bém. Chegou a dar um par de brincos de A esq., foto do álbum de formatura na Escola de Enfermeiras da Bahia, em 1945. A dir., com Gilberto Gil, nomeado ministro de Xangô. “Ele é um homem iluminado e de hábitos simples" ouro com rubis para uma filha-de-santo que passava necessidade financeira. Era sábia, respeitada por todo mundo, inclu- sive pelos políticos. O que ha de Mãe Ani- nha em mim? Meu filho, é nela que eu me espelho. É meu ídolo. Mäe Aninha conseguiu até uma audiência com o então presidente Getúlio Vargas... Sim. Com a ajuda de Osvaldo Aranha [po- litico influente da época, amigo e aliado de Vargas) e de Jorge Amado), que era depu- tado federal. Ela foi até o Palácio do Catete sede do Governo Federal). Estava cansada da perseguição aos cultos e queria respei- to por parte das autoridades. E conseguiu. A audiência resultou no decreto presiden- cial 1.202, que permitiu aos terreiros exer- cerem seus rituais religiosos, antes proi- bidos por lei. A senhora, bisneta de escravos, estudou em bons colégios, freqüentados por bran- COS... Quando minha mãe morreu, eu ti- nha 6 anos. Fui morar com meu tio, um homem de posses, dono de cartório. E ca- tólico fervoroso. No caminho para a esco- la, eu passava por quatro igrejas e rezava em todas. Cumpri todos os rituais cató- licos: batizado, primeira comunhão, cris- ma, até ser iniciada no candomblé por uma tia, aos 13 anos. Passei muitos anos fre- qüentando as duas religiões, E como era freqüentar duas religiões com- pletamente antagônicas, numa época em que o preconceito em relação aos cultos africanos ainda era muito forte? Terrivel. Principalmente por parte dos católicos. Eles me diziam, horrorizados: “Você es- tá acendendo uma vela para Deus e ou- tra para o diabo". Mas eu não me deixava influenciar, pois minha própria familia, apesar de católica, respeitava e freqüen- tava os cultos. A senhora estudou no colégio Nossa Se- nhora Auxiliadora, um dos mais tradicio- nais de Salvador. Provavelmente, era a única estudante negra. Sofreu muito pre- conceito? Sim, era a única negra. Era vista com uma certa curiosidade pelas outras alunas. Mas não era maltratada. A dona do colégio não admitia que eu sofresse preconceito. Como foi conciliar por 30 anos a profissão de enfermeira e o trabalho no Afonjá? Nunca misturei o meu trabalho com reli- gião. Nem poderia.
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